Legado Digital: quem herdará seu patrimônio digital após a sua morte?

“Quem era, como era. Somos só memória à espera de não sermos esquecidos” (Memória, Ana Bacalhau)

No dia 01 de junho eu defendi minha dissertação de mestrado e o tópico central desse trabalho de pesquisa foi sobre legado digital. Eu investiguei o conhecimento dos meus colegas da área da saúde que trabalham em unidades de cuidados paliativos, no Brasil e em Portugal, sobre esse tema. A pesquisa foi respondida por 243 profissionais, e como era de se esperar, 98,8% disseram ser usuários de plataformas de mídias digitais. Entretanto, 52,7% declararam não ter nenhum conhecimento sobre legado digital e 46,5% confessaram não ter nenhum conhecimento sobre a forma como as empresas provedoras de mídias tratam os dados de seus usuários após a sua morte.

Agora você, meu caro leitor, deve estar se perguntando – mas exatamente o que é legado digital? E por que o conhecimento sobre esse tema se faz relevante para a área de cuidados paliativos? Neste post, eu vou buscar esclarecer alguns pontos centrais sobre esse tema, no sentido de ampliar o conhecimento dos meus leitores sobre um tópico tão atual e, no entanto, pouco discutido.

Funeral, luto, testamento e legado. Estas quatro palavras permeiam o pós morte da maioria das pessoas ao redor do mundo. O funeral permite que familiares e amigos prestem as últimas homenagens ao ente querido que morreu, é um espaço para se expressar a dor da perda coletivamente. O luto é um processo individual que a maioria das pessoas vivenciará após o rompimento do laço afetivo presencial com o seu ente querido. O testamento regula o manuseio e/ou gerenciamento do patrimônio material e afetivo deixado pela pessoa que morreu. Mas com todo o avanço da tecnologia e com novos meios de comunicação, como a Internet, alguns aspectos do pós morte também estão mudando. Nesse sentido, agora nós também temos uma herança digital que necessitará de um tutor após a nossa morte. Estamos, em vida, criando identidades digitais que podem ou não sobreviver no ciberespaço após sairmos fisicamente de cena.

‎‎O que é legado digital?

Poucas pessoas têm ideia do que significa o termo legado digital. Esse termo se refere a todo o patrimônio gerado e acumulado por um usuário de plataformas digitais ao longo de sua vida. Contratos que são gerenciados online e uma infinidade de dados deixados para trás e que podem ser atribuídos à pessoa que morreu, constituem o legado do usuário. Isso inclui perfis em mídias sociais como Facebook e Twitter, mas também sites de compras, contas de e-mail, acesso a serviços bancários e de pagamentos online, como Paypal. Claro, blogs e sites que a pessoa operava também estão incluídos. Além disso, assinaturas de transmissão de filmes e jogos, devem ser consideradas.‎ Agora, surge a questão do que fazer com toda essa informação online disponível de si mesmo após a sua morte? Você quer que suas contas de mídias sociais de relacionamento sejam transformadas em memorial ou deletadas? A quem delegar uma cópia das senhas das contas bancárias e cartões de crédito?

Algumas plataformas fornecedoras de mídias como, por exemplo, o Facebook e Google nos permitem nomear um herdeiro digital. Esta funcionalidade está disponível nas configurações da conta. A pessoa designada para ser a herdeira do usuário poderá manifestar para o Facebook o desejo do ente querido. Há também a possibilidade de um familiar informar o Facebook sobre o falecimento e solicitar que a conta se transforme em memorial ou seja excluída, mas terá que apresentar alguns documentos comprobatórios do grau de relacionamento com o usuário e uma cópia da certidão de óbito. ‎A plataforma Instagram não possui a funcionalidade de herdeiro digital. Após a morte, os familiares podem solicitar ao Instagram que esse perfil seja colocado em estado memorial ou solicitar a exclusão permanente da conta. Para isso, no entanto, é preciso comprovar que essa pessoa é um familiar próximo, por exemplo, através da certidão de nascimento ou óbito da pessoa falecida.‎

O que devo fazer?

‎Primeiramente você deve fazer uma lista de todas as suas contas online, perfis e assinaturas usadas, incluindo dados de acesso (senhas). Quando uma pessoa morre, todos os direitos e obrigações do usuário morto são transferidos para os herdeiros. Isso significa que todos os contratos que incorrem em custos contínuos devem continuar a ser pagos. No entanto, se todas as assinaturas forem listadas com dados de acesso, os herdeiros podem agir mais rapidamente e impedir pagamentos desnecessários.‎ E, claro, deixar por escrito o seu desejo sobre o destino dos perfis em mídias sociais – memorial ou exclusão.

