Perda Gestacional: um luto não reconhecido; uma dor invisível

“Filho – um amor indizível, um amor infinito, um eterno aprendizado sobre a arte de amar e educar, certeza diante das incertezas, calmaria em pleno caos,  a mais preocupante e doce memória. Mas, às vezes, tão somente saudade…” (Nazaré Jacobucci)

Ao longo da nossa existência seremos confrontados com diversas perdas que podem ter significados e impactos muito distintos na vida de cada indivíduo. Entretanto, infelizmente, há alguns tipos de perdas que não recebem a devida atenção por parte da sociedade.

A perda gestacional e neonatal são fenômenos mais comuns do que se possa imaginar. Estima-se que a prevalência da perda gestacional varia entre 15 a 20% das gestações clinicamente diagnosticadas, atingindo até 30% das gestações com diagnóstico bioquímico. A maior ocorrência se dá antes da 12º semana gestacional. Quando a perda do feto ocorre entre a 1º e 22º semana de gestação é denominada perda precoce. Quando ocorre após este período as perdas são consideras tardias (Camayo; Martins; Cavalli, 2011; Serrano, 2016).  As mortes neonatais correspondem à morte de recém-nascidos que faleceram até  28 dias completos de vida.  Com efeito, no que tange a Declaração de Óbito o Ministério da Saúde determina que o mesmo seja emitido quando a criança nascer viva e morrer logo após o nascimento, independentemente da duração da gestação, do peso do recém-nascido e do tempo que tenha permanecido vivo. E  no óbito fetal, se a gestação teve duração igual ou superior a 20 semanas, ou o feto com peso igual ou superior a 500 gramas, ou estatura igual ou superior a 25 centímetros.

A perda de um bebê durante a gestação ou logo após o seu nascimento geralmente representa um fato marcante na vida de um casal. Este fato pode ser constituído por momentos traumatizantes que serão lembrados e temidos em uma próxima gestação. O processo de luto por perda gestacional comporta várias especificidades, pois a perda não passa apenas pelo bebê, mas também por todas as fantasias e expectativas que se criaram ao longo de vários meses, por vezes, antes mesmo de sua concepção (Santos, 2015).

Os pais enlutados têm de lidar com a perda real e simbólica do filho desejado e amado, e também com a perda da autoestima. Há um sentimento de fracasso com relação à proteção e ao cuidado em relação a este bebê. Outro sentimento muito importante vivenciado numa perda gestacional é o sentimento de culpa. De acordo com Lemos e Cunha (2015), alguns estudos sobre perda gestacional indicam que, sendo a mulher a pessoa que carrega o bebê em seu ventre, ela pode manifestar maior sentimento de culpa em relação à perda, se comparada ao homem. A mulher pode inferir que ela cometeu alguma negligência e que fora ela a culpada pela perda. Inicia-se assim, uma busca incessante pelas causas que podem ter influenciado na perda do bebê. Com relação ao pai, este apresenta, comumente, uma resposta mais controlada à perda devido à necessidade de mostra-se “forte” para fornecer suporte à mulher.

Este é um processo de luto complexo, pois nem sempre o luto pela perda de um feto é devidamente reconhecido e validado pela sociedade. Contudo, é fundamental para a saúde psíquica dessa mãe o reconhecimento dessa perda. A mulher e o homem precisam ser acolhidos em sua dor e necessitam de um espaço para chorar, ficar triste, com raiva e, claro, revoltar-se com esta nova realidade tão dolorosa de ser vivenciada. A psicóloga Alexandra Leonardo faz um alerta: o que faz mais falta é a consciencialização de que estas mulheres estão extremamente frágeis, de que o processo não termina na urgência do hospital, mas que se vai refletir no futuro da mulher, eventualmente no do casal e até com impacto familiar e social. Por isso, o trabalho de luto é fundamental.

Precisamos tomar consciência que é um filho que se perde e não uma gravidez que foi interrompida, e que a perda de um feto não é irrelevante. O texto abaixo escrito pela psicóloga Érica Quintans, que me autorizou a compartilhá-lo na íntegra, nos mostra a importância dos rituais de despedida numa perda gestacional e como estes são indispensáveis para a elaboração de um processo de luto.

