Filmes: Possibilidades de Reflexão sobre a Morte e o Luto

Antonius – Nenhum homem pode viver com a morte e saber que tudo é nada
Morte – A maioria das pessoas não pensam nem na morte ou no nada”.
(Filme O Sétimo Selo – Ingmar Bergman)

Eu sou uma cinéfila confessa. Considero a sétima arte absolutamente sublime. Como professora, considero filmes uma ótima ferramenta de auxílio para a compreensão de diversos conceitos. Os filmes não só nos divertem, mas são capazes de nos fazer refletir, favorecendo assim novas formas de lidar com questões e conflitos do nosso cotidiano. Compartilho, então, algumas sugestões de filmes que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.

Morte: Morrer é tão somente terminar de viver.

Minha primeira indicação não é um filme, mas sim um seriado. Six Feet Under (2001) talvez seja uma das melhores séries que eu tenha assistido. O último episódio é absolutamente genial!

Seriado: “A Sete Palmos” (Six Feet Under – Alan Ball)

A série nos revela a vida cotidiana da família Fisher, proprietária de uma funerária. A Sete Palmos mostra um drama convencional de família, lidando com assuntos como infidelidade, homossexualidade e religião. Ao mesmo tempo, distingue-se por abordar o tópico da morte de forma diferente, explorando os seus múltiplos níveis: pessoal, religioso e filosófico. Cada episódio começa com uma morte e, por consequência, um cliente da funerária. Esta morte, geralmente, dá o tom de cada episódio, permitindo aos personagens refletirem sobre as suas vidas e dilemas, baseando-se na morte do cliente e suas implicações.

Filme: “O Sétimo Selo” (The Seventh Seal – Ingmar Bergman)

Este filme é um clássico. O Sétimo Selo ambienta-se em um dos mais obscuros e apocalípticos períodos da Idade Média europeia. Antonius Block é um cavaleiro que retorna das Cruzadas, após 10 anos, para uma Suécia devastada pela peste negra e pela Inquisição promovida pela igreja católica. Sua fé em Deus é sensivelmente abalada e enquanto reflete sobre o significado da vida, a Morte surge à sua frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora. Contudo, para ganhar tempo, ele rejeita o fim da sua existência. Ele, então, desafia a morte para uma partida de xadrez, com o objetivo de driblá-la. Tudo depende da sua vitória no jogo e a Morte concorda com o desafio, já que não perde nunca.

Luto: Um processo que se inicia após o rompimento de um vínculo significativo e estende-se até o período de sua elaboração – quando o indivíduo enlutado se volta, novamente, ao mundo externo. O luto é um processo essencial para que nós possamos nos reconstruir, nos reorganizar, diante desse rompimento. É um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que lidar.

Filme: “Para Sempre” (Another Forever – Juan Zapata)

Como especialista em luto ouso dizer que este filme é o que melhor retrata um processo de luto. Para Sempre é denso, impactante, sensível e delicado. A fotografia é de uma beleza absurda. O filme nos mostra que um processo de luto pode ser um momento de profunda introspecção, mas o enlutado não precisa vivenciar este momento como se estivesse numa “caverna”. Durante o processo essa introspecção pode ser vivenciada em lugares belos e iluminados.

A vida de Alice é devastada quando o grande amor de sua vida morre. Amor este que fez tudo valer a pena. Após a perda, Alice embarca em uma jornada introspectiva indo das profundezas do desespero até a contemplação de pequenos prazeres, redescobrindo novas possibilidades para a vida. O cineasta Zapata percorre os caminhos da alma para falar sobre os conflitos e da dor que um processo de luto pode nos permitir. Ao longo do filme somos convidados a percorrer junto com Alice esse caminho de dores e redescobertas. Por meio do olhar investigativo de Zapata sobre a alma humana, suas raízes e a dor da perda, vamos sendo envolvidos nesse pequeno conto de um cotidiano permeado de angústias e solidão. A protagonista se desconstrói e novamente se constrói tendo nossos olhos atentos como espectador. A sensibilidade com que o tema é abordado está na categoria do indizível.

Luto Complicado: Existem situações em que o processo de luto, principalmente por morte de um ente querido, não segue a evolução normal, ou seja, o indivíduo não consegue se reestruturar, podendo ocorrer fixação numa das etapas e, consequentemente, a não elaboração do luto. Num processo de luto complicado há uma dificuldade extrema em compreender a perda.

Filme: “Manchester à Beira-Mar” (Manchester by the Sea – Kenneth Lonergan)

Um filme interessantíssimo que nos revela as complexidades de um luto que deixou marcas profundas em Lee Chandler, o personagem central do filme. Aos poucos o espectador vai sendo convidado a adentrar pela vida de Lee que tem como base um ambiente angustiante e de uma tristeza profunda e desconcertante.
Lee é um zelador de condomínios residenciais em Boston. Infiltrações, aparelhos quebrados, vasos sanitários entupidos são problemas rotineiros em sua profissão. Ele mora em um porão e aparentemente leva uma vida desprezível. Ele não possui amigos, não gosta de seu trabalho e parece não nutrir nenhum sentimento positivo com relação às pessoas que o cercam. Temos a sensação de que Lee está sempre a olhar para o vazio e que neste vazio reside uma dor de dimensões inimagináveis. Contudo, ocorre um fato que obrigará Lee a sair de seu fosso existencial. Ele recebe a notícia de que seu irmão, Kyle, que residia em sua cidade natal Manchester, morrera vítima de uma insuficiência cardíaca crônica. Lee precisará retornar à Manchester não apenas para cuidar de todos os trâmites legais referentes ao funeral do irmão como também, cuidar de seu sobrinho Patrick. No entanto, este retorno vai se revelando embaraçoso e por meio das memórias de Lee, que são contadas em flashbacks, começamos a compreender o porquê das dores de Lee.

