Luto e Perdas num Processo de Imigração: um constante ressignificar

”Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião
Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão” (Belchior)

No mundo de hoje, onde há globalização e estreitamento de fronteiras, o processo de imigração e migração vem se intensificando gradativamente. A migração não é sinônimo de luto. Muitas pessoas decidem migrar para ampliar seus horizontes e, muitas vezes, para mergulhar num profundo processo de autoconhecimento e reorganizar suas vidas estagnadas. Contudo, tanto os refugiados quanto os indivíduos que escolheram imigrar experienciarão, em graus diferentes, os sentimentos vivenciados num processo de luto. Pois, haverá várias rupturas e perdas ao longo do processo migratório

Ao contextualizar o processo de luto no contexto migratório gostaria de provocar uma reflexão das perdas cotidianas, reais e simbólicas, às quais nós imigrantes estamos suscetíveis em nosso dia-a-dia em terras estrangeiras, pois, como disse Freud em Luto e Melancolia (1917), “o luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que corresponde à perda de um ser querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Exigindo assim um trabalho de luto”.

De acordo com os estudos de Della Pasqua e Dal Molin (2009), existem sete tipos de luto no processo migratório: da família e dos entes queridos; da língua; da cultura; da terra; do status social; do contato com o grupo de pertencimento e dos riscos para a integridade física.

Refletindo sobre a lista descrita acima, na minha opinião, ao decidirmos embarcar num ônibus, trem, avião e/ou navio estamos rompendo com dois dos vínculos mais importantes de nossas vidas: o vínculo familiar e o de pertencimento. De acordo com Métreaux (2011), o pertencimento contribui para precisar a definição de comunidade, constituída então por indivíduos que reconhecem ter um ou vários pertencimentos comuns, ou seja, um ou vários sentidos compartilhados. Comunidade que não se reduz a uma reunião de indivíduos, não se resume à soma das suas partes, mas surge como fruto de uma criação coletiva: criação, comum de uma identidade, de um mito, de um projeto, de uma história, de um destino, de uma essência.

                                                         (Foto by Orlando Facioli)

Ao migrarmos para um novo país precisamos romper um outro vínculo poderoso que nos confere identidade, ou seja, a nossa língua materna. A aprendizagem de um novo idioma não se refere apenas a aprender a gramática e a entonação correta, mas a incorporação de novos valores e ideias que conferem significado àquela linguagem. Para aprendermos de fato uma nova língua precisamos interagir com os locais e isso exigirá um contato maior com a população. Infelizmente, muitos imigrantes sentem-se angustiados e, até mesmo, envergonhados por não entenderem o que foi dito e/ou por não conseguirem pronunciar corretamente as palavras. Consequentemente, por não conseguirem interagir com os locais, alguns indivíduos podem desenvolver problemas relacionados à saúde mental como, por exemplo, humor depressivo e isolamento.

Outra questão de extrema importância é a perda do status social. A nossa profissão confere significado às nossas vidas e faz parte da nossa identidade. Quando migramos precisamos provar que aquilo que demoramos anos para aprender em nosso país de fato condiz com o que se aprende no país elegido para morar , ou seja, precisamos validar o nosso diploma. Esta validação não é das tarefas mais fáceis. Infelizmente, muitos profissionais deixam de exercer suas profissões devido aos entraves burocráticos e, por uma questão de sobrevivência, se submetem a realizar outros trabalhos. Muitos indivíduos reportam em suas falas sentimento de frustração, tristeza e fracasso.

Este é o quinto país em que sou imigrante e posso dizer que nenhuma experiência migratória é simples. Precisamos recomeçar, reaprender e ressignificar cotidianamente. Felipe Pacheco (2017) descreve em seu texto as tarefas de um imigrante: precisamos aprender a andar na cidade, se acostumar com a cultura e os costumes locais, com o clima, a lidar com a distância da família e a dor de ficar ausente. Afinal, você é obrigado a acompanhar de longe os aniversários, as formaturas, os almoços de domingo, as festas, doenças, crescimento das crianças, eventos nos quais você sempre estava presente. Tenho que concordar, estas tarefas não são fáceis.

