Você já se fez esta pergunta: O que é uma “boa morte”?

“A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim…” (Mario Quintana)

Na sociedade moderna há uma tendência, principalmente entre alguns médicos, de assimilar a morte de um paciente como um fracasso. O avanço tecnológico da medicina e seus infindáveis recursos para prolongar a vida – às vezes, desnecessariamente – são potencializadores desse pensar médico. Então, busca-se por meio desses recursos prorrogar a vida ignorando o fato de que o apito final já soara.

Neste sentido, há uma pergunta que precisamos nos fazer, e com certa urgência. Afinal, o que constitui uma “boa morte”? O que queremos quando trazemos para discussão algo tão subjetivo quanto esta desconcertante pergunta? Queremos provocar uma reflexão sobre uma das maiores questões da vida: a arte de morrer bem.

As pessoas não são encorajadas a falar sobre sua própria morte. Sempre acham que isso só acontecerá num futuro distante e que não vale a pena abordar esse assunto quando se está gozando de plena saúde. Contudo, a vida não é permeada de certezas absolutas. A vida é permeada por inconstâncias, incertezas e, às vezes, por uma assustadora imprevisibilidade. Por isso, seria interessante as pessoas incluírem em seus planos de vida a morte.

Felizmente para a sociedade, alguns médicos, profissionais da saúde, professores, sacerdotes e até poetas estão se dedicando a discutir sobre o que seria uma “boa morte”, promovendo uma importantíssima reflexão sobre o tema. Contudo, o morrer é subjetivo e exclusivo. A forma como morremos está intrinsicamente moldada pela combinação de atitudes, condições físicas, tratamentos médicos desejados, relações interpessoais e, claro, pelo sentido que damos à vida. Segundo o Dr. Haider Warraich (2017), uma boa morte pode e deveria significar algo diferente para cada indivíduo. Ele é autor do livro “Modern Death – How Medicine Changed the End of Life”. Ele diz – “Para mim, significa alcançar um fim que alguém poderia querer, e isso realmente pode significar qualquer coisa – de estar numa unidade de terapia intensiva, ter acesso a todos os tipos de terapias sustentadoras da vida, estar em casa cercado pela família ou estar sendo cuidado num hospice” (Repa, 2017).

Ao ler diversos artigos sobre o tema me parece que há um consenso sobre o que seria morrer bem. Para a maioria uma “boa morte” se dá num ambiente tranquilo e confortável, sem dor física, sem pendências psicoemocionais, sem estresse e de bom humor, espiritualmente assistido e, claro cercado por seus entes queridos. Agora, como podemos obter tudo isso? Uma das maneiras é manifestar seus desejos e discuti-los com sua família e amigos.

Infelizmente, a nossa sociedade não gosta de falar de morte e, por isso, as pessoas morrem mal e desassistidas em seus desejos. Ter um planejamento claro e objetivo sobre suas vontades ao morrer pode ser reconfortante.

Pensando em todas as questões que envolvem uma “boa morte” e, me preparando para um futuro trabalho, eu convidei alguns amigos de diferentes seguimentos da sociedade a me contar o que era para eles uma “boa morte”. As respostas estão a seguir.

Pergunta: Na sua opinião o que é uma “boa morte”, ou seja, o que é morrer bem?

Amigos convidados:

André Jacobucci (Engenheiro / Consultor de TI)
É uma morte serena, lúcida, tranquila e natural. Que deixa atrás de si paz, gratidão, saudade, aprendizado, amor, esperança. Uma boa morte é um renascimento para o Pleno e Eterno.

Daniela Traldi (Jornalista e Historiadora)
A meu ver, a boa morte é como a boa vida…é quando vivemos conscientes de que o corpo que habitamos é finito. Não estou sugerindo que devamos pensar sobre a morte em tempo integral, mas quando temos essa consciência, esse entendimento – o de que cada um de nós, sem exceção, irá um dia morrer – a vida em si passa a girar de maneira diferente. Muito mais plena, eu diria. Vejo nesse processo da boa vida, e, portanto, da boa morte, como o encontro à felicidade, ao abraço de momentos únicos, ao calor do coração e a toda e qualquer aventura do dia-a-dia. Pode ser algo bem simples, como apreciar um pedaço de bolo maravilhoso, a leitura de um livro espetacular ou observar uma cena qualquer no meio da rua. Nesse sentido, apesar dos muitos planos, eu realmente tento viver como se não houvesse amanhã, pois dele nada sei, e muito menos se aqui estarei. Quando a morte chegar da forma que for, espero, terei vibrado com o sol, com a chuva, com a dor, com o amor, sozinha – e com aquilo e aqueles que me fizeram sorrir ou chorar.