“Os rituais de despedida da perda gestacional e neonatal”
Texto escrito por: Érica Quintans

“O ritual é definido como um poderoso ato simbólico que confere significado a certos eventos da vida ou experiências. São veículos poderosos que proveem estrutura e oportunidade para conter e expressar emoções. Permitem que a comunidade testemunhe e interprete um acontecimento. Os rituais são um direito, frequentemente, negado aos enlutados por perda não reconhecida (Doka, 2002 apud Casellato, 2015).

Quando a morte ainda era domada (vista como natural; parte da vida) os rituais eram bem-vindos e faziam parte do processo de elaboração do luto. Hoje em dia nossa sociedade tem uma urgência com relação aos funerais, talvez uma tentativa de evitar o confronto com a dor da perda. Uma sociedade capitalista, sem tempo improdutivo a perder, totalmente amedrontada pela morte, culminando em pouco ou nenhum ritual.

Na perda gestacional e neonatal muitos acreditam que não há motivo para luto, como se isso pudesse ser medido pelo tempo de convivência com o filho, desconsiderando as fantasias e vínculos estabelecidos. Não é de se espantar que não haja espaço para rituais de despedida. Quando o bebê tem um tamanho e peso considerados suficientes para que seja enterrado, geralmente, o pai soluciona as questões burocráticas do serviço, e, por ainda estarem hospitalizadas, as mães não podem participar dos rituais. Isto pode auxiliar numa complicação da elaboração do luto, afinal não houve tempo e momento para se despedir, concretizar a perda, chorar sua dor, ser amparado e poder falar sobre o filho, os sonhos e o desespero em não tê-lo mais por perto. Poder dar um nome a este luto é muito importante na elaboração da perda, colocando o enlutado em um lugar central, de protagonismo e validação (Casellato, 2015).

Mesmo após o enterro diversos rituais podem ser feitos, se assim o pai e mãe se sentirem à vontade. Eles encontrarão uma forma que tenha sentido e significado para eles, pois o processo de luto é muito singular, mas entre as mais comuns formas de ritualizar a perda de um bebê temos: soltar balões; colocar fotos em um porta retrato; plantar uma árvore ou ainda uma fazer uma caixa de lembranças, com roupinha, sapato, fotos, fitas e cartas/bilhetes para o filho que se foi. Mais importante do que O QUE fazer é COMO fazer, sendo fundamental ser algo que tenha sentido para quem passou pela experiência da perda”.

(Publicado em: Site – Do Luto à Luta: Apoio à Perda Gestacional e Neonatal em 27.07.16)

Como pudemos observar, a perda gestacional e neonatal possuem um caráter multifacetado que está muito além do que conseguimos descrever na literatura. Na perda gestacional, torna-se imprescindível que os profissionais de saúde estejam devidamente informados sobre a subjetividade e a complexidade dessa perda, para que possam fornecer assistência adequada desde o momento do diagnóstico até a alta hospitalar. Além disso, é claro que o apoio dos familiares e amigos próximos é de fundamental importância, validando o real significado da perda para esses pais, ou seja, de que eles perderam um filho e não um embrião.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)

Colaboração:
Érica Quintans – Graduada em Psicologia pela PUC/RJ. Psicóloga Clínica atendendo criança, adolescentes e adultos. Em especial questões relacionadas a perda e luto. Mestranda da PUC/RJ onde estuda o luto dos homens na perda gestacional e neonatal. Consultora de Humanização do Instituto Desiderata. Voluntária Do Luto à Luta: apoio a perda gestacional e neonatal.
E-mail: ericatq.psi@gmail.com

