Papai: ausência que se tornou uma delicada lembrança

“Pai
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz”. (Fábio Jr.)

A morte visitará todos nós um dia, mas ela não tem o costume de nos avisar quando isso acontecerá. Sua agenda é completamente desconhecida. Pode ser numa fria manhã de inverno ou num belo entardecer de primavera. O fato é: ela pode nos tirar de cena a qualquer momento, assim como quem amamos. Eu tenho a consciência de como a vida é permeada pela imprevisibilidade e impermanência desde criança.

O ano era 1969. Num domingo de maio, um dia em que as pessoas costumam descansar, a morte, que nunca tira folga, decidiu visitar minha família e levar meu pai para um passeio. Eu tinha apenas 2 anos e 8 meses, mas guardo na memória esse dia em que o senhor de olhos cor de mel foi embora para nunca mais voltar.

Naquela época os velórios eram realizados em casa, e é justamente essa lembrança que guardo na memória. Apesar de alguns estudiosos dizerem que crianças não registram na memória eventos antes dos 3 anos, eu guardei. Na verdade eu guardo duas lembranças. Uma é doce e agradável, o vulto do meu pai brincando comigo na escada de uma casa em que moramos e a outra é triste e amarga, eu correndo ao redor daquela caixa de madeira repleta de florzinhas na sala de minha casa. Ah! Mal sabia eu que aquele senhor que eu começara a chamar de pai não mais poderia, no plano material, ouvir aos meus chamados.

A menina foi crescendo e em sua casa não se pronunciava a palavra pai. Também não havia fotografias em porta-retratos. Havia um silêncio sobre essa figura e todos ao meu redor insistiam em afastar de mim qualquer lembrança que pudesse gerar perguntas cujas respostas poderiam remeter à memória de um evento difícil de se traduzir em palavras. Mas a menina foi para a escola e, no pré-primário, se deu conta que todos os coleguinhas tinham uma mãe e um pai. Então, a primeira pergunta surgiu: eu não tenho um pai? Para ser sincera não me lembro da resposta. Acreditem, somente tomei consciência de fato do que essa figura representava na vida das pessoas – e de que eu não tinha essa figura na minha vida – quando estava no ensino fundamental. Essa consciência veio da forma mais cruel que uma criança possa experimentar: confeccionar um presente para o dia dos pais mesmo não o tendo. Sim, é cruel. Eu os confeccionava e entregava para meu irmão mais velho. Como aquilo era desconfortável! Eu amo meu irmão, minha figura de afeto e apego seguro, mas ele não era meu pai. Nenhuma criança cujo pai morreu deveria passar por esse constrangimento de participar de um evento onde a figura principal não poderá estar lá para ser homenageada.
Aos poucos fiz outra constatação: a de que aquele local de terra batida que visitávamos no dia dos pais, e que tinha várias “casinhas” de cimento, era onde o meu pai “morava”.

À medida em que eu ia crescendo, gradualmente ia me sendo revelada a biografia do senhor da foto da “casinha” de cimento. Fotos guardadas em um malote, documentos e histórias contadas pela minha mãe, pelos meus irmãos e por familiares. Eram histórias que revelavam uma pessoa austera mas, como todos diziam, “de um coração enorme”. Uma pessoa honesta, íntegra e bondosa. E foi assim que comecei a conhecer o Sr. Francisco, meu pai, pela fala e pelo olhar do outro.

Na adolescência e no começo da fase adulta eu sentia um vazio, uma angústia que não conseguia nomear. Somente quando iniciei um processo psicoterapêutico aos 21 anos é que comecei a compreender o que representou a morte de meu pai na infância. Percebi que não havia tido espaço para vivenciar um processo de luto e assimilar todas as perdas que estavam contidas naquela morte. Todos ao meu redor tomaram como verdade que, como eu era muito pequena, uma criancinha, eu não tinha entendimento do que havia acontecido e, portanto, não havia sentido aquela perda. Ledo engano, eu senti e muito.

