A Criança e a Morte

“Como se fora uma brincadeira de roda, memória…
Renascer da própria força, própria luz e fé, memória…
Não tenha medo, meu menino povo, memória…” (Redescobrir – Gonzaguinha)

Quando eu era criança eu ia ao cemitério com minha mãe visitar o túmulo de meu pai, pois ele morreu quando eu tinha apenas 2 anos e 7 meses. Não havia nenhum problema. Aliás, para mim era tão somente um passeio num lugar cheio de “casinhas” de cimento. Eu sempre fui a velórios e, assim, cresci entendendo que a morte faz parte da vida. Mas, a sociedade moderna está afastando as crianças, cada vez mais, do contexto da morte. Ou seja, os adultos – pais, avós, tios e professores – insistem em não falar de morte com as crianças e consideram inapropriados para elas, lugares como velórios e cemitérios. Entretanto, a morte também é assunto para criança.

Continuar lendo

O papel da espiritualidade na terminalidade

“Todas as religiões, todas as artes e todas as ciências são ramos de uma mesma árvore. Todas essas aspirações visam ao enobrecimento da vida humana, elevando-a acima da esfera da existência puramente material e conduzindo o indivíduo para a liberdade” (Einstein)   

É inegável que a espiritualidade é uma característica humana que, dentre outros aspectos, proporciona ao indivíduo a possibilidade de encontrar significado e propósito para a sua vida. Embora estejam relacionadas, espiritualidade e religião não são equivalentes. As situações que antecedem e envolvem os processos de morte e o morrer estão entre aquelas em que a espiritualidade e a necessidade de conforto espiritual são visíveis. A crença religiosa traz contida em sua simbologia a sensação de acolhimento e proteção diante da morte.

Continuar lendo

Dia dos Mortos!

“A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar” (Raul Seixas)

Hoje, em algumas culturas, celebramos o Dia dos Mortos!

Dia dedicado a homenagearmos nossos ancestrais que se encontram em outra dimensão.  Eu penso que seja o dia de celebrarmos as boas e eternas recordações…

Insta270

Dependendo da cultura e de suas crenças, o dia torna-se um momento para refletirmos sobre a finitude da vida, ou seja, sobre nossa própria mortalidade. Ao nos permitirmos refletir sobre a morte podemos atribuir significados à nossa vida. Falar e pensar sobre a morte pode ser um ato transformador. Afinal, um dia todos nós sairemos de cena e seria muito bom se estivéssemos preparados emocionalmente para esta saída.

Autora do Livro: Legado Digital: Conhecimento, Decisão e Significado – Viver, Morrer e Enlutar na Era Digital

Suicídio: quando a dor da alma se torna intolerável

“Nesta vida morrer não é difícil. O difícil é a vida e seu ofício”
(Vladimir V. Mayakovsky – poeta russo que se suicidou com um tiro em 1930)

No dia 10 de setembro, foi comemorado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Durante todo o mês, prédios públicos estarão iluminados com a cor amarela, como forma de alerta. O movimento “Setembro Amarelo” é estimulado mundialmente pela IASP – Associação Internacional pela Prevenção do Suicídio – e tem por objetivo conscientizar a população sobre a realidade do suicídio e mostrar que existe prevenção. A ideia é discutir o assunto e divulgar ações preventivas.

Continuar lendo

A Arte de atender enlutados

“Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele” (Carl Rogers)

Na semana passada nós comemoramos o dia do psicólogo e então, por um instante, parei para refletir exatamente o que é exercer esta profissão. Para mim, ser psicólogo é uma arte. Sim, a arte de escutar e ressignificar!

Simbolicamente é a arte de escutar a alma do outro, mesmo que este outro esteja com a vida literalmente de cabeça para baixo. Cabe a nós escutá-lo e compreendê-lo. Nós que trabalhamos com pessoas que estão vivenciando perdas e/ou luto precisamos estar disponíveis para “escutar” a tristeza, as angústias, o choro, a dor que dói na alma.