Num processo migratório você perde parte de suas referências. Faz parte da elaboração do nosso luto mesclarmos nossos valores e tradições com os valores e tradições locais, pois isso cria novas possibilidades de identificação com a cultura do país. Por exemplo, neste sábado um amigo que é paulista nos convidou para comermos pastel que ele iria preparar. Paulista adora um pastel de carne: faz parte da nossa tradição culinária. Entretanto, como estava um dia excepcionalmente quente na Inglaterra, eu preparei Pimm’s, uma bebida típica inglesa de verão, para acompanhar o nosso pastel. Neste sentido, eu vou ressignificando minhas perdas, incorporando novos aprendizados e reconstruindo meu sentimento de pertencimento.

Quanto à elaboração do luto num processo migratório, segundo Pereira e Gil Filho (2014), esta pode variar de simples, complicada, até extrema. A elaboração simples se dá em boas condições e o luto pode ser elaborado no país de destino; o luto complicado apresenta sérias dificuldades, mas o indivíduo consegue elaborar o luto, com ajuda. Já no luto extremo, o indivíduo não consegue elaborá-lo, pois ele ultrapassa as condições de adaptação do sujeito.

Sem dúvida, vivenciar um processo migratório é algo que nos muda para sempre. Temos a rara oportunidade de compreender o verdadeiro significado da palavra tolerância. Aprendemos a tolerar o diferente, aquilo que nos parece estranho. Temos também a rara oportunidade de nos tornarmos mais flexíveis para as imprevisibilidades da vida, nos tornando assim mais competentes para a vida.
Passamos a valorizar o que realmente nos importa e o que confere sentido para nossas vidas. É uma experiência que eu recomendo. Não se surpreendam se vocês descobrirem em seu processo migratório que não há lugar ideal no mundo, muito menos definitivo.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society

Referências:
Bertoncini, C. Ser estrangeiro – O encontro com o Desconhecido. (Site) Interculturapsi.  Abril 2012. Disponível em: https://interculturapsi.wordpress.com/2012/04/27/ser-estrangeiro/
Carignato, TT. Por que eles emigram? In: CARIGNATO, T.T. et al. Psicanálise, cultura e migração. São Paulo: YM Editora & Gráfica; 2002. p.55-66.
Della Pasqua, L; Dal Molin, F. Algumas considerações sobre as consequências sociais e psicológicas do processo migratório. REMHU – Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, ano XVII, v. 17, n. 32, p. 101-116, 2009. Disponível em: http://www.csem.org.br/remhu/index.php/remhu/article/view/147/139
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia (1917 [1915]). In: ______. A história do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre a Metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 245-263.
Henry, HM; Stiles, WB; Biran, MW. Loss and mourning in immigration: Using the assimilation model to assess continuing bonds with native culture. Counselling Psychology Quarterly, v. 18, (2), p. 109-119, june 2005. Disponível em:
https://www.researchgate.net/publication/247508656_Loss_and_mourning_in_immigration_
Using_the_assimilation_model_to_assess_continuing_bonds_with_native_
culture
MÉTREAUX, Jean-Claude. Lutos coletivos e criação social. Trad. Eduardo Nadalin. Curitiba: Ed. UFPR; 2011. 305 p.
MILESI, R. Refugiados e Migrações Forçadas: Uma reflexão aos 20 anos da Declaração de Cartagena. Disponível em: http://www.justica.gov.br/central-de-conteudo/estrangeiros/art_irmarosita.pdf
Murray, JA. Loss as a universal concept. A review of the literature to identify common aspects of loss in adverse situations. Journal of Loss and Trauma, USA, v.6, (3), p. 219–241, 2001.
Pacheco, F. Saí do Brasil. E morri. Janeiro 2017. Disponível em: http://felipe-pacheco.blogspot.co.uk/2017/01/sai-do-brasil-e-morri.html
Pereira, RMC; Gil Filho, SF. Uma leitura da mundanidade do luto de imigrantes, refugiados e apátridas. GeoTextos, v. 10, n. 2, p. 191-214, dez. 2014. Disponível em:
https://portalseer.ufba.br/index.php/geotextos/article/view/10116/8810
Rando, T. Treatment of complicated mourning. Champaign, IL. Research Press. USA; 1993. 768p.
Rosa, MD; Berta, SL; Carignato, TT; Alencar, SLS. A condição errante do desejo: os imigrantes, migrantes, refugiados e a prática psicanalítica clínico-política. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, v. 12, n. 3, p. 497-511, setembro 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rlpf/v12n3/v12n3a06