Luto Antecipatório: Este pode ser entendido como um processo de luto que ocorre antes da perda real. Este processo é vivenciado pelo paciente e pela família, na fase compreendida entre o diagnóstico e a morte propriamente dita.

Filme: “Pronta para Amar” (A Little Bit of Heaven – Nicole Kassel)

Este filme conta a história de Marley Corbett, uma especialista em publicidade que mora em Nova Orleans num apartamento legal. Marley é uma jovem alegre, independente, bem-sucedida e solteira por opção. Ela possui um cachorro chamado Stanley; e muitos amigos interessantes. Ela conduz sua vida com muita leveza e bom humor, mas é surpreendida ao receber a notícia que está com uma doença grave. Marley sempre teve medo de se entregar completamente em um relacionamento amoroso. No entanto, em meio à evolução de seu quadro clínico ela descobre que é possível viver um grande amor. Essa descoberta a permite vivenciar o seu morrer de forma reveladora. Conviver com uma doença que ameaça a vida não é tarefa fácil. Contudo, quando temos consciência da morte, experienciamos a plenitude do que é viver. Marley escolheu viver até o dia de sua morte.
Gostei do senso de humor impresso no filme e adorei o funeral de Marley, aliás, acho que quero que o meu seja igual.

Luto na Terceira Idade: As perdas no último estágio da existência humana.

Filme: “Último Amor de Mr. Morgan” (Mr. Morgan’s Last Love – Sandra Nettelbeck)

Este filme nos fala de despedidas, encontros e descobertas. Mr. Morgan é um professor aposentado que mora em Paris. No entanto, por mais que more na cidade há bastante tempo, ele não fala francês. Isso se deve ao fato que, Joan sua esposa, sempre fora sua intérprete pelas ruas da capital francesa. Entretanto, Joan morreu há três anos e, desde então, Mr. Morgan vive triste e solitário, ocupando seu tempo ocasionalmente com aulas de inglês. Ele está mergulhado em uma dor tão profunda que não consegue nem mesmo perceber os dias ensolarados. Um dia, uma jovem garota chamada Pauline lhe oferece uma ajuda no ônibus, ela é uma simpática professora de dança e esse encontro muda sua depressiva rotina. Eles se tornam amigos e o teimoso Mr. Morgan vota a sorrir. Desarmado pela vitalidade e o otimismo de Pauline, o professor começa a ver a vida com outros olhos e a aprender lições improváveis, apesar de não compreender a morte da esposa e conviver espiritualmente com ela. Em suas aventuras diárias por Paris, almoços no parque e viagens, Mr. Morgan e Pauline exploram os tesouros de uma amizade verdadeira e o conforto da companhia um do outro.
O filme é um raro exemplar que traz um idoso octogenário como protagonista e, mais do que isso, abordando as angústias que uma perda nessa fase da vida pode ocasionar.

Luto pela morte de um filho: A morte de um filho, para muitos, é algo avassalador. É indizível e imensurável. Mas, após a elaboração do luto, e as memórias gravadas na alma, é possível reencontrar o equilíbrio emocional e reorganizar a vida. Dando assim, um outro sentido ao viver.

Filme: “Cake: Uma Razão para Viver” (Cake – Daniel Barnz)

Este filme tem por temática a dolorosa experiência da perda de um filho. Cake, conta a história de Claire, uma mulher depressiva e traumatizada que sofre de dores crônicas devido a um acidente. Ela é completamente cética em relação à vida, uma pessoa amarga, intransigente, incapaz de perceber a continuação da vida à sua volta. Devido às dores ela torna-se viciada em comprimidos analgésicos. Ela frequenta um grupo de apoio a pessoas com dores crônicas e, infelizmente, um dos membros do grupo, Nina, cometeu suicídio, deixando para trás um marido e filho pequeno. Claire sente-se atordoada por Nina ter cometido esse ato e por ter deixado a família. Ela fica obcecada pela história desta mulher. Buscando descobrir um pouco mais sobre a vida da colega de grupo, e como se encontra a família da mesma após a perda, Claire, inconscientemente, inicia o enfrentamento do próprio luto. Aos poucos, começa uma relação inesperada com o ex-marido de Nina e eles passam a ter uma espécie de vinculação por causa dos sentimentos em comum que sentem. No entanto, Claire passa a ter alucinações com Nina e estas a fazem pensar sobre uma nova maneira de enxergar a vida.
Cake é um filme dramático e delicado que nos mostra como um luto não elaborado pode nos cristalizar e, se o indivíduo não olhar para essa dor, o processo torna-se complicado. A cena final é brilhante, pois nos mostra como um pequeno e simples gesto pode sinalizar grandes mudanças em direção a uma nova vida. Claire ergue seu olhar para novas paisagens e possibilidades.