Referências:
Camayo, Francisco Javier Alvarez; Martins, Luiz Augusto Beltramin; Cavalli, Ricardo de Carvalho. Perda gestacional retida: tratamento baseado em evidência. FEMINA, v. 39, nº 1, p. 49-56, jan. 2011. Disponível em: http://files.bvs.br/upload/S/0100-7254/2011/v39n1/a2410.pdf
Carvalho, Fernanda Torres; Meyer, Laura. Perda Gestacional Tardia: Aspectos a serem enfrentados por mulheres e conduta profissional frente a essas situações. Boletim de Psicologia, v. LVII, n. 126, p. 33-48, 2007. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/bolpsi/v57n126/v57n126a04.pdf
Casellato, Gabriela. Intervenções Clínicas em Situação de Luto não Reconhecido: Estratégias Específicas. In: CASELLATO, G. (Org.). O resgate da empatia: suporte psicológico ao luto não reconhecido. 1ª. ed. São Paulo: Summus, 2015.
Dos Santos, Daniela Patrícia Beja Duarte. A Elaboração do Luto Materno na Perda Gestacional. Lisboa: Universidade de Lisboa – Faculdade de Psicologia, 2015. 56 f. Dissertação (Mestrado Integrado em Psicologia) – Secção de Psicologia Clínica e da Saúde / Núcleo de Psicologia Clínica Dinâmica, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2015. Disponível em: http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/20463/1/ulfpie047422_tm_tese.pdf
Lemos, Luana Freitas Simões; Cunha, Ana Cristina Barros da. Concepções Sobre Morte e Luto: Experiência Feminina Sobre a Perda Gestacional. Psicol. Ciência e Profissão, Brasília, v. 35, n. 4, p. 1120-1138, dec. 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932015000401120&lng=en&nrm=iso.
Ministério da Saúde. Conselho Federal de Medicina. Centro Brasileiro de Classificação de Doenças. A Declaração de Óbito: documento necessário e importante. Série A. Normas e Manuais Técnicos. Brasília, DF, 2007. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/declaracao_de_obito_final.pdf
Quintans, Érica. Os rituais de despedida da perda gestacional e neonatal. Do Luto à Luta: apoio a perda gestacional e neonatal [site], 2016. Disponível em: https://dolutoalutaapoioaperdagestacional.wordpress.com/2016/07/27/os-rituais-de-despedida-da-perda-gestacional-e-neonatal/
Rodrigues, Ana Sofia. Perda Gestacional. Revista Pais&Filhos, Portugal, jun. 2012. Disponível em: http://www.paisefilhos.pt/index.php/gravidez/gestacao/5068-perda-gestacional
Serrano, Sofia. Quando nem tudo corre bem: a perda gestacional. Portugal, out. 2016. Disponível em: http://cafecanelachocolate.sapo.pt/quando-nem-tudo-corre-bem-a-perda-316534

 

Luto: uma experiência dolorosa; um aprendizado sobre o amor

“A intensidade do luto é determinada pela intensidade do amor” (Colin Parkes)

O luto é um processo normal de elaboração diante de um rompimento de um vínculo afetivo. O luto é um processo essencial para que nós possamos nos reconstruir, nos reorganizar, diante desse rompimento. É um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que lidar. Inclui transformação e ressignificação da relação com o que foi perdido.

O texto abaixo escrito pela escritora Rândyna da Cunha, que me autorizou a compartilhá-lo na íntegra, nos mostra que a experiência de um processo de luto é dolorosa. Contudo, um aprendizado sobre o amor.

“As coisas que eu precisei aprender com o luto”
Texto escrito por: Rândyna da Cunha

No dia em que você nos deixou, como em um cliché de filme, serenava. Porém, naquele dia, eu ainda não entendia que era o dia em que você me deixou. Serenava no tempo e, aos poucos, serenava também no meu coração. As pessoas iam saindo lentamente, em silêncio, enquanto eu me deixava ficar esperando que em uma reviravolta louca você se levantasse dizendo que era uma brincadeira de mau gosto. Sim, é absurdo, mas eu aprendi que no luto o absurdo é o comum de quem ama. Depois que todos se foram, ela veio juntamente com o silêncio e o frio: a dor pungente. Eu demorei a aceitar, mas a dor do luto é física. Ela rasga de dentro para fora, ela fere pelas entranhas, como se ela sempre tivesse estado ali e estivesse apenas esperando o momento certo para sair rasgando tudo, como um alien cuidadosamente alojado.