A arte de morrer: questões pertinentes

Antonius – Nenhum homem pode viver com a morte e saber que tudo é nada
Morte – A maioria das pessoas não pensam nem na morte ou no nada”.  
(Filme O Sétimo Selo – Ingmar Bergman)

Estou fazendo um curso, sobre a morte e o morrer, com um conteúdo muito interessante que tem me posto a refletir sobre as questões que permeiam a arte de morrer. Uma das atividades foi sobre a contribuição dos filmes para reflexão sobre esta temática. Tínhamos que escolher dois filmes: um clássico e um moderno. Eu escolhi O Sétimo Selo e Encontro Marcado para compor a minha análise. Minha escolha se deu por considerar ambos os filmes interessantes.

Em O Sétimo Selo, Antonius Block é um cavaleiro que retorna das Cruzadas para uma Suécia devastada pela peste negra e pela Inquisição promovida pela igreja católica. Contudo, ele também tem um encontro marcado com a Morte. Porém, para ganhar tempo, ele rejeita o fim da sua existência. Ele, então, desafia a morte para uma partida de xadrez, com o objetivo de driblá-la.

Em Encontro Marcado, o empresário e milionário William Parrish está prestes a completar 65 anos; sua filha mais velha Allison Parrish está organizando uma glamorosa festa para celebrar a data. Porém, William também está prestes a se encontrar com a Morte. Ele recebe a visita de um belo rapaz, Joe Black, que contraria as personificações tradicionais da Morte, geralmente retratada como sombria. Joe faz uma proposta inesperada a William, ele propõe lhe conceder alguns dias a mais de vida e em troca William deve lhe mostrar um pouco da como nós humanos compreendemos e experenciamos a vida. William aceita o acordo, afim de ganhar um pouco mais de tempo junto às filhas, ter a chance de despedir-se delas e corrigir alguns erros do passado.

Você já parou para pensar que nós também estamos contracenando com a Morte todos os dias? Diariamente jogamos uma partida de xadrez com ela e, por mais exímio conhecedor de xadrez que possamos ser, ela ao final da nossa existência sempre vencerá a partida. Por isso, algumas perguntas me parecem pertinentes, mas raramente as fazemos.

Na era moderna e tecnológica podem os profissionais da saúde prever ou diagnosticar o morrer?

Podemos “controlar” a morte? A que custo podemos adiar nosso encontro com a Morte?

Convido você a sair um pouquinho da sua zona de conforto para um fazer um exercício de imaginação – Imagine que você está com uma doença gravíssima sem possibilidade terapêutica de cura.

Como você gostaria de ser tratado? Você gostaria de morrer ligado a tubos e máquinas – afinal tudo pode ser feito para salvar a sua vida –  ou em casa com todas as medidas de conforto para seu o corpo e mente?

Quais são, de fato, as coisas mais importantes a fazer quando uma pessoa está seriamente doente e com probabilidade de morte eminente?

Como a partida será inevitavelmente vencida pela Morte

Tenha um plano sobre o que você gostaria que fosse feito. Você gostaria de ser enterrado ou cremado? Ou você pode querer doar seu corpo para um laboratório universitário. Conte para alguém seu desejo de morte. Apenas 25% das pessoas manifestam isso ainda em vida.

A maioria das mortes, cerca de 70%, ocorrem por doenças crônicas ou doenças inesperadas. Por isso, expresse em um testamento o que você gostaria que fosse feito em termos médicos. Você quer morrer em casa ou num hospital? Se você não deseja que nenhum procedimento invasivo seja realizado, manifeste seu querer.

Infelizmente, cerca de 60% da população não conversam o suficiente sobre a morte e muito menos manifestam seus desejos.

Em suma, assim como nos filmes, na vida real estamos sempre tentando “driblar” a Morte. Mas nós sabemos que esta tentativa é vã. Não querer falar sobre ela não a afastará de nossas vidas. A Morte é universal. Ela expressa de forma clara que – não importa quem você é, onde você mora, qual é a sua profissão, o quanto você possui de dinheiro – você tem um encontro marcado com ela. No final, os filmes nos revelam que não é possível nem mesmo para um Cavaleiro ou um poderoso Empresário vencer a Morte.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society

Referências:
Canto dos Clássicos http://www.cantodosclassicos.com/o-setimo-selo-1957-resenha/
CareSearch. Dying Learn. Death and Dying (online)

 

 

Música e Cuidado Paliativo para o enfretamento das dores físicas e psicoemocionais

“Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier”. (Sérgio Britto – Titãs)

Todos nós sabemos que ao ouvir uma boa música somos tomados por uma sensação de bem-estar. Esta sensação pode trazer benefícios para a saúde, tais como melhorar o humor e reduzir o estresse e a ansiedade.

