Capelania: A importância do Cuidado Espiritual em Cuidados Paliativos

“Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”. (Gilberto Gil)

Como já discutimos em posts anteriores, Cuidado Paliativo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, é uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes adultos, crianças e famílias que enfrentam problemas associados a doenças que ameaçam a vida. Previne e alivia o sofrimento por meio da identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e outros problemas físicos, psicossociais ou espirituais (WHO, 2017).

Para mim não há dúvidas do quanto a dimensão espiritual é uma das mais importantes a ser cuidada num processo de final de vida. A espiritualidade tem demonstrado ser um fator chave em como as pessoas compreendem a doença e apreendem o manejo mais adequado de como lidar com o sofrimento. A espiritualidade é uma característica humana que, dentre outros aspectos, proporciona ao indivíduo a possibilidade de encontrar significado e propósito para a sua vida. Embora estejam relacionadas, espiritualidade e religião não são equivalentes. De acordo com Freire et. al (2017), a religiosidade pode ser compreendida pelo vínculo do indivíduo com uma instituição religiosa e/ou igreja ou com uma seita religiosa, o qual obedece a uma crença ou prática de alguns rituais religiosos públicos, proposta por determinada religião. A espiritualidade é compreendida como uma característica do indivíduo, que pode incluir a crença em um Deus, e estabelecer uma conexão espiritual do ser com o cosmos e com outras pessoas. Dessa forma, a espiritualidade envolve questões e reflexões sobre o significado e o propósito da vida, que transcendem a religião ou a religiosidade. As situações que antecedem e envolvem os processos de morte e o morrer estão entre aquelas em que a espiritualidade e a necessidade de conforto espiritual são visíveis.

Neste sentido, há um profissional na equipe de cuidados paliativos designado para cuidar da dimensão espiritual: o Capelão. Este profissional possui especialização na área de cuidados paliativos e o mesmo proporcionará ao paciente conforto espiritual sem a definição de uma religião específica e suas doutrinas. Ele promoverá um cuidado holístico discernindo e respeitando a diversidade cultural, espiritual e religiosa de todos os pacientes, seus familiares e cuidadores. Para esse fim, a moderna capelania na área de saúde é um serviço e uma profissão que trabalha dentro dos hospitais e está focada em garantir que todas as pessoas, sejam elas religiosas ou não, tenham acesso a apoio pastoral, espiritual e/ou religioso quando necessário.

Para entendermos melhor sobre as questões que permeiam este tema eu tive a honra de entrevistar a Capelã Elizabeth Maria de Assis Silva Pavão, uma estudiosa do assunto.

Você poderia nos explicar qual o papel de um Capelão numa equipe hospitalar?
“O cuidado traz o céu à terra.” (Leonardo Boff)