Nada que eu vivi até o momento daquela dor poderia se comparar àquele sofrimento, nada. Nem sei dizer se aquilo era sofrimento, eu acho até que aquilo ali nem nome tem. É um carrossel louco de sentimentos tão fortes que deixam a alma e o corpo abatidos de cansaço. Quando após três dias sem dormir, o corpo finalmente repousou numa cama, era como se eu tivesse travado uma luta numa arena romana. Dormimos sem querer dormir. Simplesmente, o corpo se desliga, porque sabe que se não fizer isso não suportará. Eu aprendi que o nosso corpo nos comanda no momento do luto.

Vivendo o luto, eu precisei aprender algumas coisas. Não porque eu quisesse, mas porque foi necessário, foi parte do processo natural de adaptação. Do luto mesmo eu não queria a menor aproximação e o mínimo sinal de conhecimento, porém, eu não pude escolher. A dona morte é uma ladra muito furtiva e ela roubou ao ponto de me deixar vazia.

De tudo que restou em mim, a coisa que mais se sobressaiu foi a dor. É verdade, o luto dói de tantas maneiras que eu não poderia jamais imaginar e que talvez eu jamais saiba descrever. O luto doeu psicologicamente, fisicamente e espiritualmente. Eu me sentia vazia e solitária, em todos estes aspectos. Então, eu aprendi que às vezes a gente deseja morrer, tão involuntariamente, que chega a ser inocente. É apenas o desespero para aliviar a dor gritando mais alto dentro de nós. E eu notei que vai ter muita gente solidária ao nosso sofrimento, mas também vai existir uma quantidade surpreendente de pessoas de alma dura, que insistirão em julgar nosso sofrimento e tentar nos roubar o direito de viver o luto. Sim, o luto precisa ser vivido. Afinal, ele é também uma etapa da vida: nascemos, vivemos e morremos. Neste espaço do “vivemos”, enterramos quem amamos. Estar de luto significa que você está vivo.

Chega um tempo em que lutamos insistentemente por melhorar, queremos sair daquele poço fundo e parar de sofrer, algo dentro de nós teima em reagir. E, neste momento, fazemos de tudo, topamos qualquer parada. É a hora que os mais aventureiros fazem besteira, entram em alguma fria. A realidade é que tudo não é mais que uma busca incessante por uma forma de arrancar do peito a dor sufocante da ausência de quem amamos. Na ânsia de esquecer muitos de nós cometem as piores burrices de suas vidas. É preciso ter calma nestes momentos. É preciso ter constância. É imperativo buscar a paz.

Eu aprendi também que nem sempre os médicos estão certos e que para a psiquiatria o luto tem tempo. Como categorizou o psiquiatra: “Luto é por três meses, quando passa disso é depressão. Você está em luto há cinco meses, portanto, está em depressão.”. Saí do consultório com um misto de ressentimento e revolta, amassando uma receita de tarja preta nas mãos. Se enterrei alguém que amei por 15 anos, como eu poderia simplesmente esquecê-lo em três meses? Jamais imaginei que o luto devesse ter data marcada para terminar. Para mim luto é enquanto a pessoa me fizer falta e, neste caso, é para sempre. Se existe um alívio melhor que chorar e deixar as lágrimas apenas escorrerem em silêncio, eu ainda não descobri qual é. Mas tenho certeza que, ao menos para mim, dopar meus sentimentos com medicamentos e fingir não sentir nada jamais solucionará meus problemas. Quando alguém disser: “Não chore! ”. Teime e chore sim. O choro é necessário, a tristeza é saudável.

Aprendi também que as realizações pessoais a serem comemoradas se tornam alegrias com uma pontinha de tristeza e é preciso coragem para enfrentar isso. É preciso coragem para comemorar cada coisa que você desejou festejar ao lado daquela pessoa que não está mais ali, é preciso força para continuar e é preciso audácia para dar valor à sua própria vida e às suas conquistas, quando a pessoa com quem você sonhou em dividir não está mais ali. A vida após um luto consiste em um exercício diário.

Dia após dia, as nossas reações se modificam, nossos sentimentos se acalmam. O desejo de convulsionar em lágrimas dá lugar a uma saudade comprida e cheia de amor, recheada de lembranças que chegam de repente, no meio da tarde e nos arrancam um sorriso meio bobo. A passagem daquela pessoa em nossa vida passa a fazer todo o sentido. É trivial, mas era como tinha de ser. Se não fosse assim, não seria minha história ou a sua ou a dele.