A música como recurso terapêutico, principalmente no contexto hospitalar, pode ser uma ferramenta para o paciente enfrentar sua condição clínica. A música pode auxiliar no aumento da capacidade respiratória, pode estimular a coordenação motora, pode aliviar as dores de cabeça, pode auxiliar o paciente a suportar as crises que uma doença crônica traz e também a suportar as dores físicas e psíquicas. Desse modo, a música é um recurso terapêutico em potencial, por seu caráter de linguagem e de expressão e por possibilitar a conexão com conotações ligadas à área afetivo-emocional, relacionadas aos sentidos que o indivíduo e seu contexto atribuem ao fenômeno musical. (SekiI; GalheigoII, 2010).

No contexto dos cuidados paliativos, que tem por filosofia o cuidado integral ao paciente portador de doença grave que ameaça sua vida,  a música é utilizada como uma terapia complementar. As terapias complementares propiciam alívio de sintomas, tais como:  a ansiedade, a dor, fadiga e falta de ar.
Desse modo, a musicoterapia visa auxiliar o tratamento convencional e melhorar a qualidade de vida e morte desse paciente. O simples ato de ouvir música pode produzir mudanças positivas no humor, restaurar a paz e o equilíbrio emocional, potencializar a expressividade emocional do ser, promover o relaxamento e a expressão dos sentimentos, tais como: tristeza, raiva e luto. A música também constitui um recurso de comunicação, que pode estabelecer a relação interpessoal, ajudar a retomar os sentimentos e lembranças do passado, proporcionando, assim, bem-estar e conforto ao enfermo e aos seus cuidadores/familiares. (Caires; Andrade; Amaral; Andrade; Calasans; Rocha, 2014).

A música também pode facilitar, de diferentes modos, a despedida entre paciente e seus familiares. A música pode dizer o indizível em momentos em que a angústia é difícil de ser suportada, propiciando um ambiente com mais leveza. Para entendermos melhor sobre as questões que permeiam este tema eu tive a honra de entrevistar a Psicóloga Cristiane Prade, uma estudiosa do assunto.

Você poderia nos explicar qual o papel de um Musicoterapeuta numa equipe hospitalar?

Um Musicoterapeuta inserido em uma equipe hospitalar visa contribuir para o tratamento do paciente da mesma forma que os outros terapeutas. No entanto, ele traz a arte em destaque para assim fazê-lo, o que promove por si só uma interação e um olhar diferentes dos profissionais de saúde, bem como dos pacientes e familiares. A música é percebida, culturalmente, como algo a ser desfrutado, e em termos de educação como algo a ser aprendido. Ela nunca é vista como algo ameaçador. E é nesse espírito que os pacientes recebem a musicoterapia, como uma possibilidade de estarem mais próximos do que é saudável, de suas histórias e sua cultura.
O espectro de atuação terapêutica através da música é muito vasto. O musicoterapeuta contribuirá de acordo com as demandas da unidade onde trabalha. Dessa forma, se o musicoterapeuta está em uma pediatria, pode focar em oferecer atividades que promovam integração entre as crianças e seus pais, enfrentamento da internação e de procedimentos invasivos, fazendo uso da música para explorar sentimentos, trazer familiaridade e contribuir para sensação de segurança da criança, entre várias outras intervenções. Por outro lado, um musicoterapeuta inserido em uma unidade de reabilitação poderá trabalhar em parceria com fisioterapeuta, fonoaudióloga e/ou terapeuta ocupacional focando em coordenação motora, afasias, motivação para as atividades físicas, memória, alerta, além de outras tantas intervenções possíveis.

Na sua lida em hospital, quais eram os problemas emocionais, observados por você, que os pacientes em cuidados paliativos apresentam com mais frequência?

