O Luto Complicado

“São só dois lados da mesma viagem. O trem que chega é o mesmo trem da partida” (Milton Nascimento)

Existem situações em que o processo de luto, principalmente por morte de um ente querido, não segue a evolução normal, ou seja, o indivíduo não consegue se reestruturar, podendo ocorrer fixação numa das etapas e, consequentemente, a não elaboração do luto. Num processo de luto complicado há uma dificuldade extrema em aceitar a perda. Nestas circunstâncias, o luto permanece não resolvido ao longo do tempo, durante vários anos, e, por vezes, para o resto da vida, interferindo no estado emocional da pessoa e impactando significativamente a sua vida. Este se caracteriza por uma melancolia duradoura, acompanhada em geral de profunda tristeza, problemas de saúde, distúrbios psíquicos e diminuição dos contatos sociais.

Segundo Horowitz, o luto complicado é a intensificação do luto até o ponto em que a pessoa se sente sobrecarregada, recorre a um comportamento mal adaptado ou permanece interminavelmente num estado de luto, sem progressão do processo em direção a seu término.

Podemos pensar que a diferença entre as reações emocionais e comportamentais de um processo de luto normal e as de luto complicado não se diferenciam pelo modo como aparecem e sim pela sua duração e intensidade.

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O diagnóstico de luto complicado não é tarefa fácil, mas alguns fatores podem nos auxiliar a identificar que a pessoa está vivenciando este processo. Por exemplo: foco extremo na perda e lembranças da pessoa morta; intenso desejo ou anseio de encontrar a pessoa; dificuldade para aceitar a morte; dificuldade para realizar coisas do cotidiano; estado de humor permanentemente alterado; comportamento antissocial; ideação suicida e comportamentos autodestrutivos; sentimento que a vida não tem qualquer significado ou propósito. Esta sintomatologia também pode ocorrer num processo de luto normal, no entanto, no luto complicado estes sintomas não mostram sinais de evolução e/ou melhora ao longo do tempo.

Alguns fatores podem contribuir para o risco de uma pessoa caminhar para o luto complicado, tais como: uma morte inesperada e/ou violenta; morte por suicídio de um ente amado; falta de suporte social – familiares e amigos; experiências traumáticas na infância; ansiedade de separação na infância; não aceitar a morte como um processo natural; dificuldade de adaptação a mudanças de vida.

O luto complicado pode levar a depressão maior, mas não significa que são a mesma coisa, suas características diagnósticas podem ser diferenciadas por critérios do DSM, ajudando a realização de um diagnóstico correto. (Zisook; Shear, 2009).

Contudo, em recente aula no St Christopher’s Hospice, o Prof. Parkes nos alertou sobre a importância de discutirmos esta diferenciação para que não haja erro de diagnóstico. Segundo ele, Complicated bereavement is complicated (Luto complicado é complicado).

Não temos como prevenir o luto complicado, mas as pessoas que apresentam maior risco de desenvolvê-lo devem ser orientadas a buscar ajuda terapêutica, para dissolver as crenças negativas sobre a perda, falar sobre a dor e a angústia que se está vivenciando e permitir-se chorar.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Psychotherapist Member of British Psychological Society

Referências:

Horowitz MJ. Pathological grief and the activation of latent self images. American Journal of Psychiatry; 1980.
Parkes CM. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. Tradução: Maria Helena Franco Bromberg. São Paulo: Summus; 1998. 291 p.
Parkes CM. Complicates Grief in the DSM5. Aula no St Christopher’s Hospice; 2014.
Zisook S; Shear K. Grief and bereavement: what psychiatrists need to know.World Psychiatry; 2009.

13 comentários sobre “O Luto Complicado

  1. Pingback: Filmes: Recurso pedagógico para refletirmos sobre a temática da morte e do luto | PERDAS E LUTO

  2. Adorei o seu texto e certamente é uma boa colaboração para a minha monografia. Estou concluindo a graduação em Psicologia e o interesse pelo luto dos sobreviventes( parentes, amigos…)do suicídio é o meu tema!

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    • Olá Rosileuza! Obrigada por acompanhar meu blog. Eu fiz uma entrevista com a professora Karina Fukumitsu, uma das maiores autoridades em suicídio no Brasil, vou deixar o link caso você ainda não tenha lido. Fico a sua disposição caso precise de alguma indicação de leitura. Abs, Nazaré Jacobucci

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      • Professora, boa noite! Por favor, envie o link da sua entrevista com a Karina Fukumitsu pois ainda estou concluindo a minha pesquisa. Obrigada!

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  3. Olá, Nazaré
    Muito bom o seu texto, ainda mais para mim que estou na fase de construção do TCC (Luto na adolescência). Está sendo um pouco difícil encontrar textos que respondam a minha pergunta (Quais os aspectos psicológicos do luto complicado em adolescentes?), se puder me indicar alguma leitura agradeço.
    Abs!

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