Com ele morreu a possibilidade de um abraço afetuoso, uma conversa, os conselhos, as preocupações, as proibições, as broncas e até mesmo as palmadas. A mim foram privadas as lembranças e mazelas de uma relação entre pai e filha.
Era atordoante não saber o seu tom de voz, o som da sua risada, o seu cheiro, o seu jeito de andar e o seu entendimento sobre as questões da vida. Ah! Como foi difícil lançar meu olhar sobre a morte do meu pai, como doeu. Foi sufocante e angustiante em certos momentos, mas foi de fundamental importância ter me permitido vivenciar essa dor. Pude nomear o vazio, compreender aspectos delicados da minha perda e ressignificá-los. O processo de luto não é uma tarefa fácil, mas olhar para a dor faz parte do caminho. Foi um processo longo e requereu muita paciência, mas consegui sair do estágio de ter a dor para ser como a minha dor. Por isso, hoje eu consigo olhar nos olhos dos meus pacientes e dizer: é possível ressignificar a tua perda. Vai doer, vai ter choro, solidão e, por vezes, até raiva, mas ao final do percurso valerá a pena ter revisitado e cuidado dessa dor. E isso ninguém me contou. Eu experenciei.

Ao longo do processo fui deixando o pesar ser paulatinamente substituído pela saudade. Hoje penso no meu pai como uma figura que está em mim. Que apesar da ausência física, ele faz parte da minha história e da minha construção de ser-no-mundo. Penso que ele tem orgulho da pessoa que me tornei. É claro que, às vezes, lá de sua morada espiritual ele deve ficar enlouquecido com minhas chatices, que são muitas, mas penso que o amor pela filha caçula se sobrepõe a qualquer desagrado. Todas as minhas ações de bondade e afeto são dedicadas a ele como forma de agradecimento pelo ser humano que ele foi.

Papai não conheço o tom de sua voz; não lembro do seu rosto; não lembro do cariciar de suas mãos, mas isso não importa. Sempre te amei.

Saudades!

Nazaré Jacobucci

Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Capelania: A importância do Cuidado Espiritual em Cuidados Paliativos

“Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”. (Gilberto Gil)

Como já discutimos em posts anteriores, Cuidado Paliativo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, é uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes adultos, crianças e famílias que enfrentam problemas associados a doenças que ameaçam a vida. Previne e alivia o sofrimento por meio da identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e outros problemas físicos, psicossociais ou espirituais (WHO, 2017).

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A Imprevisibilidade acontece nas horas, nos minutos, nos segundos…

“Somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”. (Ayrton Senna)

Estamos vivenciando um momento único. Goste você ou não, a Copa do Mundo é este momento. Povos dos 5 continentes estão reunidos num mesmo local experienciando os mesmos sentimentos e emoções. Tudo pode acontecer naqueles incríveis e imprevisíveis 90 minutos e, antes que o juiz sopre seu apito sentenciando o fim, tudo pode acontecer.

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Laços Familiares: Ressignificando a morte de um irmão

“Ter um irmão é ter, para sempre, uma infância lembrada com segurança em outro coração”. (Tati Bernardi)

Eu costumo dizer que este blog é um presente para a minha alma pois todos os dias eu sou agraciada com histórias que me fazem refletir sobre a importância do amor e dos vínculos afetivos que construímos ao longo de nossa existência. Muitas das histórias me fazem crer que devemos amar o outro intensamente, sem medo e sem restrição, para que o sentido da vida se faça valer.

A história que compartilho com vocês a seguir, com a devida autorização, é da Carolinne Kandelman, que perdeu o irmão há dois anos. Na maioria das vezes o luto pela perda de um irmão é ofuscado ante a dor dos pais. As pessoas voltam seu olhar e cuidado para os pais, pois enterrar um filho é, de fato, uma tarefa dificílima. No entanto, ao perdermos um irmão estamos rompendo com um dos laços mais significativos de nossas vidas. Não existe uma palavra para descrever a perda de um irmão. Se você perde seus pais, você é órfão. Mas, se você perde um irmão não há um adjetivo que caracterize essa perda. Por isso, a importância de reconhecermos e cuidarmos da dor emocional desse irmão/irmã.

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Filmes: Possibilidades de Reflexão sobre a Morte e o Luto

Antonius – Nenhum homem pode viver com a morte e saber que tudo é nada
Morte – A maioria das pessoas não pensam nem na morte ou no nada”.
(Filme O Sétimo Selo – Ingmar Bergman)

Eu sou uma cinéfila confessa. Considero a sétima arte absolutamente sublime. Como professora, considero filmes uma ótima ferramenta de auxílio para a compreensão de diversos conceitos. Os filmes não só nos divertem, mas são capazes de nos fazer refletir, favorecendo assim novas formas de lidar com questões e conflitos do nosso cotidiano. Compartilho, então, algumas sugestões de filmes que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.