Pacientes internados que recebem cuidados paliativos estão enfrentando doenças muito graves em momentos de extrema fragilidade. Durante períodos em que os sintomas físicos são mais exacerbados e a equipe está buscando formas de melhor manejá-los, os pacientes lidam com sentimentos que afloram especialmente em função do que eles sentem no corpo. Por exemplo, o medo pode ser mais intenso para um paciente que sofre com falta de ar ou crises de dor.
Quando os pacientes têm seus sintomas físicos bem manejados podem falar sobre o que estão sentindo e pensar a respeito da vida, da doença, expectativas e medos. Poderia falar aqui do que é mais descrito em literatura como raiva, sofrimento existencial, ou depressão por exemplo, mas, sendo mais prática destaco aspectos levantados em relatos de pacientes:

  • “Sei que vou me curar. Deus não me deu 4 filhos para me fazer morrer em pouco tempo”. Preocupações e angústias em relação à família; receio de decepcionar a família por não “conseguir” se curar; preocupações financeiras e com papeis nas relações familiares, medo de falar sobre a morte e assim tirar a esperança dos familiares.
  • “Eu quero muito ir para Bahia com a minha família. Curtir praia, mar…acho que vai dar depois dessa internação”. Outra questão fundamental é lidar com as perdas que vão surgindo ao longo do agravamento da doença, que costumam vir com novos sintomas que cada vez mais comprometem a autonomia e a qualidade de vida do paciente. Toda a vez que um novo sintoma aparece a esperança do paciente fica ameaçada. Não necessariamente a esperança de cura da doença, mas de um tempo suficiente para realizar um sonho, por exemplo.
  • “Eu não tenho medo de morrer, mas não quero sofrer quando chegar a hora”. Medo do sofrimento físico
  • “Eu não devo ter fé o bastante. Se tem várias pessoas que falam que conseguiram porque tinham fé…eu não devo ter, porque não estou conseguindo”. Dúvidas a respeito de fé e insegurança em relação a escolhas feitas na vida
  • “Sabe, eu sinto que estou descendo por um funil”. O medo da morte também aparece com frequência e alguns falam sobre isso abertamente, outros falam sobre isso de forma simbólica e tem os que preferem não falar sobre o assunto.

Muitas vezes a música é um recurso bastante útil para oferecer uma distância percebida segura pelo paciente para poder falar do tema. “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu. A gente quer ter voz ativa, em nosso destino mandar, mas eis que chega a Roda Viva e carrega o destino para lá…”. Uma paciente que sustentava um grande esforço para manter suas esperanças e evitava falar diretamente sobre seu medo do tratamento não ter sucesso, cantava essa canção de Chico Buarque em quase todas as nossas sessões, e finalizava nossos encontros se alimentando de uma outra canção: “Ninguém quer a morte, só saúde e sorte……Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita é bonita e é bonita…”. Gonzaguinha já fez muito paciente extremamente fragilizado levantar da poltrona e cantar segurando o cateter de O2. Esses momentos, quando compartilhados com a família, são repletos de emoções e aproximam os presentes.

Em que sentido a música pode auxiliar um paciente em casos de demência como, por exemplo, doença de Alzheimer?

A música é um recurso maravilhoso, arrisco dizer que é a melhor estratégia para trabalhar com pacientes portadores de demência. Músicas familiares ajudam o paciente a se sentir mais seguro, estimulam memória e oferecem possibilidade de interação social. Muitas vezes familiares já não têm nenhum canal de comunicação com o ente querido e a música é a única portinha que permanece aberta. É só começar a cantar para ver a transformação em um paciente que, muitas vezes, já não se comunica mais. Ele pode começar a bater palma no ritmo, cantar alguns versos, olhar para você e sorrir, conectar-se com ele mesmo e com o momento presente, conectar-se com as pessoas que ele ama durante o tempo daquela canção.
Ao ser estimulado pela atividade musical terapêutica ele pode trabalhar coordenação motora, marcha, linguagem, apresentar melhora de humor e mais disposição para se alimentar, por exemplo.

Quando e como determinar se a intervenção musical será interessante para este paciente? E como é feita a escolha musical?