Continuar lendo

O que não dizer a uma pessoa em processo de luto

“O silêncio também fala, Fala e muito!
O silêncio pode falar mesmo quando as palavras falham” (Osho)

O luto é um processo normal de elaboração diante de um rompimento de um vínculo. Este processo se iniciará por perdas reais e/ou simbólicas, ou seja, cotidianamente nós passamos por este processo e ele será vivenciado por toda a nossa existência. Contudo, o luto fica mais em evidência após a morte de um ser humano.

Possivelmente, neste exato momento, você conheça alguém que esteja vivenciando um processo de luto. Como na nossa sociedade moderna pouco falamos ou se quer pensamos sobre a morte, então, em muitas situações, não sabemos o que dizer ou até mesmo como agir diante de uma pessoa enlutada. Muitas vezes, as palavras são absolutamente ineficazes e, às vezes, no desejo de querer confortar a pessoa enlutada, podemos dizer coisas que, na verdade, podem piorar a situação.

Continuar lendo

E agora, o que faço com os pertences do meu ente querido (?)

“A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe” (Allá Bozarth-Campbell)

Eu penso que uma das tarefas mais árduas da vida é, sem dúvida, assimilar a morte de uma pessoa querida. Inevitavelmente, em algum momento iremos nos deparar com a seguinte questão: O que fazer com tudo aquilo que pertenceu a alguém que era muito amado? Para muitas pessoas, o momento de esvaziar o guarda-roupa significa encarar a dura realidade de que aquele ente querido não irá mais voltar. É o momento da constatação da perda. Há uma sensação de vazio. Parece que nada ou ninguém será capaz de preencher.

Continuar lendo

Conversando sobre a Morte

“A morte não vem de fora, mas se processa dentro da vida com a perda progressiva da força vital. Morremos um pouco a cada minuto e um dia este processo chegará ao fim” (L. Boff)

A sociedade moderna possui novos tabus e dentre eles está a morte. Hoje os pais conversam com seus filhos sobre drogas e métodos contraceptivos, porém na minha prática clínica/hospitalar tenho observado que pais e filhos não conversam sobre a morte. A família muitas vezes desconhece como aquele ente querido gostaria de morrer, o que ele gostaria de fazer em caso de uma doença crônica sem possibilidade de cura ou uma morte súbita. Quando algum membro da família começa a falar sobre este tema alguém automaticamente diz – para com isso, que assunto mais chato, tanta coisa boa para conversar e você quer falar de morte, que bobagem –. Infelizmente, o tema da morte se tornou interdito no século XX, sendo banido da comunicação entre as pessoas. (Ariès, 1977).

Continuar lendo

O Luto Complicado

“São só dois lados da mesma viagem. O trem que chega é o mesmo trem da partida” (Milton Nascimento)

Existem situações em que o processo de luto, principalmente por morte de um ente querido, não segue a evolução normal, ou seja, o indivíduo não consegue se reestruturar, podendo ocorrer fixação numa das etapas e, consequentemente, a não elaboração do luto. Num processo de luto complicado há uma dificuldade extrema em compreender a perda. Nestas circunstâncias, o luto permanece não resolvido ao longo do tempo, durante vários anos, e, por vezes, para o resto da vida, interferindo no estado emocional da pessoa e impactando significativamente a sua vida. Este se caracteriza por uma melancolia duradoura, acompanhada em geral de profunda tristeza, problemas de saúde, distúrbios psíquicos e diminuição dos contatos sociais.

Continuar lendo

O Processo de Luto

“As pessoas farão de tudo, chegando ao limite do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Mas, ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim ao se conscientizar da escuridão” (C. G. Jung)

O Luto é um processo que se inicia após o rompimento de um vínculo e estende-se até o período de sua elaboração – quando o indivíduo enlutado volta-se, novamente, ao mundo externo. O luto é um processo essencial para que nós possamos nos reconstruir, nos reorganizar, diante do rompimento de um vínculo. É um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que lidar.  Inclui transformação e ressignificação da relação com o que foi perdido.

Continuar lendo