A Morte por Tristeza: como o luto pode afetar o corpo e levar à morte

“Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que pra sempre, sempre acaba” (Renato Russo – Música “Por enquanto”)

Olá, caro leitor!

No dia 04 de junho, recebemos a triste notícia da morte da talentosa escritora, romancista gráfica, ilustradora, cineasta e ativista franco-iraniana Marjane Satrapi, autora do premiado Persépolis, obra em que narra sua infância no Irã durante a Revolução Islâmica e seu exílio na Europa. Ela tinha apenas 56 anos.

Mas foi o comunicado feito pela família que chamou a atenção de seus leitores: “Marjane Satrapi morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida”, dizia a nota oficial. Ripa havia morrido em abril de 2025, aos 53 anos. Na ocasião, Marjane escreveu: “Perdi o amor da minha vida”. Ao longo do processo de luto, ela vinha expressando publicamente a dor pela perda do marido em seu perfil no Instagram.

É possível uma pessoa morrer de tristeza após perder alguém amado? Pode o luto ser tão intenso e avassalador a ponto de levar alguém à morte? A resposta é: sim. E essa condição tem nome — Síndrome do Coração Partido.

Sunil Shah, professor da Universidade de Londres, afirmou à BBC: “Costumamos usar a expressão “coração partido” para nos referir à dor de perder alguém amado. Um de nossos estudos mostra que o luto pode ter um efeito direto na saúde do coração.” A síndrome, formalmente conhecida como cardiomiopatia induzida por estresse ou cardiomiopatia de Takotsubo, costuma ser desencadeada por situações de forte impacto emocional, que acabam se refletindo diretamente no funcionamento cardíaco. Segundo especialistas, alguns gatilhos comuns incluem: problemas financeiros, diagnósticos difíceis na área da saúde, conflitos familiares, término de relacionamentos, morte de um ente querido, entre outros.

Na prática, isso significa que uma emoção muito intensa pode alterar o corpo de forma mensurável. A tristeza extrema não é apenas um estado de espírito: em alguns casos, torna-se um gatilho físico importante. O ponto central é compreender que se trata de uma alteração real, e não de “drama” ou mera reação psicológica. O corpo responde ao sofrimento emocional com efeitos concretos. Como resume a cardiologista Fernanda Weiler, “o coração não está desconectado das nossas emoções”. Cuidar da saúde emocional também é cuidar da saúde cardiovascular.

As consequências da morte de um ente querido nunca são simples. Quando se trata da morte de um cônjuge, o impacto costuma ser ainda mais profundo e pode se estender muito além do momento do adeus. Esse tipo de perda pode desencadear uma série de efeitos prejudiciais à saúde, como distúrbios do sono, episódios depressivos, ansiedade, queda da imunidade e até um declínio significativo na saúde física.

Maria Julia Kovács, professora do Instituto de Psicologia da USP e membro fundadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte, explica ao Jornal da USP que o chamado efeito viuvez — também conhecido como síndrome do coração partido — ocorre quando a perda é vivida com tamanha intensidade e sofrimento que pode, de fato, levar a pessoa enlutada à morte.

Ela ressalta, porém, a importância de atenção aos sinais da síndrome para que seja possível intervir a tempo. “Os cônjuges sobreviventes podem sofrer de distúrbios do sono, episódios depressivos, ansiedade, função imunológica prejudicada e saúde física geral precária.” Diante disso, Kovács enfatiza a necessidade de acompanhamento próximo ao parceiro sobrevivente. Caso surjam manifestações de desvalorização da vida, queixas sobre a dificuldade de seguir adiante ou sinais de incapacidade de adaptação à vida sem o parceiro, é fundamental abrir espaço para uma conversa direta e oferecer apoio — seja por meio de grupos terapêuticos, psicoterapia individual ou, quando necessário, medicação.

Ela conclui: “Não finja que está tudo bem e cerque-se de pessoas para as quais você não precisa fingir que está bem. O luto é um ato de coragem e força. Quanto mais significativa a perda, mais profunda ela é — e mais longo é o processo de recuperação. Procure ajuda se necessário”.

No luto, a tristeza é uma reação natural. Mas quando ela se prolonga de forma intensa, é preciso olhar para o quadro com atenção. Apoio psicológico, vínculos sociais e uma rotina de autocuidado fazem diferença na prevenção de impactos maiores. Viver o luto é um ato de coragem — e não precisa ser um ato solitário. Se estiver difícil demais, busque ajuda.