Para apresentar o papel do capelão é imprescindível que se tenha em mente o que é Capelania. A palavra capelania vem do latim capella que significa pequena capa. A associação destes termos surgiu no século IV da era cristã cujo personagem central é Martinho, nascido em 316 na região hoje conhecida como Hungria, antiga Panônia. Na infância, Martinho teve a fé despertada através dos ensinamentos cristãos e era conhecido pela compaixão. Na adolescência seu pai o levou para servir com ele no exército imperial. Próximo de completar 20 anos, foi designado para servir na região da Gália (hoje, França). Em determinada noite do inverno europeu, um andarilho ao relento pediu-lhe esmola, tremendo de frio. Então, Martinho cortou sua capa e deu parte dela ao homem para proteger-se na gélida noite. Nesta mesma noite ele decidiu deixar o serviço militar para dedicar-se à vida religiosa e às obras de misericórdia.
Por volta de 360 fundou uma comunidade para monges nas redondezas de Poitiers, construindo o primeiro mosteiro da França e da Europa ocidental, dedicando-se aos pobres e aos doentes. Exerceu o bispado por 25 anos e morreu aos 81, sendo sepultado na cidade de Tours, onde foi guardada em uma pequena igreja a metade da capa de San Martinho, muitos relicários cujas franjas alimentaram vários relíquiários. Surgiram assim os capelães: os cuidadores dos que estavam sofrendo com intempéries.
Considerando que “Paliativo” vem do latim pallium que significa manto e que capelania vem do latim capella e significa capa, o cuidado paliativo pressupõe a atenção também através da capelania, sem prescindir da assistência espiritual.
Ouvi Dra. Cláudia Naylor dizer em sua excelente palestra intitulada: O que os pacientes em Cuidados Paliativos Procuram, ministrada no Congresso de Cuidados Paliativos ACEH/Universidade Presbiteriana Mackenzie São Paulo- SP: “Quando conheci Cicely Saunders, ela me disse que para ser bem sucedida eu deveria tratar dos sintomas com esmero mas também da espiritualidade dos pacientes. Perguntei: Mas como posso fazer isso? Então ela me apresentou o capelão do St. Christopher’s e, acompanhando-o pude começar a compreender melhor a essência de Cuidados Paliativos: Espiritualidade”.
O serviço de assistência religiosa e espiritual a pessoas em situações específicas de sofrimento visa à proteção e ao fortalecimento multidimensional do ser humano. No Brasil, tal assistência é um direito resguardado por lei na Constituição Federal Art. 5º Inciso VII que diz: “É assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva”. Esta assistência deve ser prestada também em consonância com a Lei nº 9.982, de 14/07/2000 que dispõe em seu Art. 1º: “Aos religiosos de todas as confissões assegura-se o acesso aos hospitais da rede pública ou privada, bem como aos estabelecimentos prisionais, civis ou militares, para dar atendimento religioso aos internados, desde que em comum acordo com estes, ou com seus familiares no caso de doentes que já não mais estejam no gozo de suas faculdades mentais”.
O objetivo principal da assistência espiritual e religiosa é contribuir direta ou indiretamente para a promoção do bem-estar integral individual e/ou comunitariamente, cuidando para que haja restabelecimento e aprimoramento das relações do ser humano consigo, com outras pessoas, com o meio ambiente e com Deus. Diante disto, a capelania é a sistematização desta assistência para um ambiente público, ou seja, para fora das paredes da comunidade religiosa que pode ser organizada onde se fizer necessário como por exemplo, no ambiente hospitalar, escolar, militar, prisional, em desastres, para adictos, empresarial, etc., podendo ser exercido voluntariamente ou não desde que tenha preparo para tal, uma vez que cada contexto apresenta peculiaridades que lhes são próprias e muitas delas não são compartilháveis com outras capelanias. O capelão, seja qual for a área de atuação, deve também estar disponível para atender aos chamados o quanto antes nas mais diversas situações. Considero o capelão um cuidador a curto, médio e longo prazo a depender das características assistenciais e em muitas situações o capelão é um socorrista espiritual.
No nosso país o serviço de capelania ainda não é regulamentado enquanto profissão, exceto nas instituições militares, estando o projeto de lei em análise para regulamentação na esfera federal. Entretanto, é importante lembrar que um líder religioso, só pelo fato de ser líder religioso, não é um capelão. Um visitador hospitalar não é um capelão. O capelão é preparado para visitar e cuidar espiritualmente das pessoas e é capacitado para atuar no contexto em que está inserido, seja ele líder religioso ou não.

Quais são as atividades de um Capelão hospitalar? Quais competências profissionais e pessoais um Capelão deve ter?