Luto Infantil: A morte é inerente à nossa existência, então, precisamos falar sobre a morte com as crianças, pois em algum momento elas irão perder um ente querido ou um animal de estimação. Há também as crianças que vivem em zonas de extrema violência e que se deparam com a morte cotidianamente. Portanto, temos que prepará-las para lidar com esta situação.

Filme: “O Rei Leão” (The Lion King – Roger Allers e Rob Minkoff)

O filme narra a história do jovem leão Simba, que se sente culpado pelo assassinato do seu pai, o rei Mufasa, e foge do seu Reino, sem saber que a morte foi orquestrada pelo seu tio Scar para tomar o poder. Este filme é um clássico e apresenta para as crianças vários sentimentos que as acompanharão pela vida: tristeza, decepção, medo, raiva, compaixão e tantos outros. No final Simba e Nala apresentam o filhote recém-nascido para os habitantes das Terras do Reino e as crianças tem a oportunidade de aprender que o ciclo da vida é composto por finais e recomeços. Este filme é um espetáculo, inesquecível!

Luto e Sexualidade: Terei a ousadia de colocar essa categoria em minha lista. Tenho lido muito sobre todos os processos que os transgêneros precisam passar para realizar a sua mudança de sexo, mas não li nada fazendo menção ao processo de luto. Quando um indivíduo toma a decisão de realizar a cirurgia de redesignação de sexo, vários vínculos serão rompidos, inclusive, com a sua própria identidade. A pessoa embarca em uma jornada íntima de autodescoberta, sobre gênero, sobre quem ela é enquanto indivíduo e seu lugar no mundo.

Filme: “A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl – Tom Hooper)

Este filme nos mostra esta jornada vivida pelo pintor Einer Wegener. Ele é um jovem artista bem-sucedido na Copenhagen de 1926, casado com a também pintora Gerda. Ambos compartilham um casamento harmonioso e divertido. Certo dia, em uma tarde, a mulher que posaria de modelo para Gerda não pode comparecer à sessão, então, ela convence Einer a vestir-se de mulher para pintá-lo. Naquele instante Einer visivelmente experimenta um frisson de auto revelação. O vestido, a meia de seda e a pose feminina feita para Gerda concluir a pintura são o suficiente para fazer vir à tona a dúvida que Einer sempre tivera dentro de si e reprimira: ter ele um gosto feminino. Einer começa lentamente a mudar sua aparência, transformando-se em Lili Elbe. No início Gerda diverte-se com a mudança do marido, o que considera ser apenas uma fantasia cross-dressing. No entanto, Einer deixa de “existir” a cada dia e Gerda vê desaparecer seu casamento. Ela sofre e se confunde, mas lhe oferece apoio incondicional até a transformação por completo de Einer em Lili, que se dá por meio de uma pioneira e arriscada cirurgia de mudança de sexo.
Esta não é apenas uma história de coragem, mas de perdas e dores. Einer, num processo dolorido, perde lentamente sua identidade e Gerda perde a companhia masculina do marido e passa a ter tantas outras perdas secundárias. Contudo, este é um filme que nos mostra que o amor é um sentimento sublime, que é capaz de nos alimentar e nos amparar nos momentos de perdas significativas e irreversíveis. O filme é delicado e possui um brilho estético fascinante.

Suicídio: O suicídio é definido como uma violência auto infligida e um ato decidido, iniciado e levado até o fim por uma pessoa com total conhecimento ou expectativa de um resultado fatal, ou seja, a morte. Segundo o CVV (Centro de Valorização da Vida), a cada 40 segundos, uma pessoa se suicida no mundo. De acordo com a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 800 mil pessoas se suicidam por ano.

Filme: “Elena” (Elena – Petra Costa)

Este filme/documentário é baseado na vida de Elena, uma aspirante a atriz. Ela viaja para Nova York com o mesmo sonho da mãe: ser atriz de cinema. Deixa para trás uma infância vivida na clandestinidade dos anos de ditadura militar e deixa Petra, a irmã de 7 anos. Duas décadas mais tarde, Petra também se torna atriz e cineasta. Ela, então, embarca para Nova York em busca do resgate da memória de Elena. Por meio de filmes caseiros, recortes de jornais, diários, depoimentos e cartas Petra vai reconstruindo a história da irmã. Ela caminha pelas ruas nova-iorquinas como se estivesse em busca de um significado para ausência, ela retrata a saudade. Ela pega o trem que Elena pegava, bate na porta de seus amigos, percorre seus caminhos e, assim vai elaborando a perda da irmã. A mãe a auxilia nesta jornada de ressignificações.
Pelo olhar de Petra os espetadores vão conhecendo Elena, uma jovem que não soube lidar com suas frustrações e foi passo a passo se deixando dominar pela tristeza e angústia existencial. A beleza poética nas imagens e na trilha sonora conferem ao filme uma beleza impressionante. Petra no final nos diz – “pouco a pouco, as dores viram água, viram memória”.

Apenas a título de menção: Outros filmes absolutamente interessantes!