Na minha prática, com pacientes graves e em cuidados paliativos a intervenção musical acontece na medida do interesse do paciente e da possibilidade de o recurso musical fortalecê-lo e ser um facilitador do luto antecipatório. Muitas vezes o paciente entende que deve ter conhecimento musical e eu explico que não é o caso. Outras vezes ele recebe a música como um bálsamo que o ajuda a se acalmar, a se conectar consigo mesmo, ou a se animar e sentir-se mais disposto. A música é sempre meu recurso de escolha para facilitar a comunicação entre familiares, por exemplo. Dessa forma, acalmamos os medos de falar sobre morte, saudade, arrependimento, culpa, amor, e as canções surgem como presentes. Jobim, Chico, Vinícius, Milton, Eric Clapton, The Beatles, Coldplay, e por aí vai… as canções falam pelos pacientes e familiares. Muitas vezes é depois de cantar e ouvir em família as músicas escolhidas na sessão, que é possível falar sobre o que está acontecendo naquele momento com eles. A escolha das músicas é sempre do paciente e quando a família participa é deles também. Meu papel é entender a escolha musical e guiar os presentes para que as canções possam falar por eles. Muitas vezes é ajudar a criar o momento para que a família possa estar junta, falar de afetos, se despedir.

Como os pacientes e familiares recebem e compreendem esta intervenção terapêutica por meio da música?

Muitas vezes é com um sorriso no rosto e uma surpresa no olhar. “Nossa, mas você vai tocar para ele! ” Na nossa cultura a música é uma dádiva, não é algo associado com hospital, tratamento, etc. e de repente o paciente vê alguém tocando violão para ele. Ele se percebe valorizado de um jeito diferente. Quando a família ou até mesmo a equipe entra no quarto e escuta as cordas soando suave em um volume confortável, o ambiente é diferente, muda a atitude de quem entra e está lá. Como mencionei anteriormente, muitas vezes os pacientes estão lidando com sintomas de grande desconforto. A possibilidade de uma intervenção musicoterapêutica amplia o cuidado ajudando o paciente a sentir-se mais confortável. Por exemplo, se ao atender encontro o paciente com muita dor, a sessão de psicoterapia (previamente combinada) pode se transformar na sessão de musicoterapia; onde permaneço no quarto e ofereço a música como recurso para melhor lidar com o sintoma enquanto esperamos a medicação fazer efeito.

Você pensa que a intervenção terapêutica por meio da música pode favorecer o momento da despedida desse paciente que está se despedindo da vida?

É natural e cultural utilizarmos a música em rituais e transições. Mas, no contexto hospitalar, como qualquer intervenção, tem seus critérios. A música adequada é um cobertor que protege e embala a todos, amplia a sensação de segurança e conforto.  Na hora da despedida pode fazer grande diferença contar com a musicoterapia.

Houve um momento dentre tantos atendimentos realizados em sua carreira profissional que te marcou, tanto pessoal como profissionalmente?

Não houve um momento, houve muitos. São histórias lindas de pessoas e pacientes que guardo no meu coração. Poderia ficar horas aqui relembrando com você, Naná, cada uma das histórias. O privilégio de trabalhar em cuidados paliativos é que aprendemos cotidianamente sobre a importância de cuidar das relações, ser amoroso, desfrutar da alegria do momento e cultivar coragem. Cada um dos pacientes que atendi me ensinou sobre viver de forma mais presente. O tempo e as canções que compartilhamos foram sobre a poesia da vida. Mas algo que guardo em mim com zelo é ser testemunha de momentos tão cheios de sinceridade e sentimento. Uma vez, um paciente muito grave pediu para ouvir uma canção que gostava muito, “Taça de prantos”. Eu não conhecia essa música e fui para a internet para aprender. Ele era um paciente muito querido, do interior de São Paulo. Em uma reunião anterior com a equipe, tinha destacado a importância de seu filho de 11 anos estar presente, e finalmente tínhamos conseguido que a família estivesse reunida por alguns dias ou semanas no quarto do hospital. Na sessão seguinte eu toquei a música que ele tinha pedido – que falava de saudade, tristeza, perda. Ele estava sentado na poltrona e o filho estava no colo dele ouvindo a música. Quando terminou, ele se virou para o filho e disse: “Meu filho, eu quero que você seja um homem bom, que ajude a sua mãe na casa, que se dedique aos estudos, que seja valente”.

Nesse momento o filho começou a chorar e pediu perdão porque achava que não tinha sido um filho bom o bastante. E foi então que o pai fez a mais linda declaração de amor para ele e os dois choraram abraçados por um tempo.
Um pai que se despede da vida com a tristeza de não poder ver seu filho crescer, mas que o deixa com um legado de amor, de ter vivido a vida que queria ter vivido e de ter coragem ao se ver morrendo. Um filho que segue para a vida cheio de saudade, mas com a leveza de saber que foi o melhor filho que esse pai podia ter tido e sobretudo segue com o amor e a coragem que recebeu de seu pai.
Ser testemunha do momento em que essa realidade se concretiza dentro dessas pessoas é a maior honra.