Livro à VendaAutora do Livro: Legado Digital: Conhecimento, Decisão e Significado – Viver, Morrer e Enlutar na Era Digital

Referências:

Evans, S. Marjane Satrapi faleceu ‘de tristeza’: é possível morrer pela perda da pessoa amada?. BBC News Mundo. 06 jun. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy9relg9qv1o

Marra, A. R. Síndrome do coração partido existe e você precisa conhecer. Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. 03 set. 2025. Disponível em: https://www.einstein.br/n/vida-saudavel/sindrome-do-coracao-partido

Portal Terra. Saúde em Dia. “Morrer de tristeza”? Especialista explica Síndrome do Coração Partido. 05 jun. 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude/morrer-de-tristeza-especialista-explica-sindrome-do-coracao-partido,24f35b43623557b3e487f2d2b84b7715wuc2fx8f.html

Valeri, J. Síndrome do coração partido é uma condição médica que pode levar à morte. Jornal da USP. 11 set. 2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto/sindrome-do-coracao-partido-e-uma-condicao-medica-que-pode-levar-a-morte/

Poema: A morte não é nada (Death is nothing at all)

“A morte separa os corpos, mas não desfaz o que o amor costurou; o afeto permanece onde nenhuma despedida alcança” (Psic. Nazaré Jacobucci)

Olá, caro leitor!

Há textos que atravessam gerações porque tocam, com simplicidade e profundidade, a dor da despedida. Entre eles, “A morte não é nada – Death is Nothing at all” tornou‑se um dos poemas mais compartilhados quando buscamos consolo após a perda de alguém que amamos. Mas, apesar de circular amplamente como se fosse de Santo Agostinho, essa atribuição é equivocada. O texto não pertence ao santo, nem ao período em que viveu. A versão moderna que conhecemos deriva de um sermão do século XIX, escrito pelo sacerdote anglicano Henry Scott Holland. Neste post, além de partilhar essa reflexão tão bela sobre continuidade e afeto, também recupero sua verdadeira origem — porque honrar a palavra também é uma forma de honrar a memória.

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Luto por Pessoas Desaparecidas: um luto invisível aos olhos da sociedade

“O desaparecimento de um ente querido em qualquer fase da sua vida, ou mesmo da nossa, confere-nos determinadas marcas que podem permanecer para a eternidade” (Carla Sofia Santos)

Olá, caro leitor!

Com o grande sucesso do filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Valter Salles, que alcançou um feito inédito para o cinema brasileiro, um dos temas centrais da obra – pessoas desaparecidas – ganhou destaque. As performances brilhantes de Fernanda Torres e Selton Mello também contribuíram para que a produção se tornasse um marco na cinematografia nacional. O filme é uma adaptação cinematográfica do livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, que narra a emocionante trajetória de sua mãe, Eunice Paiva, durante a ditadura militar no Brasil. Ambientada na década de 1970, a trama revela como a vida de uma mulher, mãe de 5 filhos, advogada, casada com um influente político, é drasticamente transformada após o desaparecimento de seu marido, capturado pelo regime militar. Com uma narrativa intensa e sensível, o filme explora temas como perda, luto, coragem e resiliência, enquanto revisita de forma tocante um dos capítulos mais sombrios da história brasileira. Com efeito, utilizando o filme “Ainda Estou Aqui” como pano de fundo, farei uma análise focada nas perdas e no luto que emergem diante do desaparecimento de uma pessoa.

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Lembranças e Ausências: lidando com a perda de uma amizade

“ Faça uma lista de grandes amigos. Quem você mais via há dez anos atrás? Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?” (A ListaOswaldo Montenegro)

Faz algum tempo que quero escrever sobre este luto – o luto por uma amizade desfeita. Esse desfazer pode ser por duas possibilidades: pode ser por morte de um amigo ou pode ser por afastamento de uma pessoa estimada – a pessoa deliberadamente se afastou de você. Essas foram as experiência que eu vivenciei e não foi fácil de lidar. Na verdade foi extremamente dolorosa e me deixou marcas profundas, mas também me proporcionou uma série de reflexões sobre as relações humanas.

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Livros: indicações de leitura sobre a morte, o morrer e o luto em diversos contextos

“Nem todo aprendizado precisa de leitura. Mas toda leitura gera um aprendizado” (Flávia Savoia)

Caros leitores, eu tenho que confessar a vocês: eu sou apaixonada por livros desde a infância. Eu penso que um livro não apenas nos fornece conhecimento. Ele é capaz de nos transportar para lugares inabitados de nossa consciência e, muitas vezes, nos possibilita ter um novo olhar sobre o mundo e sobre nós mesmos. Atendendo a inúmeras solicitações que recebi de profissionais, estudantes e leigos, preparei uma nova lista com algumas recomendações de leitura. Compartilho, então, algumas sugestões de livros que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.