A manifestação do desejo – memorial ou exclusão – é um ponto de extrema importância no processo de luto dos familiares, pois quando os herdeiros sabem o que fazer, conhecem o desejo manifestado do seu ente querido e sabem as senhas de acesso;  isso pode contribuir para a regulação do estresse e da ansiedade durante o processo de luto. Com efeito, além do impacto prático no acesso de diversos recursos, inclusive financeiros, ter que decidir o que fazer com as mídias e não ter acesso a todas as senhas pode gerar um elevado grau de ansiedade na pessoa enlutada e tornar o período de luto ainda mais traumático. Esta tarefa pode se tornar difícil de ser executada num período de imensa fragilidade.

Nesse sentido, esta questão possui relevância na área dos cuidados paliativos, pois seria interessante se os profissionais da saúde estivessem familiarizados com o tema para auxiliarem os pacientes em cuidados paliativos, principalmente aqueles em processo de finitude, a decidirem sobre o destino de seu legado digital e a compreender a importância da destinação dos bens digitais. Por isso, esse tema se faz necessário e urgente.

‎Embora todos estejam cientes da natureza finita de suas vidas, muito poucos se preparam para a própria morte. Na maioria dos casos, a gestão do legado digital será uma tarefa para os familiares desempenharem. Portanto, é de extrema importância que a pessoa usuária de plataformas de mídias faça um testamento do seu patrimônio digital acumulado manifestando o seu desejo em relação a essas mídias e compartilhe suas senhas de acesso com uma pessoa de sua confiança.

Psic. Mestre em Cuidados Paliativos
Psic. Especialista em Perdas e Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Referências:

Crocker, A.; McLeod, V. Digital Legacy Plan: A guide to the personal and practical elements of your digital life before you die. USA / Canada: International Self-Counsel Press Ltd; 2019.

Jacobucci, A.N.P. O conhecimento dos profissionais da saúde sobre o tema legado digital: Um estudo exploratório em serviços de cuidados paliativos no Brasil e em Portugal. 2021. Dissertação (Programa de Mestrado em Cuidados Paliativos) – Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa, Portugal, Lisboa, 2021.

Ribeiro, R.R. A Morte Midiatizada: Como as redes sociais atualizam a experiência do fim da vida. Niterói: Eduff – Editora da Universidade Federal Fluminense; 2015. 223 p.

Waagstein, A. An exploratory study of digital legacy among death aware people. Thanatos, Finnish Death Studies Assoc. [online]. v 3, n. 1, p. 46-67, 2014. Disponível em: ttps://thanatosjournal.files.wordpress.com/2012/12/waagstein_digitallegacy2.pdf

Testamento: a importância de se manifestar os últimos desejos

“Testamento: morreu sem nada, deixou tudo para o amanhã” (Zack Magiezi)

A morte visitará a todos nós em um determinado momento. Por isso, seria interessante nos preparamos para esta visita. Neste sentido, tenho observado, na minha lida diária com pessoas enlutadas, que há um aspecto prático relacionado à morte que muitos não tem dado a devida atenção: o testamento. Refletir sobre o assunto é algo necessário para quem constituiu patrimônio em vida. Não temos o costume de fazer um testamento, seja pelo medo da morte, seja porque desconhecemos o instrumento, mas é algo muito importante. Além de distribuir o patrimônio, o documento serve para registrar outras manifestações de vontade. Outra função importante desse documento é evitar divergências entre os beneficiários pela partilha da herança, evitando disputas futuras entre seus herdeiros .

Continuar lendo

Vida e Morte: será que há vida após a morte? Talvez!

“A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo.
É o mesmo de sempre. ‎Há continuidade absoluta e ininterrupta. ‎
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho […] ” (Death Is Nothing At All by Henry Scott Holland – ‎trecho baseado em um sermão pregado na Catedral de São Paulo, Londres, após a morte do rei Eduardo VII‎)

Uma matéria no jornal The Guardian captou minha atenção. Era sobre uma nova série da Netflix intitulada “Surviving Death – Sobrevivendo à Morte”. Esta é uma série/documentário baseada no livro da jornalista investigativa Leslie Kean, que explora histórias pessoais e pesquisas sobre experiências de quase morte, reencarnação e fenômenos paranormais. Como uma estudiosa da morte e do morrer, fiquei curiosa e decidi assistir.

Pude observar ao longo de seis episódios, de aproximadamente uma hora de duração, que a série explora e analisa, por meio de experimentos e da fala de cientistas, acadêmicos, jornalistas, médiuns, religiosos, pacientes, pessoas enlutadas e pessoas da comunidade, sinais e evidências de que há algo para experimentar além do nosso último suspiro.‎ O diretor Rick Stern, por meio dos episódios, construiu uma série muito convincente e reflexiva de que nossa consciência pode continuar existindo além da vida como a conhecemos.