Após esta conversa com Cris Prade, percebemos o quão importante é a inserção das terapias complementares na equipe que oferece cuidados paliativos, tendo em vista que o paciente e sua família, por muitas vezes, apresentam um grande sofrimento psíquico, emocional e existencial e a música pode ser uma poderosa ferramenta para expressar este sofrimento. Contudo, nos parece que o uso das terapias complementares ainda é pouco explorado no contexto hospitalar.
E, claro, muito se tem a caminhar quando se trata de cuidados paliativos. Nós profissionais da saúde precisamos conhecer e explorar esse campo de atuação para que possamos fornecer aos nossos pacientes um melhor atendimento, principalmente, num processo de finitude.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society

Este post teve a colaboração da psicóloga Cristiane Prade

Entrevistada: Cristiane Ferraz Prade – Psicóloga co-fundadora da Casa do Cuidar – SP. Mestre em musicoterapia pela Universidade de Nova York. Atuou em grandes hospitais como: Beth Israel e Mount Sinai, em NY, Beneficência Portuguesa e Hospital Israelita Albert Einstein em São Paulo. Trabalha com cuidados paliativos desde 1998. Foi membro do Núcleo de Cuidados Integrativos do Hospital Sírio-Libanês-SP. Organizadora do livro Cuidando de quem Cuida.

Referências:
Caires, JS; Andrade, TA; JB; Calasans, MTA; Rocha, MDS. A Utilização das Terapias Complementares nos Cuidados Paliativos: Benefícios e Finalidades. Cogitare Enfermagem. Jul./Set., 19(3), 514-20, 2014. Disponível em:
http://revistas.ufpr.br/cogitare/article/viewFile/33861/23228

Seki, NH; Galheigo, SM. O uso da música nos cuidados paliativos: humanizando o cuidado e facilitando o adeus. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, 14(33), 273-284, 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832010000200004

 

Luto não elaborado: as repercussões psicoemocionais na vida adulta

“O entardecer traz consigo a noite, a escuridão, as sombras, o desconhecido, que também dão sentido à vida, fazendo parte dela. No dia seguinte, no horizonte da vida, surgirá mais um dia de viver, mesmo que não estejamos presentes. Será sempre outro dia de viver e talvez seja o último e derradeiro. No amanhecer, encontra-se outro entardecer. O entardecer é a metáfora da morte. Dia e noite são partes do mesmo e único fenômeno, vida e morte”. (Maria Emília Bottini)

A morte de um dos pais é um dos eventos mais difíceis que uma criança pode enfrentar. Ela expõe prematuramente à criança a imprevisibilidade da vida e a natureza tênue da existência cotidiana. Estudos com adultos que apresentavam alguns distúrbios psíquicos e/ou mentais, especialmente depressão, revelam frequentemente lutos mal elaborados vivenciados na infância, sugerindo que tal perda pode contribuir para o agravamento de transtornos psiquiátricos e que esta experiência pode tornar uma pessoa emocionalmente vulnerável para a vida.

Continuar lendo

Luto na Infância: A Criança Enlutada

“A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais…”  (Memórias de Emí­lia – Monteiro Lobato) 

A morte é inerente à nossa existência, então, precisamos falar sobre a morte com as crianças, pois em algum momento elas irão perder um ente querido ou um animal de estimação. Há também as crianças que vivem em zonas de extrema violência e que se deparam com a morte cotidianamente. Portanto, temos que prepará-las para lidar com esta situação. Quando uma morte ocorrer, pode ser a oportunidade para que nós conversemos com ela sobre o tema. Esta conversa é importante e saudável para ajudá-la a lidar com o sofrimento. Como os adultos, as crianças precisam vivenciar o processo de luto para elaborar a perda que ocorreu e continuar com sua vida sem medo. Resguardar as crianças da morte ou do conceito de morte presumindo que são muito pequenas para entender o que significa o que é morrer não é o ideal.