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Luto: Teoria da Transição Psicossocial

“Não há nenhum livro de regras. Não há nenhuma escala de tempo. O luto é tão individual como uma impressão digital. Faça o que é melhor para a sua alma” (W Larcombe & Son)

Eu tenho a honra de ser tutora do módulo sobre Luto do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Cuidados Paliativos da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais coordenado pelas Profas. Gláucia Tavares e Marília Aguiar. Tem sido uma experiência muito valiosa e enriquecedora. Na unidade 2 foi solicitado aos alunos que discorressem sobre uma das teorias que permeiam um processo de luto: a Teoria da Transição Psicossocial. Essa teoria foi proposta por Colin Murray Parkes, psiquiatra britânico, que compreende luto como uma importante transição psicossocial decorrente das transformações no mundo interno que necessariamente ocorrem a partir da vivência de um processo de luto. A partir dessa transformação o enlutado passa a assumir novos papéis e uma nova visão de si e do mundo externo, buscando novas soluções para os problemas da vida cotidiana.

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Despedir-se: A difícil arte de dizer “Adeus”

“A vida me ensinou…
A dizer adeus às pessoas que amo, sem tira-las do meu coração” (Charles Chaplin)

No final de 2017, como faço todos os anos, eu tirei um tempo para relembrar e refletir sobre todas as perdas que sofri ao longo do ano. Não foram poucas. Infelizmente, por uma questão geográfica, eu não pude me despedir de pessoas tão queridas.

Poder despedir-se de quem amamos é de uma magnitude que está na categoria do indizível. Contudo, hoje as pessoas têm medo de dizer “adeus”. Muitas pensam que essa atitude pode atrair a morte mais rápido e, por conta desse medo, perdem a oportunidade de dar aquele abraço único que ficará para sempre na memória. Outras preferem acreditar que aquela intervenção milagrosa feita na UTI terá o poder de reanimar seu ente querido e elas terão a chance de se despedir mais tarde. Eu estava justamente pensando sobre o porquê de as pessoas ficarem tão bravas comigo quando eu as questiono sobre – “você já se despediu do seu ente querido?” – parece que estou fazendo uma pergunta ofensiva. Claro, que esta pergunta só deve ser feita num contexto específico e com muita delicadeza.  Então me deparei com o texto abaixo, escrito pelo Psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, que me autorizou a compartilhá-lo na íntegra, que nos mostra que precisamos reaprender a nos despedir.

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Natal: Como lidar com a dor do luto durante as festividades do final do ano

“O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível”. (Adélia Prado)

Estamos vivenciando uma das épocas mais significativas do ano. O Natal e o Ano Novo são, para a maioria das pessoas que vivem no ocidente, um momento de estar com a família e com amigos queridos. Não podemos esquecer que a essência do Natal está justamente no partilhar de afetos com aqueles que amamos.

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Luto no escritório: Quando um colega de trabalho morre

“Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de 7 chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção
Que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir”.      (Milton Nascimento e Fernando Brant)

O ano era 1986, eu cursava o último ano do curso de secretariado e como exigência curricular eu realizava meu estágio profissional numa multinacional holandesa. Meu departamento era pequeno, éramos apenas 3 pessoas. A secretária que supervisionava meu estágio era casada com um funcionário da administração, um departamento enorme, por isso nós tínhamos o hábito de almoçarmos com os colegas dele. E assim fiz amizade com muitas pessoas que trabalhavam na administração, e em especial com o Hélio, que os colegas carinhosamente chamavam de Helinho, por ser um rapaz miúdo.

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Dia dos Mortos: Um dia para celebrarmos as memórias

“Os mortos são invisíveis, e não ausentes”. (Victor Hugo)

No dia 02 de novembro vários países e culturas celebram e homenageiam seus ancestrais que se encontram em outra dimensão. Dependendo do contexto histórico, social e cultural em que o sujeito está inserido, o dia pode ganhar um viés festivo ou pode ser um dia para reflexão e oração. Eu penso que seja o dia de celebrarmos as boas e eternas recordações…

Neste sentido, a tradição religiosa de se ter um dia para lembrarmos e rezarmos pelos nossos antepassados, iniciou-se por volta de 998 DC, quando o abade Odilo de Cluny, em Borgonha na França, estabeleceu aos membros de sua abadia e a todos aqueles que professavam a fé da Ordem Beneditina a obrigatoriedade de se rezar pelos mortos. Segundo Fernandes, a partir do século XII, essa data popularizou-se em todo o mundo cristão medieval como o Dia de Finados, e não apenas no meio clerical. Apesar do processo de secularização e laicização que o mundo ocidental tem passado desde a entrada da Modernidade, o dia 02 de novembro ainda é caracterizado como sendo um dia específico para se meditar e rezar pelos mortos.

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