Continuar lendo

Natal: Celebrando as memórias, as histórias, a esperança

“Não queira eu que se apaguem as minhas dores, mas que eu saiba acomodá-las
no meu coração” (Cântico da Esperança – Rabindranath Tagore)

Estamos vivenciando uma das épocas mais significativas do calendário, o Natal. No entanto, este ano as comemorações serão um pouco diferentes da forma que estávamos acostumados a celebrar, principalmente para os cristãos. O ano de 2020 nos colocou diante de inúmeros desafios e provocou profundas mudanças de comportamento. Com o Natal não será diferente. Muitas famílias estarão enlutadas devido à perda de entes queridos por motivo da Covid-19 e, devido às restrições impostas pela pandemia, é possível que não possam celebrar da forma como estão habituadas.

Continuar lendo

Luto Complexo Persistente: quando o tempo de compreensão da perda se prolonga

“O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções” (Martha Medeiros)

No meu último post eu discuti a questão do tempo num processo de luto. Ainda sobre essa questão podemos tecer várias reflexões que passam por dois vieses: o técnico e o da vivência prática de pessoas enlutadas. O técnico está descrito no DSM. Para quem não conhece, o DSM é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, criado há algumas décadas para unificar a terminologia sobre as doenças mentais pela APA, Associação Psiquiátrica Americana que está na sua 5º edição.

Continuar lendo

Vivenciar a dor, dê um tempo para o tempo do luto

“O luto não tem um tempo determinado para o seu fim, sua duração corresponde ao tempo que nossa psique leva para assimilar a ausência e integrar a saudade” (Nazaré Jacobucci)

Uma das perguntas mais comuns que nós especialistas em luto recebemos ´é – quando termina o luto? O luto tem um prazo determinado para acabar? No entanto, para essa pergunta não há uma resposta pronta. Para respondê-la precisamos ponderar diversos pontos relativos à perda e ao vínculo afetivo que a envolve. É necessário avaliar, inclusive, as perdas secundárias, que podem ser muito significativas.

Continuar lendo

Etiqueta para a Morte, o Morrer e o Luto na Era Digital

“A essência da etiqueta para a morte, o morrer e o luto na era das mídias digitais é ter bom senso, discrição e cuidado para com a dor do outro” (Nazaré Jacobucci)

Desde fevereiro de 2020 que a vida aqui na Europa começou a mudar gradualmente, e após meses o que nos era familiar agora nos é estranho. O familiar e seguro tornou-se desconhecido e, por vezes, ameaçador. A estabilidade física e mental foi violentamente lançada ao medo e à insegurança. Estar com entes queridos e pessoas do nosso convívio social é definido agora como perigoso. O primeiro país a experimentar esse estranhamento fora a Itália, país severamente afetado pela Covid-19, e logo todo o velho continente sucumbiu ao vírus. Assim como, outros continentes também foram implacavelmente afetados pela pandemia. A vida como pensávamos não existe mais. Tivemos que implementar, num curto espaço de tempo, novos hábitos, e estes incluem a digitalização do morrer e da morte.

Continuar lendo

Suicídio: O mito dos 90%

“Não tenho certeza de nada, mas a visão das estrelas me faz sonhar”
(Vicent van Gogh – pintor holandês, morreu aos 37 anos num ato de suicídio)

No dia 10 de setembro, foi comemorado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Durante todo o mês, prédios públicos estarão iluminados com a cor amarela, como forma de alerta. O movimento “Setembro Amarelo” é estimulado mundialmente pela IASP – Associação Internacional pela Prevenção do Suicídio – e tem por objetivo conscientizar a população sobre a realidade do suicídio e mostrar que existe prevenção. A ideia é discutir o assunto e divulgar ações preventivas. Continuar lendo

Separação Conjugal: Um luto existencial

“Agora que faço eu da vida sem você
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar” (Fernando Mendes)

O luto é um processo psicoemocional que todo ser humano vivencia quando passa por uma perda significativa. Num processo de divórcio haverá múltiplas perdas pela ruptura do vínculo e um período para o luto será necessário. Não tente evitar, é necessário vivê-lo!

Um casal não acorda pela manhã com a descoberta de que deseja se separar. Isso é um processo. Quem passa por essa experiência se submete a um recolhimento reflexivo aflitivo porque, muitas vezes, não consegue assimiliar facilmente a realidade de seus sentimentos. Quando um casal decide pela separação, ambos vivenciam diversos tipos de perdas, sendo que a mais frequente é a perda da expectativa que se criou em relação àquele casamento. A pessoa vivenciará um luto existencial, um luto pela convivência que não deu certo, e até mesmo um luto pelo investimento afetivo que não vingou.

Continuar lendo

Papai: ausência que se tornou uma delicada lembrança

“Pai
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz”. (Fábio Jr.)

A morte visitará todos nós um dia, mas ela não tem o costume de nos avisar quando isso acontecerá. Sua agenda é completamente desconhecida. Pode ser numa fria manhã de inverno ou num belo entardecer de primavera. O fato é: ela pode nos tirar de cena a qualquer momento, assim como quem amamos. Eu tenho a consciência de como a vida é permeada pela imprevisibilidade e impermanência desde criança.

Continuar lendo