Gláucia Pina (Psicóloga)
Morrer bem é morrer quando a morte chega ou quando o viver acaba. Só para completar: coloquei o ou porque para mim são movimentos diferentes.

Gláucia Silva (Advogada)
Uma boa morte, na minha opinião, é sair de cena tendo ao nosso lado, ao menos, uma pessoa querida. É não estar ligado a aparelhos e a um ambiente impessoal de UTI. É poder refletir instantes antes e saber que o que se deixou de fazer durante a nossa vida poderia mesmo ficar sem ser feito… ficar para trás.

Helena Oliveira (Enfermeira)
No meu entender e minha experiência profissional uma morte boa é quando o paciente aceita a morte, se prepara para ela, é indolor. Os familiares respeitam e aceitam a morte como uma viagem. A aceitação traz a paz. A sensação de já ter vivido tudo que tinha que ser vivido, sem revolta. E ter a vontade respeitada. Estar rodeado da família e/ou amigos ou estar só. É muito pessoal.

Izabel Christina (Astróloga)
A morte é um treino diário de desapego, em todos os níveis. Morrer bem é desapegar e se soltar para uma viagem, uma grande e definitiva mudança.

Keco Brandão (Músico)
Morrer bem, é morrer como um sopro de vida que, simplesmente, se esvai. Como a chama de uma vela que simplesmente se apaga!

Marcelo Perez (Médico)
Acho difícil ter uma boa morte ou morrer bem, nunca aceitamos a morte como bem ou boa, mas o que se espera é morrer sem sofrer, sem dor, sem coisas para acertar ou fazer (sem nós na vida) a melhor forma talvez seria dormindo.

Mônica Paz (Taróloga)
Para mim uma boa morte é algo sem sofrimento, hospitais e montes de aparelhos.
Recentemente uma tia morreu assim, deitou e morreu durante a noite. Estava saudável e lúcida. Na época comentei que ela tinha morrido bem e se eu pudesse escolher, gostaria que comigo também fosse assim.

Patrícia Brentzel (Sommelière)
Na minha opinião uma boa morte é aquela com qualidade de vida e sem sofrimento.

Peta Campangna (Professora de Matemática)
Para mim, morrer bem é ter uma morte serena, sem dor e sem arrependimentos.

Rômulo Braga (Veterinário)
Estar confortável, tranquilo e junto dos que ama com o mínimo de sofrimento físico e emocional possível.

Rosângela Rocha (Jornalista e Secretária)
Uma boa morte é estar com o espírito tranquilo. Em paz com Deus, com você e com o próximo. Sentir o corpo leve.

As respostas acima demonstram que, de fato, cada pessoa possui uma forma individual e própria de compreender o morrer, de acordo com suas crenças, convicções e expectativas. E isso não poderia ser diferente. Pois, a morte é óbvia e inevitável, mas o morrer é um ato individual e subjetivo.

E para você? Já parou para pensar o que seria uma “boa morte”?

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)

Referências:
Repa, Barbara Kate. What Is a “Good Death”? Site [Caring.com] Mai. 2017. Disponível em: https://www.caring.com/articles/a-good-death
The Arte of Dying Well [Site]. What is dying well? Disponível em: http://www.artofdyingwell.org/

Perda Gestacional: um luto não reconhecido; uma dor invisível

“Filho – um amor indizível, um amor infinito, um eterno aprendizado sobre a arte de amar e educar, certeza diante das incertezas, calmaria em pleno caos,  a mais preocupante e doce memória. Mas, às vezes, tão somente saudade…” (Nazaré Jacobucci)

Ao longo da nossa existência seremos confrontados com diversas perdas que podem ter significados e impactos muito distintos na vida de cada indivíduo. Entretanto, infelizmente, há alguns tipos de perdas que não recebem a devida atenção por parte da sociedade.