Continuar lendo

Sim, a vida segue: revisitando minhas memórias

“A árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior que a soma de seus momentos”. (Zygmunt Bauman)

No último dia 22.12.16 eu republiquei um texto que havia escrito em 2015 para ajudar as pessoas em processo de luto a passarem pelas festividades do final de ano com mais leveza. O texto foi compartilhado e lido por milhares de pessoas e, por conta disso, eu recebi dezenas de e-mails e mensagens de pessoas que gentilmente dividiram comigo suas histórias e, consequentemente, suas dores e fragilidades. Histórias estas que muito me comoveram, como a de uma mãe que há 1 mês perdera sua filha aos 20 anos.

Conforme eu ia lendo as mensagens e respondendo com orientações e dicas de leitura, para auxiliar na compreensão desse momento de extrema fragilidade, eu voltei no tempo e comecei a revisitar as minhas próprias memórias. Olhar e cuidar da dor do outro me permitiu refletir sobre a vida e sua continuidade, apesar das perdas e dos lutos vivenciados ao longo de minha existência.

Continuar lendo

Alzheimer: o cessar lento da memória, não dos laços afetivos

“Alzheimer apaga a memória, não os sentimentos”. (Pasqual Maragall)

A população mundial está ficando mais velha. Em países desenvolvidos a expectativa de vida ultrapassa os 82 anos. Contudo, com o envelhecimento da população há uma maior incidência de doenças crônicas degenerativas, entre elas as demências, sendo a Doença de Alzheimer a forma mais comum de demência.

A doença de Alzheimer (DA) é essencialmente uma síndrome neurológica degenerativa, progressiva e irreversível. A DA deteriora as funções cognitivas –  memória, orientação, atenção e linguagem –  causada pela morte de células cerebrais. Esta deterioração interfere diretamente na autonomia e na qualidade de vida do indivíduo, impactando significantemente suas atividades cotidianas.

Continuar lendo

O Significado da Morte e o Processo de Luto na visão do Islamismo

“Toda alma provará o sabor da morte e, no Dia da Ressurreição, sereis recompensados integralmente pelos vossos atos; quem for afastado do fogo infernal e introduzido no Paraíso, triunfará. Que é a vida terrena, senão um prazer ilusório?” (3ª Surata, versículo 185) 

Dando continuidade aos posts sobre a compreensão da morte em determinadas religiões, abordaremos neste post o Islamismo. Exploraremos como os fiéis dessa religião se relacionam com a realidade da morte e buscaremos compreender o significado de seus rituais.

O Islã surgiu no ano de 610 da Era Cristã, no deserto do Hedjaz, onde hoje está a Arábia Saudita. Naquele ano, o então comerciante Muhammad (saws*) – nome que foi erroneamente traduzido para o português como “Maomé”, o que é considerado uma grosseria pelos mulçumanos, uma vez que eles consideram que nomes próprios não são traduzidos, devem ser empregados como o são no idioma original – recebeu as primeiras revelações de Deus Altíssimo, por intermédio do Arcanjo Gabriel, ocasião em que soube que havia sido escolhido como Mensageiro de Deus. Muhammad (saws), que vivia na cidade de Meca, era um homem digno, um comerciante justo e dotado de grande bom senso e amor ao próximo. Antes mesmo de receber a revelação divina, ele era consultado pelos seus contemporâneos para solucionar litígios, julgar disputas e dar conselhos.

Continuar lendo

Os Cinco maiores arrependimentos dos pacientes em final de vida

“Vida é uma escolha. É a sua vida. Escolha conscientemente, escolha sabiamente, escolha honestamente. Escolha a felicidade”. (Bronnie Ware)

Esta semana eu estava preparando uma aula sobre cuidados paliativos e ao reler alguns textos me deparei com alguns da enfermeira australiana Bronnie Ware. Com certeza um dos mais importantes contributos da autora é o livro “The Top Five Regrets of the Dying” onde ela descreve os cinco maiores arrependimentos relatados pelos seus pacientes em final de vida.  Bronnie Ware passou vários anos trabalhando em cuidados paliativos, cuidando de pacientes nas últimas semanas de suas vidas. Bronnie escreveu em seu blog “as pessoas crescem muito quando elas são confrontadas com a sua própria mortalidade. Eu aprendi a nunca subestimar a capacidade de alguém de enfrentar momentos difíceis. Algumas mudanças aconteceram e foram fenomenais. Cada paciente experimentou uma variedade de emoções, como esperado, negação, medo, raiva, remorso, mais negação e, eventualmente, aceitação. Contudo, cada paciente encontrou a sua paz, antes de partir”.

Continuar lendo