O capelão hospitalar é um profissional da saúde que deve ser qualificado para prestar assistência religiosa e espiritual neste contexto a pessoas religiosas ou não, a toda a comunidade hospitalar (pacientes, acompanhantes, profissionais de saúde), seja através de encaminhamentos ou de busca ativa; integrar equipe multiprofissional da instituição; representar a instituição quando se fizer necessário; organizar o serviço de prestação de assistência espiritual e religiosa; elaborar e cuidar para que seja executado o plano de cuidado espiritual do paciente; gerenciar o serviço de voluntariado de prestação de assistência espiritual e religiosa da instituição; organizar e garantir que aconteçam os eventos pertinentes às datas comemorativas religiosas bem como os rituais litúrgicos; participar do núcleo de educação continuada tanto para aprimoramento pessoal quanto para a capacitação de outros da comunidade hospitalar; cuidar para que os rituais religiosos sejam oferecidos adequadamente.
É importante também que o capelão busque conhecer as: a) bases da assistência hospitalar: o que dizem as diretrizes da OMS, do Ministério da Saúde dentro da PNH/SUS, o regimento interno da instituição, normas e técnicas próprias da assistência no dia-a-dia pertinentes à atuação do capelão e dos outros profissionais da assistência; b) bases espirituais e doutrinárias das religiões e das correntes filosóficas, o significado da vida, da morte e do morrer diante delas; c) bases da constituição multidimensional do ser humano e os elementos da cultura em que este está inserido.
É fundamental que o capelão seja comunicativo, acolhedor, pacificador, desenvolva continuamente a capacidade de ouvir, seja capaz de guardar segredos, goste e dedique-se ao trabalho em equipe, seja organizado e tenha espírito ecumênico (entendendo que a palavra ecumênico tem sua origem no vocábulo grego advindo da palavra oikos, que significa casa, lugar onde se vive e busca-se o bem-estar. É a disposição de alma para, reconhecendo cada ser humano como único, enfatizar o que se têm em comum. É dedicar-se mais às pontes que aos abismos e através delas buscar construir relacionamentos significativos e potencializar a espiritualidade).
Em atitude interna atenta e empática, dedicando-se ao cuidado indistinto de pessoas da comunidade hospitalar, religiosas ou não, o capelão precisa também estar disponível para atender aos chamados quando se fizerem necessários nas mais diversas situações.
Para isso, o capelão deve ser humano. Só sendo humano estará a caminho do divino. Deve prezar pelo autoconhecimento e autocuidado integral; respeitar seus limites, cultivar a disciplina espiritual através da leitura e reflexão de textos sagrados, oração, meditação, jejuns, etc); deve manter sigilo das informações sob sua guarda. Também deve buscar coerência entre a dimensão espiritual e a lida primando pela ética, valores e princípios que visem a dignidade humana e o fortalecimento das relações, mitigando o sofrimento, participando do alívio ou cura da dor na alma, mesmo quando a cura física não é mais possível.

Qual é a sua compreensão em relação a espiritualidade? Quais são as estratégias e contribuições da Capelania ao empregar a espiritualidade no processo assistencial ao paciente em final de vida?