A perda gestacional e neonatal são fenômenos mais comuns do que se possa imaginar. Estima-se que a prevalência da perda gestacional varia entre 15 a 20% das gestações clinicamente diagnosticadas, atingindo até 30% das gestações com diagnóstico bioquímico. A maior ocorrência se dá antes da 12º semana gestacional. Quando a perda do feto ocorre entre a 1º e 22º semana de gestação é denominada perda precoce. Quando ocorre após este período as perdas são consideras tardias (Camayo; Martins; Cavalli, 2011; Serrano, 2016).  As mortes neonatais correspondem à morte de recém-nascidos que faleceram até  28 dias completos de vida.  Com efeito, no que tange a Declaração de Óbito o Ministério da Saúde determina que o mesmo seja emitido quando a criança nascer viva e morrer logo após o nascimento, independentemente da duração da gestação, do peso do recém-nascido e do tempo que tenha permanecido vivo. E  no óbito fetal, se a gestação teve duração igual ou superior a 20 semanas, ou o feto com peso igual ou superior a 500 gramas, ou estatura igual ou superior a 25 centímetros.

A perda de um bebê durante a gestação ou logo após o seu nascimento geralmente representa um fato marcante na vida de um casal. Este fato pode ser constituído por momentos traumatizantes que serão lembrados e temidos em uma próxima gestação. O processo de luto por perda gestacional comporta várias especificidades, pois a perda não passa apenas pelo bebê, mas também por todas as fantasias e expectativas que se criaram ao longo de vários meses, por vezes, antes mesmo de sua concepção (Santos, 2015).

Os pais enlutados têm de lidar com a perda real e simbólica do filho desejado e amado, e também com a perda da autoestima. Há um sentimento de fracasso com relação à proteção e ao cuidado em relação a este bebê. Outro sentimento muito importante vivenciado numa perda gestacional é o sentimento de culpa. De acordo com Lemos e Cunha (2015), alguns estudos sobre perda gestacional indicam que, sendo a mulher a pessoa que carrega o bebê em seu ventre, ela pode manifestar maior sentimento de culpa em relação à perda, se comparada ao homem. A mulher pode inferir que ela cometeu alguma negligência e que fora ela a culpada pela perda. Inicia-se assim, uma busca incessante pelas causas que podem ter influenciado na perda do bebê. Com relação ao pai, este apresenta, comumente, uma resposta mais controlada à perda devido à necessidade de mostra-se “forte” para fornecer suporte à mulher.

Este é um processo de luto complexo, pois nem sempre o luto pela perda de um feto é devidamente reconhecido e validado pela sociedade. Contudo, é fundamental para a saúde psíquica dessa mãe o reconhecimento dessa perda. A mulher e o homem precisam ser acolhidos em sua dor e necessitam de um espaço para chorar, ficar triste, com raiva e, claro, revoltar-se com esta nova realidade tão dolorosa de ser vivenciada. A psicóloga Alexandra Leonardo faz um alerta: o que faz mais falta é a consciencialização de que estas mulheres estão extremamente frágeis, de que o processo não termina na urgência do hospital, mas que se vai refletir no futuro da mulher, eventualmente no do casal e até com impacto familiar e social. Por isso, o trabalho de luto é fundamental.

(Tirinha psicoeducativa criada pelo “Família em Tiras” em parceria com o “Do Luto à Luta: Apoio à Perda Gestacional e Neonatal” e “Temos que falar sobre isso” para a semana de sensibilização à perda gestacional e neonatal)

Precisamos tomar consciência que é um filho que se perde e não uma gravidez que foi interrompida, e que a perda de um feto não é irrelevante. O texto abaixo escrito pela psicóloga Érica Quintans, que me autorizou a compartilhá-lo na íntegra, nos mostra a importância dos rituais de despedida numa perda gestacional e como estes são indispensáveis para a elaboração de um processo de luto.

“Os rituais de despedida da perda gestacional e neonatal”
Texto escrito por: Érica Quintans

“O ritual é definido como um poderoso ato simbólico que confere significado a certos eventos da vida ou experiências. São veículos poderosos que proveem estrutura e oportunidade para conter e expressar emoções. Permitem que a comunidade testemunhe e interprete um acontecimento. Os rituais são um direito, frequentemente, negado aos enlutados por perda não reconhecida (Doka, 2002 apud Casellato, 2015).

Quando a morte ainda era domada (vista como natural; parte da vida) os rituais eram bem-vindos e faziam parte do processo de elaboração do luto. Hoje em dia nossa sociedade tem uma urgência com relação aos funerais, talvez uma tentativa de evitar o confronto com a dor da perda. Uma sociedade capitalista, sem tempo improdutivo a perder, totalmente amedrontada pela morte, culminando em pouco ou nenhum ritual.