Aos poucos entendemos que a vida não para em prol do nosso sofrimento, o mundo não deixa de girar para sofrermos, tudo permanece como está e segue o fluxo normal. Então, gradativamente conseguimos nos adaptar. Voltamos a viver. Eu aprendi que existe vida após o luto. E uma vida mais consciente de que o tempo é curto, que o verdadeiro amor é raro, que Deus existe, que amar exige compaixão, que as pessoas mais importantes de nossas vidas sempre estiveram ao nosso lado, que o destino nos leva a cumprir nossa jornada e que vale à pena esperar. Mas a maior de todas as coisas que eu aprendi é que se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu aceitaria enfrentar essa dor, apenas pelo prazer de todo o antes que vivi ao lado dele. Se ter a história que eu tive, exigia carregar esta dor, eu a carregaria mil vezes sem a menor dúvida. Com o luto eu aprendi a jamais me arrepender de amar.

(Publicado em: Site – A Soma de todos os Afetos em 07.11.16)

Ao ler este texto escrito por Rândyna, lembrei-me de uma das frases mais clássicas de Colin Parkes (1998) sobre o verdadeiro significado de um processo de luto. “A dor do luto é tanto parte da vida quanto a alegria de viver; é, talvez, o preço que pagamos pelo amor, o preço do compromisso”.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)

*No momento em que eu estava escrevendo este post recebi a notícia da morte de uma tia muito querida – a belíssima tia Bambina – que esteve entre nós por 96 anos.
Obrigada Tia Bambina, saudades!

Colaboração:
Rândyna da Cunha – Graduada em Letras e Direito, trabalha como funcionária pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente.

Referências:
Cunha, Rândyna. As coisas que eu precisei aprender com o luto. A Soma de todos os Afetos [site], 2016. Disponível em: http://www.asomadetodosafetos.com/2016/11/as-coisas-que-eu-precisei-aprender-com-o-luto.html
Parkes, Colin Murray. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. Trad.: Maria Helena Franco Bromberg. São Paulo: Summus; 1998. 291 p.

Luto: uma dor em constante ressignificação

“O médico perguntou:
— O que sentes?
E eu respondi:
— Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias” (Denison Mendes – Bonsais Atômicos)

Para mim, ser psicólogo é uma arte. Sim, a arte de escutar e ressignificar!
Simbolicamente é a arte de escutar a alma do outro, mesmo que este outro esteja com a vida literalmente de cabeça para baixo. Cabe a nós escutá-lo e compreendê-lo. Nós que trabalhamos com pessoas que estão vivenciando perdas e/ou luto precisamos estar disponíveis para “escutar” a tristeza, as angústias, o choro, a dor que dói na alma.

O texto abaixo escrito pela psicóloga Erika Pallottino, especialista em luto e que possui um Instituto especializado no tema na cidade do Rio de Janeiro – o Instituto Entrelaços – descreve com sensibilidade, a partir do seu olhar clínico, as dores vivenciadas pelos enlutados.

“Eu não sei exatamente quando a dor chega quando perdemos alguém. De repente é assim, dói. Dói forte. Dói a cada lembrança e a cada certeza de que não nos veremos mais. Dói e existe lamento a cada imagem que retorna dos bons dias vividos, das alegrias divididas, dos sufocos que não serão esquecidos.

Escutamos quase diariamente em nossa clínica o retorno a esses encontros saudosos. Junto deles, o lamento, o pesar, o pranto e a certeza de que o luto é a prova de que houve muito amor envolvido.

Acompanhar a experiência do luto das pessoas que nos procuram é sermos testemunhas de histórias bonitas e de inesquecíveis encontros.
A mãe que nos conta da chegada à despedida do filho amado. O marido que nos relata sobre o brilho no olhar ao iniciar o namoro com o amor da sua vida, sobre o cuidado aos últimos dias da esposa que lhe trouxe sentido. A irmã que sorri ao contar as travessuras que fez ao lado do irmão, o momento que passou a caminhar sozinha e sem rumo, por não tê-lo mais por perto. O pai que se despede e se reencontra com o seu lindo bebê, na mesma hora do “oi” e do “adeus”.