Luto: Caos Calmo (Caos Calmo – Antonello Grimaldi)

 

 

Luto Antecipatório: Um Momento pode Mudar Tudo (You’re Not You – George C. Wolfe)

 

 

Luto na Terceira Idade: Mrs. Henderson Apresenta (Mrs. Henderson Presents – Stephen Frears)

 

 

Luto pela Morte de um Filho: Olhos da Justiça (Secret in Their Eyes – Billy Ray)

 

 

Luto Infanto-juvenil: A Culpa é das Estrelas (The Fault in our Stars – Josh Boone)

 

 

Luto não Reconhecido: Filomena (Philomena – Stephen Frears)

 

 

 

Luto Perda Gestacional: O Segundo Sol ( Fabricio Gimenes e Rafaella Biasi)

 

Luto Perda de Amigo: Já Estou com Saudades (Miss You Already – Catherine Hardwicke)

 

 

Luto e Sexualidade: Amor por Direito (Freeheld – Peter Sollett)

 

 

Suicídio Assistido: Como eu era antes de você (Me Before You – Thea Sharrock)

 

 

Como pudemos observar há vários filmes interessantes que podem nos entreter, mas também, nos faz refletir sobre a morte, o morrer e o luto. Boa reflexão!

Há uma outra lista cuidadosamente preparada por mim que você poderá consultar em https://perdaseluto.com/2016/02/02/filmes-recurso-pedagogico-para-refletirmos-sobre-a-tematica-da-morte-e-do-luto/

Leia o post sobre luto em https://perdaseluto.com/2015/03/27/o-processo-de-luto/

Leia o post sobre luto complicado em https://perdaseluto.com/2015/04/15/o-luto-complicado/

Leia uma análise sobre o luto complicado no contexto do filme Manchester a Beira-Mar em https://perdaseluto.com/2017/10/26/manchester-a-beira-mar-um-mergulho-na-dolorosa-experiencia-humana-do-luto-e-da-culpa/

Leia o post sobre luto antecipatório em https://perdaseluto.com/2016/08/02/luto-antecipatorio-elaborando-e-ressignificando-as-perdas-reais-e-simbolicas-num-processo-de-adoecimento/

Leia o post sobre suicídio em https://perdaseluto.com/2015/09/28/suicidio-quando-a-dor-da-alma-se-torna-intoleravel/

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
https://perdaseluto.com/

Referências:
AdoroCinema [site]. Disponível em: http://www.adorocinema.com/
Aragão, EWS; Gomes, NR. CAKE, UMA RAZÃO PARA VIVER: Uma análise psicodramática do luto.  Arte & Psicologia [site]. Set. 2015. Disponível em:
https://artepsihefzibabrunet.blogspot.co.uk/2015/09/cake-uma-razao-para-viver-uma-analise.html
CinePopo [site]. Disponível em: http://cinepop.com.br/
Delcolli, C. A Garota Dinamarquesa: Filme não está à altura da história vivida pela mulher trans pioneira. HUFFPOST [site]. Fev. 2016. Disponível em: https://www.huffpostbrasil.com/caio-delcolli/a-garota-dinamarquesa-filme-nao-esta-a-altura-da-historia-viv_a_21682442/
Elena [site] Disponível em: http://www.elenafilme.com/o-filme/
O Segundo Sol [site]. Disponível em: http://www.osegundosol.com/documentario/
Papo de Cinema [site]. Disponível em: https://www.papodecinema.com.br/

 

Luto: Teoria da Transição Psicossocial

“Não há nenhum livro de regras. Não há nenhuma escala de tempo. O luto é tão individual como uma impressão digital. Faça o que é melhor para a sua alma” (W Larcombe & Son)

Eu tenho a honra de ser tutora do módulo sobre Luto do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Cuidados Paliativos da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais coordenado pelas Profas. Gláucia Tavares e Marília Aguiar. Tem sido uma experiência muito valiosa e enriquecedora. Na unidade 2 foi solicitado aos alunos que discorressem sobre uma das teorias que permeiam um processo de luto: a Teoria da Transição Psicossocial. Essa teoria foi proposta por Colin Murray Parkes, psiquiatra britânico, que compreende luto como uma importante transição psicossocial decorrente das transformações no mundo interno que necessariamente ocorrem a partir da vivência de um processo de luto. A partir dessa transformação o enlutado passa a assumir novos papéis e uma nova visão de si e do mundo externo, buscando novas soluções para os problemas da vida cotidiana.

As alunas Andrea Coelho, Camila Bethânia, Joana Cés, Kátia Poles, Liliana Lapequino e Maria Letícia produziram um texto muito interessante abarcando a temática dessa teoria. Abaixo compartilharei, com a devida autorização das autoras, o escrito delas para compreendermos um pouco mais sobre esse complexo processo, o luto.

“Teoria da Transição Psicossocial”
Texto escrito por: Alunas turma 3 – FCMMG

“Diante do diagnóstico de uma doença grave, tanto paciente quanto familiares se deparam com a ameaça de continuidade da vida, trazendo impactos de diversos aspectos a cada um dos personagens envolvidos. As alterações podem ser percebidas no âmbito físico, social, amoroso, financeiro, profissional, espiritual e emocional, vivido por cada sujeito de forma única. No adoecimento o indivíduo necessitará se reorganizar e a ressignificação e compreensão destas mudanças se darão por meio de um processo de luto antecipatório, que pode iniciar no diagnóstico e/ou durante o curso da doença (Serem; Tilio, 2014).