Na perda gestacional e neonatal muitos acreditam que não há motivo para luto, como se isso pudesse ser medido pelo tempo de convivência com o filho, desconsiderando as fantasias e vínculos estabelecidos. Não é de se espantar que não haja espaço para rituais de despedida. Quando o bebê tem um tamanho e peso considerados suficientes para que seja enterrado, geralmente, o pai soluciona as questões burocráticas do serviço, e, por ainda estarem hospitalizadas, as mães não podem participar dos rituais. Isto pode auxiliar numa complicação da elaboração do luto, afinal não houve tempo e momento para se despedir, concretizar a perda, chorar sua dor, ser amparado e poder falar sobre o filho, os sonhos e o desespero em não tê-lo mais por perto. Poder dar um nome a este luto é muito importante na elaboração da perda, colocando o enlutado em um lugar central, de protagonismo e validação (Casellato, 2015).

Mesmo após o enterro diversos rituais podem ser feitos, se assim o pai e mãe se sentirem à vontade. Eles encontrarão uma forma que tenha sentido e significado para eles, pois o processo de luto é muito singular, mas entre as mais comuns formas de ritualizar a perda de um bebê temos: soltar balões; colocar fotos em um porta retrato; plantar uma árvore ou ainda uma fazer uma caixa de lembranças, com roupinha, sapato, fotos, fitas e cartas/bilhetes para o filho que se foi. Mais importante do que O QUE fazer é COMO fazer, sendo fundamental ser algo que tenha sentido para quem passou pela experiência da perda”.

(Publicado em: Site – Do Luto à Luta: Apoio à Perda Gestacional e Neonatal em 27.07.16)

Como pudemos observar, a perda gestacional e neonatal possuem um caráter multifacetado que está muito além do que conseguimos descrever na literatura. Na perda gestacional, torna-se imprescindível que os profissionais de saúde estejam devidamente informados sobre a subjetividade e a complexidade dessa perda, para que possam fornecer assistência adequada desde o momento do diagnóstico até a alta hospitalar. Além disso, é claro que o apoio dos familiares e amigos próximos é de fundamental importância, validando o real significado da perda para esses pais, ou seja, de que eles perderam um filho e não um embrião.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)

Colaboração:
Érica Quintans – Graduada em Psicologia pela PUC/RJ. Psicóloga Clínica atendendo criança, adolescentes e adultos. Em especial questões relacionadas a perda e luto. Mestranda da PUC/RJ onde estuda o luto dos homens na perda gestacional e neonatal. Consultora de Humanização do Instituto Desiderata. Voluntária Do Luto à Luta: apoio a perda gestacional e neonatal.
E-mail: ericatq.psi@gmail.com

Referências:
Camayo, Francisco Javier Alvarez; Martins, Luiz Augusto Beltramin; Cavalli, Ricardo de Carvalho. Perda gestacional retida: tratamento baseado em evidência. FEMINA, v. 39, nº 1, p. 49-56, jan. 2011. Disponível em: http://files.bvs.br/upload/S/0100-7254/2011/v39n1/a2410.pdf
Carvalho, Fernanda Torres; Meyer, Laura. Perda Gestacional Tardia: Aspectos a serem enfrentados por mulheres e conduta profissional frente a essas situações. Boletim de Psicologia, v. LVII, n. 126, p. 33-48, 2007. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/bolpsi/v57n126/v57n126a04.pdf
Casellato, Gabriela. Intervenções Clínicas em Situação de Luto não Reconhecido: Estratégias Específicas. In: CASELLATO, G. (Org.). O resgate da empatia: suporte psicológico ao luto não reconhecido. 1ª. ed. São Paulo: Summus, 2015.
Dos Santos, Daniela Patrícia Beja Duarte. A Elaboração do Luto Materno na Perda Gestacional. Lisboa: Universidade de Lisboa – Faculdade de Psicologia, 2015. 56 f. Dissertação (Mestrado Integrado em Psicologia) – Secção de Psicologia Clínica e da Saúde / Núcleo de Psicologia Clínica Dinâmica, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2015. Disponível em: http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/20463/1/ulfpie047422_tm_tese.pdf
Lemos, Luana Freitas Simões; Cunha, Ana Cristina Barros da. Concepções Sobre Morte e Luto: Experiência Feminina Sobre a Perda Gestacional. Psicol. Ciência e Profissão, Brasília, v. 35, n. 4, p. 1120-1138, dec. 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932015000401120&lng=en&nrm=iso.
Ministério da Saúde. Conselho Federal de Medicina. Centro Brasileiro de Classificação de Doenças. A Declaração de Óbito: documento necessário e importante. Série A. Normas e Manuais Técnicos. Brasília, DF, 2007. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/declaracao_de_obito_final.pdf
Quintans, Érica. Os rituais de despedida da perda gestacional e neonatal. Do Luto à Luta: apoio a perda gestacional e neonatal [site], 2016. Disponível em: https://dolutoalutaapoioaperdagestacional.wordpress.com/2016/07/27/os-rituais-de-despedida-da-perda-gestacional-e-neonatal/
Rodrigues, Ana Sofia. Perda Gestacional. Revista Pais&Filhos, Portugal, jun. 2012. Disponível em: http://www.paisefilhos.pt/index.php/gravidez/gestacao/5068-perda-gestacional
Serrano, Sofia. Quando nem tudo corre bem: a perda gestacional. Portugal, out. 2016. Disponível em: http://cafecanelachocolate.sapo.pt/quando-nem-tudo-corre-bem-a-perda-316534