Parece que dor faz a gente secar. Sim, pessoas no auge da dor parecem secas e sem estofo interno. Minguam. Sofrem e se consomem pela despedida que parece sempre abrupta, mesmo quando esperada. A dor aguda arranca tudo.
Esquecemos, porque a dor encobre a lembrança, que a intensidade e a magnitude daquilo que hoje é dolorido foi fruto da poesia, do aconchego, do que se viveu profundamente e com sentido.

As histórias que preenchem os nossos consultórios são de dor, mas, sobretudo, de amor. Que o amor seja sempre lembrado e relembrado por todos nós. Pacientes e terapeutas”.

(Publicado em: Facebook de Erika Pallottino)

Ao ler este texto escrito por Erika, lembrei-me de uma frase de Colin Parkes (1998) sobre o determinante de um processo de luto: “A intensidade do luto é determinada pela intensidade do amor”.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)

Colaboração:
Erika Pallottino – Idealizadora, coordenadora, professora e supervisora do Instituto Entrelaços – http://www.institutoentrelacos.com/

Referências:
Parkes, Colin Murray. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. Trad.: Maria Helena Franco Bromberg. São Paulo: Summus; 1998. 291 p.

 

Luto e Perdas num Processo de Imigração: um constante ressignificar

”Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião
Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão” (Belchior)

No mundo de hoje, onde há globalização e estreitamento de fronteiras, o processo de imigração e migração vem se intensificando gradativamente. A migração não é sinônimo de luto. Muitas pessoas decidem migrar para ampliar seus horizontes e, muitas vezes, para mergulhar num profundo processo de autoconhecimento e reorganizar suas vidas estagnadas. Contudo, tanto os refugiados quanto os indivíduos que escolheram imigrar experienciarão, em graus diferentes, os sentimentos vivenciados num processo de luto. Pois, haverá várias rupturas e perdas ao longo do processo migratório

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Luto não elaborado: as repercussões psicoemocionais na vida adulta

“O entardecer traz consigo a noite, a escuridão, as sombras, o desconhecido, que também dão sentido à vida, fazendo parte dela. No dia seguinte, no horizonte da vida, surgirá mais um dia de viver, mesmo que não estejamos presentes. Será sempre outro dia de viver e talvez seja o último e derradeiro. No amanhecer, encontra-se outro entardecer. O entardecer é a metáfora da morte. Dia e noite são partes do mesmo e único fenômeno, vida e morte”. (Maria Emília Bottini)

A morte de um dos pais é um dos eventos mais difíceis que uma criança pode enfrentar. Ela expõe prematuramente à criança a imprevisibilidade da vida e a natureza tênue da existência cotidiana. Estudos com adultos que apresentavam alguns distúrbios psíquicos e/ou mentais, especialmente depressão, revelam frequentemente lutos mal elaborados vivenciados na infância, sugerindo que tal perda pode contribuir para o agravamento de transtornos psiquiátricos e que esta experiência pode tornar uma pessoa emocionalmente vulnerável para a vida.

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Luto na Infância: A Criança Enlutada

“A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais…”  (Memórias de Emí­lia – Monteiro Lobato) 

A morte é inerente à nossa existência, então, precisamos falar sobre a morte com as crianças, pois em algum momento elas irão perder um ente querido ou um animal de estimação. Há também as crianças que vivem em zonas de extrema violência e que se deparam com a morte cotidianamente. Portanto, temos que prepará-las para lidar com esta situação. Quando uma morte ocorrer, pode ser a oportunidade para que nós conversemos com ela sobre o tema. Esta conversa é importante e saudável para ajudá-la a lidar com o sofrimento. Como os adultos, as crianças precisam vivenciar o processo de luto para elaborar a perda que ocorreu e continuar com sua vida sem medo. Resguardar as crianças da morte ou do conceito de morte presumindo que são muito pequenas para entender o que significa o que é morrer não é o ideal.