Sabemos que o luto pode se dar de inúmeras formas e é um processo que se constitui por meio da perda de algo ou alguém significativo. O processo de luto pela morte de alguém significativo é uma experiência humana universal, única e dolorosa. A experiência emocional de enfrentamento da perda é denominada pela elaboração do luto, conduzindo a uma necessidade de adaptação à nova situação (Barreto; Soler&Yi, 2008).

De acordo com Worden (1998), o luto pode ser definido como um “tempo necessário para que o enlutado retorne a um estado similar de equilíbrio”. Neste sentido, o luto deve ser compreendido como um processo e não um estado. Não é um conjunto de sintomas que tem início depois de uma perda e gradualmente se desvanece. O luto é um processo extremamente individual, que depende do repertório de cada um para lidar com perdas. Por outro lado, as pessoas enlutadas têm muito em comum, o que nos leva a ver o luto como um todo e a mapear o curso de acontecimentos que caracteristicamente o acompanha.

Bromberg (2000), aponta o luto como um conjunto de reações a uma perda significativa e pontua que nenhum é igual ao outro, pois não existem relações significativas idênticas. Worden (1998), lista categorias no processo de luto normal, dividindo-as em:
• Sentimentos: tristeza, raiva, culpa, ansiedade, solidão, fadiga, desamparo, choque, anseio, emancipação, alívio e estarrecimento;
• Sensações físicas: vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, hipersensibilidade ao barulho, sensação de despersonalização, falta de ar (respiração curta), fraqueza muscular, falta de energia e boca seca;
• Cognições: descrença, confusão, preocupação, sensação de presença e alucinações;
• Comportamentos: distúrbios de sono, distúrbios do apetite, comportamento aéreo, isolamento social, sonhos com a pessoa que morreu, evitar lembranças do falecido, procurar e chamar pela pessoa, suspiros, hiperatividade, choro, visitar lugares e carregar objetos que lembrem o falecido.

Existem algumas variáveis que podem agir como facilitadores ou afetar adversamente no processo de luto. Franco (2008), descreve fatores que podem interferir significativamente no processo de morte e luto:
• Natureza e significados relacionados com a perda;
• Qualidade da relação que se finda;
• Papel que a pessoa à morte ocupa no sistema familiar/social;
• Recursos de enfrentamento do enlutado;
• Experiências prévias com morte e perda;
• Fundamentos culturais e religiosos do enlutado;
• Idade do enlutado e da pessoa à morte;
• Questões não resolvidas entre a pessoa à morte e o enlutado;
• Percepção individual sobre o quanto foi realizado em vida;
• Perdas secundárias, circunstâncias da terminalidade.

O processo de aperceber-se, isto é, a maneira pela qual o enlutado se move da negação e evitação do reconhecimento da perda para a compreensão de um novo modelo de mundo, pode ser prejudicado pelo desamparo e desesperança, que caracterizam a depressão.

Parkes (1996), descreve que a sensação de deslocamento entre o mundo que é, e o mundo que deveria ser, frequentemente se expressa como uma sensação de mutilação ou vazio, e reflete a necessidade de o indivíduo reaprender seu modelo interno de mundo. O mundo que era conhecido e previsível, preservando uma sensação de segurança foi chamado por Parkes (2009), de mundo presumido e, diante da ameaça ou da perda, torna-se desconhecido e ameaçador. Segundo o mesmo autor, quando o mundo presumido é prejudicado pelo rompimento de um vínculo significativo, ocorrem mudanças em diversos aspectos da vida, fazendo com que o indivíduo enlutado tenha que se adaptar a uma nova forma de se encontrar no mundo, sem ser da forma como imagina e deseja. O mundo presumido é um constructo interno, tornando a experiência da perda muito singular a cada sujeito, implicando na revisão de conceitos, na ressignificação da própria vida e da relação com a pessoa perdida, o que ocorrerá durante um período duradouro e indeterminado. Parkes (2009), considera que algumas coisas fazem parte do nosso mundo presumido, a saber:

Ele entende que nosso mundo presumido é constituído por nossas concepções sobre o mundo, sobre nós mesmos e nossas figuras de cuidado; incluindo a maneira como lidamos com as percepções de perigo e proteção, atribuindo significados a partir da forma como vivenciamos estas relações. Compondo uma parte valiosa do nosso equipamento mental que, quando abalado, nos desestrutura; mas é potencialmente dinâmico e passível de modificações a partir de novas experiências.

Ainda citando Parkes (1996), um processo de luto será permeado por várias mudanças de hábitos e pensamentos que foram construídos ao longo de muitos anos e que a partir de uma perda precisará serem revistos e/ou modificados, a visão do mundo da pessoa mudará. Essas mudanças inevitavelmente consumirão tempo e esforço. Parkes propôs que esse conjunto de mudanças fosse denominado de Teoria da Transição Psicossocial.

