A Arte de atender enlutados

“Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele”. (Carl Rogers)

Na semana passada nós comemoramos o dia do psicólogo e então, por um instante, parei para refletir exatamente o que é exercer esta profissão. Para mim, ser psicólogo é uma arte. Sim, a arte de escutar e ressignificar!

Simbolicamente é a arte de escutar a alma do outro, mesmo que este outro esteja com a vida literalmente de cabeça para baixo. Cabe a nós escutá-lo e compreendê-lo. Nós que trabalhamos com pessoas que estão vivenciando perdas e/ou luto precisamos estar disponíveis para “escutar” a tristeza, as angústias, o choro, a dor que dói na alma.

Eu tenho uma amiga psicóloga, Teresa Gouvea, que escreve sobre “coisas”. Ela escreve sobre dor, perdas, tristeza, etc. Enfim, uma série de “sobres”, como ela mesma denomina em seu blog (http://lacoselutos.com.br/index.php) . Eu pedi a ela que escrevesse “sobre a arte de atender enlutados”. Abaixo eu compartilho a escrita de Teresa, que soube colocar em palavras o fazer desta difícil arte.

Luto38

“Sobre a Arte de Atender Enlutados

Te recebo, certa de não saber a dimensão de suas dores, aprendi que a vida é esse lugar onde cultivamos flores das mesmas espécies, mas que brotam de maneiras diferentes, únicas e impares nos quintais da alma. Você chega com medo, mas sinalizando uma coragem que talvez nem você mesma perceba ou compreenda, se atreve a conversar com sua dor.

Senta, chora, se desespera, me fala de vazios que doem, espaços que sobram no quarto, cadeira esquecida, poltrona chorosa, xícaras e talheres que repousam esperando mãos. Conta da vida esquecida pela casa nos sapatos, roupas, perfumes, nessas miudezas que nos dizem quem somos.

Você fala de medos, seu coração parece mudar de lugar, a cabeça flutua fora do corpo, perdeu o paladar, brigou com o sono. Sente medo, ouve vozes e passos, espera chegadas que não acontecem, se confunde sobre as despedidas, momentos em que não sabe mais o que é real. Sente medo da desorganização que os desencontros trazem.

Dentro do seu pesadelo abro espaço para sua dor, como se entregasse folhas onde você pudesse escrever suas histórias de hoje e de ontem, abro espaço para o amanhã que não aconteceu, te ajudo a mudar de sonhos, dou legendas para o que você não nomeia, vagarosas, sem pressa, permissões para encontrar o tempo da sua própria dor.

Você me diz que o mundo lá fora tem pressa, pede que você acelere e acalme sua saudade. Eu te conto que o mundo lá fora, às vezes, tem ruas estreitas para dor. Caminhamos, descobrindo que o tempo é um senhor que não usa as mesmas roupas em todas as despedidas, caminhamos acreditando que essa perda é sua e somente você sabe das coisas das quais se despediu.

Caminhamos, assim, vagarosamente, como se fossemos donas dos relógios do mundo. Passearemos por ruas onde residem memórias da sua saudade, vasculharemos quartos e prateleiras da sua vida. Não, você não será mais a mesma, mas após tantos mergulhos descobrirá lugares para sua saudade. Levantará, esticará os lençóis da cama, fará um café, sentará na varanda e, sorrindo, lembrará de um amor que partiu. Despertará arrumando um outro jeito de amar, negar esse amor e essa história seria outra morte”. (Teresa Gouvea)

Esta é a Arte dos psicólogos que, como eu, trabalham com enlutados.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Psychotherapist Member of British Psychological Society

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