Compreendo a espiritualidade como uma das dimensões do ser humano em que todas elas (física, emocional, social e espiritual) estão intimamente amalgamadas e sofrem alterações contínuas na dialética da vida num movimento contínuo de alma interna e externamente, bem como em todas as suas relações. A espiritualidade entretanto, é a ponte que o faz transcender (ir para além de si), diferenciar-se através de reflexões sobre ser e estar, sobre o sentido da vida, sobre questões anteriores à própria vida e para além dela. É o dorso do ser humano. O Espírito em plenitude tem como fruto o amor, a alegria, a paz, a paciência, a delicadeza, a bondade, a fidelidade, a humildade e o domínio próprio, nas palavras do Apóstolo Paulo. Destes, derivam outros fundamentais ao bem estar espiritual como o perdão, a compaixão, a sabedoria, dentre outros tantos. A Espiritualidade é a Vida em potência máxima, mesmo com todas as suas limitações e deficiências, enquanto o fato de não haver cultivo da espiritualidade é o caminho para a morte ainda que biologicamente a pessoa esteja viva, ativa e saudável fisicamente; morrer é viver no piloto automático, pensando ter o controle total da própria vida enquanto esta se esvai. É viver egoísticamente para si enquanto “há tanta vida lá fora”.
Para oportunizar o cuidado espiritual, a capelania pode utilizar várias estratégias como: visitação leito a leito, celebrações religiosas, aconselhamento individual ou coletivo, incentivar e auxiliar quando possível ações que promovam a dignidade humana e a espiritualidade em parceria com outros profissionais de saúde e/ou projetos que visem: a) despertar a solidariedade e o cuidado através da realização de campanhas de doação de materiais como agasalhos, por exemplo; de doação de sangue, órgãos, medula e tecidos, por exemplo; b) estimular a contemplação e a reflexão através do acesso à arte através da música, dança, teatro, cinema, literatura, oficinas de pintura, escultura, bordado, leitura, etc..
O cuidado espiritual ao paciente em fim de vida torna-se mais contínuo e importante. Diante das angústias do luto antecipatório e da necessidade de “arrumar a casa”, o paciente faz uma retrospectiva do que considera ter sido mais importante na vida e o quanto se dedicou a isto. O assistente espiritual é útil nas reuniões multidisciplinares,  familiares, na atenção individual e coletiva à familia com escuta atenta sem interrupções e ajuda no resgate biográfico, sem julgamentos, ajudando-os a refazer o caminho com perguntas levando-os à reflexão e, talvez a reinterpretar algumas situações. Tem importante papel no cuidado com as disciplinas espirituais e religiosas do paciente e da família, a ministração de sacramentos, orações e leituras, na companhia compassiva, na aceitação da sua finitude, na elaboração da lista de motivos de gratidão, na validação do legado, na promoção de reencontros e reconciliação com pessoas e com Deus.
O trabalho bem sucedido de capelania se dá enquanto permanece de mãos dadas com outros profissionais da instituição. Inclui médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, farmacêutico e todos os profissionais da área administrativa, operacional, serviço de voluntariado, familiares e comunidade em geral. Não se faz capelania sozinho. Fui aprendendo isso em estágio nos corredores do HSPE acompanhando Eleny Vassão na equipe multidisciplinar de cuidados paliativos.


Quando e como determinar se a intervenção espiritual será interessante para o paciente?