Segundo esta teoria, quando nos deparamos com situações significativas, duradoura ou permanente, súbita ou sem preparação prévia e que geram revisão dos nossos conceitos do mundo entramos no período de transição psicossocial. O indivíduo enlutado vivencia esta transição e, frequentemente, preserva-se socialmente a um pequeno grupo de convívio, preferindo manter-se em ambiente seguro e conhecido. Além disso, pode tornar-se ativista, ocupando o tempo para evitar lidar com o fato ocorrido, ou mesmo negando este fato, mas também pode evitar a consciência de que o mundo presumido interior difere do externo, evitando o pensamento acerca do ocorrido.

Alguns aspectos podem ser percebidos, como o isolamento e a introspecção, fazendo com que as pessoas se fechem em seu mundo, rodeadas daqueles que passam segurança. Outras pessoas podem negar a realidade e evitar situações que confrontem o mundo externo e interno. Desenvolvemos mecanismos de defesa naturais que diminuem a ansiedade, e isto é positivo, mas não deve ser excessivo para não adiar o processo de organização e aprendizagem.

A Transição Psicossocial não se restringe somente ao luto, e ocorre sempre que precisamos fazer mudanças importantes em nossas concepções sobre o mundo. A pessoa que teve uma perna amputada tem de aprender a parar de usar a perna que não está mais lá para poder usar a prótese que será colocada; a pessoa que ficou cega precisa aprender novas formas de perceber o mundo; a pessoa com câncer precisa parar de contar com algumas garantias que sempre teve. Cada uma dessas situações faz com que a pessoa desista de antigos hábitos e desenvolva novos, em seu lugar.

O luto também terá suas peculiaridades marcadas pelo vínculo afetivo entre o enlutado e a pessoa perdida, sendo uma resposta natural diante da perda de uma pessoa amada, ou seja, uma reação esperada após o rompimento de um vínculo com alguém ou algo significativo. O processo de luto é dinâmico, mas não acontece sem dor. É uma resposta esperada ao amor e ao pesar (Parkes, 1998).

Ao pensarmos sobre a influência dos vínculos entre enlutados e a pessoa perdida, nos permitimos refletir sobre como os padrões de apego influenciam o processo de luto.
Bowlby foi pioneiro no estudo do apego, primeiro na observação de animais e mais tarde em experimentos com crianças na clínica de psicanálise em Londres. Ele evidenciou que a ligação mãe-bebê é crucial para o desenvolvimento saudável da criança (Papalia, 2006). A Teoria do Apego traz como foco a necessidade da espécie humana de vincular-se a outro mais forte e mais sábio, além de criar estratégias de busca por sua figura de apego. Diante da perda, apresentará comportamentos de busca por aquele que foi perdido devido ao vínculo previamente existente que lhe proporcionava sensação de segurança.

Vários pesquisadores concordam que os tipos de apego estabelecidos por meio das primeiras relações na infância, refletem durante toda a vida do indivíduo e, quase sempre, ditam a forma com que ele lida com as demandas cotidianas e na vivência das perdas definitivas, como a morte. Muitas vezes, o manejo e enfrentamento de situações com grande carga emocional, como o processo de luto, remetem às vivências de perdas anteriores e ao modo como se estabeleceu o vínculo com o ente perdido.

Para um processo de luto natural é comum e esperado que o enlutado oscile entre a busca por sua figura de apego perdida e a restauração para a vida. A este modelo, deu-se o nome de Modelo de Processo Dual de Luto sugerido por Stroebe e Schut. Quando observamos um enlutado muito voltado para perda, com dificuldades de olhar para a reorganização da vida, pode-se levantar a hipótese de um processo de luto complicado. Já o sujeito que está muito direcionado para a reestruturação da vida e tem dificuldades de olhar para sua perda, sem entrar em contato com o sofrimento, podemos pensar um processo de luto adiado ou inibido. A oscilação entre os movimentos de restauração e da perda é importante para reconstrução de um novo mundo presumido, onde o sujeito se permite ressignificar a relação com a pessoa perdida e vislumbrar a construção de novos planos de vida (Parkes, 2009).

Desta forma podemos inferir que, as transições psicossociais encontradas em um processo de luto, considerando o significado construído e a qualidade do vínculo com a pessoa falecida, variam de pessoa para pessoa. O processo é individual e cada um passa por ele à sua maneira. À medida que uma pessoa se adapta à perda, o sofrimento torna-se mais subjugado e os pensamentos e memórias do falecido se tornam menos dolorosos.

A equipe de saúde deve auxiliar na reconstrução da identidade e da vida do enlutado, ajudando-o no exercício da compreensão de novos papéis. Para isso, é preciso conhecê-lo de maneira ampla, deixando falar sobre a perda, ouvindo e confortando.
No luto, uma das coisas mais importantes que podemos fazer por alguém que sofre uma perda significativa é escutar. Embora acredite-se que escutar alguém seja algo relativamente fácil de fazer, prestar atenção, nesse caso, pode tornar-se muito difícil. Escutar ativamente é uma forma especial de compreensão das ideias e sentimentos que estão sendo expostos. Escutar não só com o ouvido, mas também com o coração, isso faz toda a diferença!”