 

Luto: uma experiência dolorosa; um aprendizado sobre o amor

“A intensidade do luto é determinada pela intensidade do amor” (Colin Parkes)

O luto é um processo normal de elaboração diante de um rompimento de um vínculo afetivo. O luto é um processo essencial para que nós possamos nos reconstruir, nos reorganizar, diante desse rompimento. É um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que lidar. Inclui transformação e ressignificação da relação com o que foi perdido.

O texto abaixo escrito pela escritora Rândyna da Cunha, que me autorizou a compartilhá-lo na íntegra, nos mostra que a experiência de um processo de luto é dolorosa. Contudo, um aprendizado sobre o amor.

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Luto: uma dor em constante ressignificação

“O médico perguntou:
— O que sentes?
E eu respondi:
— Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias” (Denison Mendes – Bonsais Atômicos)

Para mim, ser psicólogo é uma arte. Sim, a arte de escutar e ressignificar!
Simbolicamente é a arte de escutar a alma do outro, mesmo que este outro esteja com a vida literalmente de cabeça para baixo. Cabe a nós escutá-lo e compreendê-lo. Nós que trabalhamos com pessoas que estão vivenciando perdas e/ou luto precisamos estar disponíveis para “escutar” a tristeza, as angústias, o choro, a dor que dói na alma.

O texto abaixo escrito pela psicóloga Erika Pallottino, especialista em luto e que possui um Instituto especializado no tema na cidade do Rio de Janeiro – o Instituto Entrelaços – descreve com sensibilidade, a partir do seu olhar clínico, as dores vivenciadas pelos enlutados.

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Luto e Perdas num Processo de Imigração: um constante ressignificar

”Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião
Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão” (Belchior)

No mundo de hoje, onde há globalização e estreitamento de fronteiras, o processo de imigração e migração vem se intensificando gradativamente. A migração não é sinônimo de luto. Muitas pessoas decidem migrar para ampliar seus horizontes e, muitas vezes, para mergulhar num profundo processo de autoconhecimento e reorganizar suas vidas estagnadas. Contudo, tanto os refugiados quanto os indivíduos que escolheram imigrar experienciarão, em graus diferentes, os sentimentos vivenciados num processo de luto. Pois, haverá várias rupturas e perdas ao longo do processo migratório

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A arte de morrer: questões pertinentes

Antonius – Nenhum homem pode viver com a morte e saber que tudo é nada
Morte – A maioria das pessoas não pensam nem na morte ou no nada”.  
(Filme O Sétimo Selo – Ingmar Bergman)

Estou fazendo um curso, sobre a morte e o morrer, com um conteúdo muito interessante que tem me posto a refletir sobre as questões que permeiam a arte de morrer. Uma das atividades foi sobre a contribuição dos filmes para reflexão sobre esta temática. Tínhamos que escolher dois filmes: um clássico e um moderno. Eu escolhi O Sétimo Selo e Encontro Marcado para compor a minha análise. Minha escolha se deu por considerar ambos os filmes interessantes.