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Sim, a vida segue: revisitando minhas memórias

“A árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior que a soma de seus momentos”. (Zygmunt Bauman)

No último dia 22.12.16 eu republiquei um texto que havia escrito em 2015 para ajudar as pessoas em processo de luto a passarem pelas festividades do final de ano com mais leveza. O texto foi compartilhado e lido por milhares de pessoas e, por conta disso, eu recebi dezenas de e-mails e mensagens de pessoas que gentilmente dividiram comigo suas histórias e, consequentemente, suas dores e fragilidades. Histórias estas que muito me comoveram, como a de uma mãe que há 1 mês perdera sua filha aos 20 anos.

Conforme eu ia lendo as mensagens e respondendo com orientações e dicas de leitura, para auxiliar na compreensão desse momento de extrema fragilidade, eu voltei no tempo e comecei a revisitar as minhas próprias memórias. Olhar e cuidar da dor do outro me permitiu refletir sobre a vida e sua continuidade, apesar das perdas e dos lutos vivenciados ao longo de minha existência.

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O luto de um amor perdido

“Os sentidos, do mesmo modo como são únicos, são também mutáveis. Mas não faltam nunca. A vida não deixa jamais de ter sentido” (Frankl, 1989)

Faz um ano que nossa querida Adriana Thomaz foi morar em outra dimensão e, para homenageá-la, vou publicar com a devida autorização de sua filha Bruna Thomaz, este texto escrito por Adriana em 01.06.2012 em seu blog.

O Luto de um amor perdido” Texto escrito por: Dra. Adriana Thomaz

Toda perda pressupõe um luto e aqui não seria diferente. Por separação, nem sempre um luto reconhecido, ou por morte, chamada viuvez cujo o luto é validado, reconhecido, as duas podem doer por muito tempo. A diferença do processo não é óbvia, contanto, uma vez que o luto depende do vínculo estabelecido e não é porque foi por morte que tal vínculo foi maior. O que quero dizer nesta consideração inicial é que o luto pela morte não é sempre maior ou mais difícil que o luto pela separação de um amor. Aqui, na separação, a perda é carregada de sentimento de frustração de um projeto, a perda de um sonho, a perda do papel realizado anteriormente, do status quo, para não dizer da família, da convivência com os filhos, dos amigos, do padrão de vida. E dá saudade. Saudade de muitas coisas, até da aliança, muitas vezes objeto permanente nos dedos daquele que perdeu seu amor, vivo ou morto, como vi explícito no cantor Seal, em entrevista a um talk show americano no início deste ano. Ele gagueja, se emociona, faz pausas e finalmente responde à pergunta que não queria calar a boca da entrevistadora: E esta aliança no seu dedo, o que significa? Com muita clareza e não menos emoção, Seal diz que significa o que ele sente… o processo do luto é lento e precisa ser respeitado. “Eu me sinto bem assim. Não sei por quanto tempo vou usá-la, mas ainda me sinto bem com essa aliança no meu dedo”.

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United Kingdom: O luto coletivo de uma ilha

“Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. (Fernando Pessoa)

Na última sexta-feira, 24 de junho, acordamos com uma notícia um tanto quanto incômoda e, para milhares de pessoas, angustiante. Por meio de um referendo, uma consulta pública à população, descobrimos que o Reino Unido (UK) – mais especificamente, a Inglaterra e o País de Gales – não mais gostaria de continuar fazendo parte da União Europeia (UE). O dia foi definitivamente marcado pela tristeza após a confirmação final: os “out” venceram 51,9% a 48,1% os “in”. Este resultado também nos revela uma grande divisão no país.

Num encontro de psicólogos brasileiros em Londres no domingo um colega disse que a sensação ao se andar pelas ruas da cidade era de que “alguém havia morrido”. De fato, uma parte da população está vivenciando um processo de luto. Como eu já havia escrito anteriormente, o luto é um processo que se inicia após o rompimento de um vínculo e estende-se até o período de sua elaboração – quando o indivíduo enlutado volta-se novamente, ao mundo externo. O luto é um processo essencial para que nós possamos nos reconstruir, nos reorganizar, diante do rompimento de um vínculo. É um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que lidar.  Inclui transformação e ressignificação da relação com o que foi perdido.

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