(Publicado em: Plataforma EDA Moodle da FCMMG em 18.02.18)

Após ler o texto escrito pelas alunas, eu penso o quanto trabalhar com enlutados é uma tarefa de extrema responsabilidade. Precisamos realizar uma minuciosa análise de que maneira aquela pessoa fora afetada por sua perda e quais foram suas perdas secundárias, tanto no campo objetivo, mas principalmente no subjetivo. Esta cuidadosa análise nos auxiliará no manejo mais adequado para cada indivíduo.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Colaboração:
Andrea Coelho Vianna – Dentista, voluntária do grupo de apoio ao luto(API-BH)

Camila Bethânia dos Santos Fogaça – Médica, no Hospital Márcio Cunha em Ipatinga- MG  (Unidade de Cuidados Paliativos). Especialização em Clínica Médica e pós graduação em Geriatria (FELUMA).

Joana Cés de Souza Dantas – Psicóloga, no Serviço de Hematologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto e colaboradora do Hospital Placi. Psicóloga clínica no Instituto Entrelaços.  Especialista em Oncologia pelo INCA.

Kátia Poles – Enfermeira, Especialista em Pediatria e Terapia de Família (UNIFESP), Mestre e Doutora em Enfermagem (USP).

Liliana Lapequino Morais – Médica, Intensivista pediátrica no Hospital Unimed em Vitória/ES.

Maria Letícia Simões – Médica, no Hospital Unimed (Uti pediátrica) de Vitória e trabalha como Neonatologista no Hospital Santa Rita de Cassia (parto humanizado)

Referências:
AZEVEDO, A. K.; PEREIRA, M. A. O luto na clínica psicológica: um olhar fenomenológico. Clínica & Cultura, v. 2, n. 2, p. 54-67, 2013.
BARRETO, P.; YI, P.; SOLER, C. Predictores de duelo complicado. Psicooncología, Norteamérica, 5, dic. 2008. Disponível em: http://revistas.ucm.es/index.php/PSIC/article/view/PSIC0808220383A
BOWLBY, J. Formação e rompimento dos laços afetivos. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
Bromberg, M.H.P.F. A psicoterapia em situações de perdas e luto. Campinas: Editorial Psy, 2000.
CATALDO, A.; MAJOLA, R. R. O luto normal, o luto patológico e o médico. Revista de Medicina da PUCRS, v. 7, n. 1, p. 1-52, 1997.
FRANCO, M. H. P. Luto em cuidados paliativos. In: Cuidado paliativo. São Paulo: CREMESP, 2008.
FRANCO, M. H. P. A teoria do apego e os transtornos mentais do luto não reconhecido. In: CASELLATO, G. (Org). O resgate da empatia: suporte psicológico ao luto não reconhecido. São Paulo: Summus Editorial, 2015.
MARKHAM, U. Luto: esclarecendo suas dúvidas. São Paulo: Ágora, 2000.
MEIRELES, I.O.; LIMA, F.L.C. O luto na fase adulta: um estudo sobre a relação do apego e Perda na teoria de John Bowlby. Revista Ciências Humanas – UNITAU, v. 9, n. 1, p. 92-105; 2016.
PARKES, C. M. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. São Paulo: Summus Editorial, 1998.
PARKES, C. M. Amor e perda: as raízes do luto e suas complicações. São Paulo: Summus Editorial: 2009.
SEREM, R.; TILIO, K. As vivências do luto e seus estágios em pessoas amputadas. Revista da SPAGESP, v.15, n.2, p. 64-78, 2014. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S167729702014000100006
WORDEN, J. W. Terapia do luto: um manual para o profissional de saúde mental. Porto Alegre: Artmed, 1998.

Natal: Como lidar com a dor do luto durante as festividades do final do ano

“O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível”. (Adélia Prado)

Estamos vivenciando uma das épocas mais significativas do ano. O Natal e o Ano Novo são, para a maioria das pessoas que vivem no ocidente, um momento de estar com a família e com amigos queridos. Não podemos esquecer que a essência do Natal está justamente no partilhar de afetos com aqueles que amamos.

Continuar lendo

Luto no escritório: Quando um colega de trabalho morre

“Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de 7 chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção
Que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir”.      (Milton Nascimento e Fernando Brant)

O ano era 1986, eu cursava o último ano do curso de secretariado e como exigência curricular eu realizava meu estágio profissional numa multinacional holandesa. Meu departamento era pequeno, éramos apenas 3 pessoas. A secretária que supervisionava meu estágio era casada com um funcionário da administração, um departamento enorme, por isso nós tínhamos o hábito de almoçarmos com os colegas dele. E assim fiz amizade com muitas pessoas que trabalhavam na administração, e em especial com o Hélio, que os colegas carinhosamente chamavam de Helinho, por ser um rapaz miúdo.

Continuar lendo

Manchester à Beira-Mar: um mergulho na dolorosa experiência humana do luto e da culpa

“Luto complicado; é complicado” (Colin M. Parkes)

No último dia 06 de outubro eu participei do Complicated Grief Study Day, um dia inteiramente dedicado ao estudo e a reflexões sobre luto complicado promovido pela Child Bereavement, uma entidade inglesa que presta assistência às pessoas enlutadas. Dentre as palestrantes estava a Dra. Katherine Shear da Universidade Columbia – NY, uma autoridade no assunto. Fora um dia interessante. Contudo, fez-me refletir sobre a linha tênue que distingue um processo de luto natural e complicado. Esta distinção não é das tarefas mais fáceis de fazermos.