Em O Sétimo Selo, Antonius Block é um cavaleiro que retorna das Cruzadas para uma Suécia devastada pela peste negra e pela Inquisição promovida pela igreja católica. Contudo, ele também tem um encontro marcado com a Morte. Porém, para ganhar tempo, ele rejeita o fim da sua existência. Ele, então, desafia a morte para uma partida de xadrez, com o objetivo de driblá-la.

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Música e Cuidado Paliativo para o enfretamento das dores físicas e psicoemocionais

“Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier”. (Sérgio Britto – Titãs)

Todos nós sabemos que ao ouvir uma boa música somos tomados por uma sensação de bem-estar. Esta sensação pode trazer benefícios para a saúde, tais como melhorar o humor e reduzir o estresse e a ansiedade.

A música como recurso terapêutico, principalmente no contexto hospitalar, pode ser uma ferramenta para o paciente enfrentar sua condição clínica. A música pode auxiliar no aumento da capacidade respiratória, pode estimular a coordenação motora, pode aliviar as dores de cabeça, pode auxiliar o paciente a suportar as crises que uma doença crônica traz e também a suportar as dores físicas e psíquicas. Desse modo, a música é um recurso terapêutico em potencial, por seu caráter de linguagem e de expressão e por possibilitar a conexão com conotações ligadas à área afetivo-emocional, relacionadas aos sentidos que o indivíduo e seu contexto atribuem ao fenômeno musical. (SekiI; GalheigoII, 2010).

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Luto não elaborado: as repercussões psicoemocionais na vida adulta

“O entardecer traz consigo a noite, a escuridão, as sombras, o desconhecido, que também dão sentido à vida, fazendo parte dela. No dia seguinte, no horizonte da vida, surgirá mais um dia de viver, mesmo que não estejamos presentes. Será sempre outro dia de viver e talvez seja o último e derradeiro. No amanhecer, encontra-se outro entardecer. O entardecer é a metáfora da morte. Dia e noite são partes do mesmo e único fenômeno, vida e morte”. (Maria Emília Bottini)

A morte de um dos pais é um dos eventos mais difíceis que uma criança pode enfrentar. Ela expõe prematuramente à criança a imprevisibilidade da vida e a natureza tênue da existência cotidiana. Estudos com adultos que apresentavam alguns distúrbios psíquicos e/ou mentais, especialmente depressão, revelam frequentemente lutos mal elaborados vivenciados na infância, sugerindo que tal perda pode contribuir para o agravamento de transtornos psiquiátricos e que esta experiência pode tornar uma pessoa emocionalmente vulnerável para a vida.

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Luto na Infância: A Criança Enlutada

“A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais…”  (Memórias de Emí­lia – Monteiro Lobato) 

A morte é inerente à nossa existência, então, precisamos falar sobre a morte com as crianças, pois em algum momento elas irão perder um ente querido ou um animal de estimação. Há também as crianças que vivem em zonas de extrema violência e que se deparam com a morte cotidianamente. Portanto, temos que prepará-las para lidar com esta situação. Quando uma morte ocorrer, pode ser a oportunidade para que nós conversemos com ela sobre o tema. Esta conversa é importante e saudável para ajudá-la a lidar com o sofrimento. Como os adultos, as crianças precisam vivenciar o processo de luto para elaborar a perda que ocorreu e continuar com sua vida sem medo. Resguardar as crianças da morte ou do conceito de morte presumindo que são muito pequenas para entender o que significa o que é morrer não é o ideal.

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Sim, a vida segue: revisitando minhas memórias

“A árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior que a soma de seus momentos”. (Zygmunt Bauman)

No último dia 22.12.16 eu republiquei um texto que havia escrito em 2015 para ajudar as pessoas em processo de luto a passarem pelas festividades do final de ano com mais leveza. O texto foi compartilhado e lido por milhares de pessoas e, por conta disso, eu recebi dezenas de e-mails e mensagens de pessoas que gentilmente dividiram comigo suas histórias e, consequentemente, suas dores e fragilidades. Histórias estas que muito me comoveram, como a de uma mãe que há 1 mês perdera sua filha aos 20 anos.

Conforme eu ia lendo as mensagens e respondendo com orientações e dicas de leitura, para auxiliar na compreensão desse momento de extrema fragilidade, eu voltei no tempo e comecei a revisitar as minhas próprias memórias. Olhar e cuidar da dor do outro me permitiu refletir sobre a vida e sua continuidade, apesar das perdas e dos lutos vivenciados ao longo de minha existência.

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