Este livro aborda um tema atual experienciado por uma sociedade cada vez mais cibernética e midiatizada. O livro leva-nos à reflexão e ao conhecimento da complexidade existente na escolha, especialmente em situações de finitude da vida, sobre o destino da herança digital deixada por todos nós para que ela não seja perdida ou transformada em lixo digital. A morte física pode não representar a morte no ciberespaço e este livro fornece um roteiro para as principais questões, dilemas e soluções. O livro auxilia os usuários de plataformas on-line a decidirem o destino de seu legado digital com dignidade, segurança e sensibilidade, colocando em foco nossas vidas digitais após a morte. (Adquirir)

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A mágoa reside na expectativa!

“Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito” (William Shakespeare)

Na minha lida diária como psicoterapeuta uma emoção que observo com frequência, principalmente em pessoas que estão em processo de finitude e também em algumas pessoas enlutadas, é a mágoa. Interessante observar como pessoas que possuem doenças crônicas ameaçadoras da vida expressam a necessidade de perdoar e serem perdoadas por desentendimentos que geraram ressentimentos profundos. Mesmo com o passar do tempo, essa “bagagem” ainda traz muito desconforto à alma. Por isso, elas querem expressar o perdão antes de morrerem. Muitos dizem: “eu não quero morrer com esse peso no meu coração” – há também os bem humorados que dizem: “imagina morrer com esse carma, vai que eu volto para cá de novo e preciso encontrar com essa pessoa novamente. Ah, não! Vamos resolver isso nessa vida”. Com drama ou com humor, mágoa é coisa séria. Os efeitos devastadores do rancor consequente ao ressentimento já foram assinalados há 25 séculos por Heráclito de Éfeso (540 AC) – “há que mostrar maior rapidez em acalmar um ressentimento do que em apagar um incêndio, pois as consequências do primeiro são infinitamente mais perigosas do que os resultados do último”.

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Raiva no processo de luto: como apreender essa emoção?

“Era raiva não. Era marca de dor” (Adélia Prado)

A raiva é uma emoção básica, que todos nós sentimentos, e que possui duas vertentes importantes. A primeira é que essa emoção nos impulsiona a fazer algo diante do que o cérebro interpreta como uma ameaça e a segunda é que se ela não for expressa de uma forma adequada pode trazer sérias complicações para a vida das pessoas. É uma emoção que pode destruir relações sociais, objetos e até mesmo nos fazer ter comportamentos autodestrutivos.

Ao nos referir à raiva, ela eclode quando algo que cremos, que nos é familiar, ou alguma visão que temos do mundo sofre uma ruptura. Essa emoção pode surgir em diversos contextos de nossa vida, como por exemplo: raiva do abismo social em que o mundo se encontra, raiva de um líder político que desencadeia uma guerra sem propósito, raiva ao vivenciar um ato de traição de pessoas que julgávamos confiáveis, quando algo nos é tirado, e em tantos outros contextos. Raiva é a reação natural para a dor seja ela física, psíquica ou emocional.

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Perdas secundárias no luto: o efeito “dominó” de perder um ente querido

“Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata e ilusória como doem as perdas para sempre perdidas, e, portanto, irremediáveis, transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos” (Caio Fernando Abreu)

Você já viu milhares de dominós caindo? Alguém passa muitas horas montando uma fileira complexa de dominós com diversos obstáculos. Cada dominó é estrategicamente colocado perto o suficiente de outro para ser capaz de atingi-lo à medida que cai. No momento apropriado, o primeiro na sequência vira, e isso desencadeia uma reação em cadeia. O primeiro dominó cai sobre o segundo, e assim vai, um após o outro, até que todos tenham caído.

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Autocuidado: como atravessar um processo de luto?

“Durante o viver nós vamos enfrentar muitas dores e muitas tempestades. Precisamos descobrir como sobreviver diante do caos” (Psic. Nazaré Jacobucci)

A dor quando perdermos alguém a quem amamos é avassaladora e pode nos desorganizar psíquica e emocionalmente. Inevitavelmente vamos experienciar esta dor muitas vezes ao longo de nossas vidas, não temos como evitar a manifestação do luto após uma perda e infelizmente não temos como eliminar a dor. Afinal, a morte é um fenômeno natural e irrefutável da existência humana.

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Vamos conversar sobre a morte?

“Não podemos estar realmente vivos sem termos a consciência de que morreremos um dia” (Frank Ostaseski)

A sociedade moderna possui novos assuntos interditos e dentre eles está a morte. Hoje os pais conversam com seus filhos sobre drogas e métodos contraceptivos, porém na minha prática clínica/hospitalar tenho observado que pais e filhos não conversam sobre a morte. Quando algum membro da família começa a falar sobre este tema alguém automaticamente diz – para com isso, que assunto mais chato, tanta coisa boa para conversar e você quer falar de morte, que bobagem. No entanto, a morte faz parte do desenvolvimento humano e precisamos conversar sobre ela.

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