Continuar lendo

Perda Gestacional: um luto não reconhecido; uma dor invisível

“Filho – um amor indizível, um amor infinito, um eterno aprendizado sobre a arte de amar e educar, certeza diante das incertezas, calmaria em pleno caos,  a mais preocupante e doce memória. Mas, às vezes, tão somente saudade…” (Nazaré Jacobucci)

Ao longo da nossa existência seremos confrontados com diversas perdas que podem ter significados e impactos muito distintos na vida de cada indivíduo. Entretanto, infelizmente, há alguns tipos de perdas que não recebem a devida atenção por parte da sociedade.

A perda gestacional e neonatal são fenômenos mais comuns do que se possa imaginar. Estima-se que a prevalência da perda gestacional varia entre 15 a 20% das gestações clinicamente diagnosticadas, atingindo até 30% das gestações com diagnóstico bioquímico. A maior ocorrência se dá antes da 12º semana gestacional. Quando a perda do feto ocorre entre a 1º e 22º semana de gestação é denominada perda precoce. Quando ocorre após este período as perdas são consideras tardias (Camayo; Martins; Cavalli, 2011; Serrano, 2016).  As mortes neonatais correspondem à morte de recém-nascidos que faleceram até  28 dias completos de vida.  Com efeito, no que tange a Declaração de Óbito o Ministério da Saúde determina que o mesmo seja emitido quando a criança nascer viva e morrer logo após o nascimento, independentemente da duração da gestação, do peso do recém-nascido e do tempo que tenha permanecido vivo. E  no óbito fetal, se a gestação teve duração igual ou superior a 20 semanas, ou o feto com peso igual ou superior a 500 gramas, ou estatura igual ou superior a 25 centímetros.

Continuar lendo

Luto: uma experiência dolorosa; um aprendizado sobre o amor

“A intensidade do luto é determinada pela intensidade do amor” (Colin Parkes)

O luto é um processo normal de elaboração diante de um rompimento de um vínculo afetivo. O luto é um processo essencial para que nós possamos nos reconstruir, nos reorganizar, diante desse rompimento. É um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que lidar. Inclui transformação e ressignificação da relação com o que foi perdido.

O texto abaixo escrito pela escritora Rândyna da Cunha, que me autorizou a compartilhá-lo na íntegra, nos mostra que a experiência de um processo de luto é dolorosa. Contudo, um aprendizado sobre o amor.

Continuar lendo

Luto: uma dor em constante ressignificação

“O médico perguntou:
— O que sentes?
E eu respondi:
— Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias” (Denison Mendes – Bonsais Atômicos)

Para mim, ser psicólogo é uma arte. Sim, a arte de escutar e ressignificar!
Simbolicamente é a arte de escutar a alma do outro, mesmo que este outro esteja com a vida literalmente de cabeça para baixo. Cabe a nós escutá-lo e compreendê-lo. Nós que trabalhamos com pessoas que estão vivenciando perdas e/ou luto precisamos estar disponíveis para “escutar” a tristeza, as angústias, o choro, a dor que dói na alma.

O texto abaixo escrito pela psicóloga Erika Pallottino, especialista em luto e que possui um Instituto especializado no tema na cidade do Rio de Janeiro – o Instituto Entrelaços – descreve com sensibilidade, a partir do seu olhar clínico, as dores vivenciadas pelos enlutados.

Continuar lendo

Luto e Perdas num Processo de Imigração: um constante ressignificar

”Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião
Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão” (Belchior)

No mundo de hoje, onde há globalização e estreitamento de fronteiras, o processo de imigração e migração vem se intensificando gradativamente. A migração não é sinônimo de luto. Muitas pessoas decidem migrar para ampliar seus horizontes e, muitas vezes, para mergulhar num profundo processo de autoconhecimento e reorganizar suas vidas estagnadas. Contudo, tanto os refugiados quanto os indivíduos que escolheram imigrar experienciarão, em graus diferentes, os sentimentos vivenciados num processo de luto. Pois, haverá várias rupturas e perdas ao longo do processo migratório

Continuar lendo

Luto não elaborado: as repercussões psicoemocionais na vida adulta

“O entardecer traz consigo a noite, a escuridão, as sombras, o desconhecido, que também dão sentido à vida, fazendo parte dela. No dia seguinte, no horizonte da vida, surgirá mais um dia de viver, mesmo que não estejamos presentes. Será sempre outro dia de viver e talvez seja o último e derradeiro. No amanhecer, encontra-se outro entardecer. O entardecer é a metáfora da morte. Dia e noite são partes do mesmo e único fenômeno, vida e morte”. (Maria Emília Bottini)

A morte de um dos pais é um dos eventos mais difíceis que uma criança pode enfrentar. Ela expõe prematuramente à criança a imprevisibilidade da vida e a natureza tênue da existência cotidiana. Estudos com adultos que apresentavam alguns distúrbios psíquicos e/ou mentais, especialmente depressão, revelam frequentemente lutos mal elaborados vivenciados na infância, sugerindo que tal perda pode contribuir para o agravamento de transtornos psiquiátricos e que esta experiência pode tornar uma pessoa emocionalmente vulnerável para a vida.

Continuar lendo