Antes mesmo que o paciente seja recebido no ambiente hospitalar, geralmente ele é tomado por grandes inquietações espirituais que manifestam-se nas frequentes perguntas feitas a si, ao transcendente e aos que o rodeiam. Perguntas como: por que, meu Deus? Por que agora? O que eu fiz de errado? É minha culpa, o que eu faço agora? Se eu morrer, para onde eu vou? Eu estou pronto para enfrentar isso agora? Deus me abandonou? O que eu tenho que fazer para consertar tudo isso? Não administrei meus recursos como deveria… E agora? Como vamos pagar por isso? Deus está me punindo? O que eu fiz da minha vida? Estou com muito medo…
Na nossa ótica, embora a enfermidade seja algo absolutamente indesejável para qualquer ser humano, ela ainda é um processo pedagógico em que há um determinado tempo disponível para refletir, para organizar, ainda que minimamente, a saída desta vida. É a oportunidade de rever o caminho, validar sua história em muitos pontos e corrigir a rota em vários outros. A enfermidade pode ser a oportunidade de um redirecionamento da própria vida de maneira potente em direção à Vida em plenitude ou à morte em plenitude, afinal, como afirma Saint Exupèry: ”o mesmo sol que amolece a cera endurece a argila.” Quanto a isso, cada ser humano é único, tem seu próprio tempo que deve ser respeitado e reage conforme os recursos internos e os recursos ambientais de que dispõe.
O papel da capelania é criar o ambiente de reflexão e acolhimento destas elaborações. Quando necessário, confrontar com sabedoria e estar com o ser humano nos vales escuros da existência, atento às oportunidades de reconciliação consigo, com os outros, com o meio ambiente e com Deus.
No momento em que o paciente expressa a angústia espiritual pela fala ou pela apatia, é necessário abordá-lo e oferecer a oportunidade de conversar com alguém.
Sedar um paciente que diz: “estou morrendo e estou com medo” sem dar a ele a oportunidade de ser ouvido, acolhido, cuidado, confortado, é um crime espiritual de reflexos eternos.
O incentivo ao estabelecimento de rotinas que contemplam a “anamnese espiritual do paciente” são desejáveis e são um grande avanço no cuidado integral de pessoas. Entretanto, é só um passo. Se estes dados coletados servem apenas para a contribuição de pesquisa sistematizada academicamente e num segundo momento não servem para referenciar o atendimento com mais dignidade aos pacientes, aos familiares e aos profissionais de saúde há algo muito errado acontecendo. É como mobilizar o senso, reunir dados do IBGE sem planejar políticas públicas que correspondam às demandas da população. É engodo. É preciso avançar na forma de cuidar.
Tive a oportunidade de contribuir quando fui abordada por um profissional da enfermagem solicitando assistência a determinado paciente que na hora do curativo se mostrou extremamente angustiado com Deus. A psicóloga pediu que eu passasse visita ao paciente x porque mesmo usando todas as técnicas possíveis, o paciente continuava com a cabeça coberta com lençol. A médica solicitou visita ao paciente que após receber notícia do avanço incontrolável da doença perguntou a ela: “Doutora, será que Deus vai me aceitar?”
Fui chamada em diversas situações: pela coordenação do setor de atendimento porque um familiar que sofria de esquizofrenia, ao saber da gravidade do quadro de saúde da mãe, prometeu matar todo mundo se Deus levasse a mãe dele; pela coordenação da UTI para dar suporte na comunicação de notícias difíceis tanto de amputação de membros quanto de falecimentos; em abertura de protocolo de morte encefálica e fechamento; durante a abordagem para expor a possibilidade de doação de órgãos e tecidos; no momento da alta para reflexão e gratidão; para visita pós alta hospitalar; para o aniversário; para o processo ativo de morte; para o luto; para um café quando o luto já estava bem ameno.
Onde houver sofrimento, aí está a necessidade de cuidado. Onde houver sofrimento espiritual, não conseguindo aliviar, é preciso chamar o capelão. Este deve acionar sempre o líder religioso indicado pela pessoa assistida ou sua família. Cabe ao capelão informar o líder religioso do paciente sobre seu estado e ser ponte entre o líder religioso e a equipe multidisciplinar quando se fizer necessário.
A intervenção espiritual em si geralmente é benéfica. A depender da postura do assistente espiritual ela pode não ser interessante para o paciente, especialmente quando a abordagem propõe ênfase no viés doutrinário religioso ou filosófico desprezando a espiritualidade; quando a culpa e o julgamento ocupam todo o espaço do acolhimento; quando não há vínculo entre paciente e assistente espiritual, ainda que sejam da mesma religião – há muitos casos em que é real a máxima popular: “meu santo não bate com o dele…”
A intervenção espiritual exige cuidados especiais em casos de transtornos psiquiátricos, como a esquizofrenia, por exemplo.

Como os pacientes e familiares recebem e compreendem esta intervenção espiritual?

Em geral familiares não só recebem como buscam suporte espiritual para seus queridos que estão enfermos, na esperança de que sejam confortados, animados e em muitos casos, que não desistam de acreditar no milagre. O capelão deve ter muito tato para lidar com as expectativas da família, sem tirar a esperança mas ao mesmo tempo levando-os a entregar suas angústias a Deus. Quando fazem isto com inteireza de alma, sentem paz apesar da tristeza da possível partida da pessoa amada.

Na sua lida em hospital, quais são as necessidades espirituais, observadas por você, que os pacientes em cuidados paliativos apresentam com mais frequência?

Falta de sentido para a vida e para o sofrimento vivenciado; culpa; desesperança; solidão; medo de não ter sido bom o suficiente; sentimento de ter sido abandonado por Deus; incerteza quanto ao futuro pós morte.

Você pensa que a intervenção espiritual por meio de um Capelão pode favorecer o momento da despedida desse paciente que está se despedindo da vida?

Sim! O capelão pode ajudar um paciente a despedir-se, a dizer o que sente, estar ao lado, amparando-o. O capelão pode ser um facilitador em oração com a família se assim quiserem, cantar com eles, estar ali em silêncio, segurar a mão de uma filha que sozinha não consegue se despedir do pai, estar com ela enquanto ela pede perdão e ouvi-lo dizer: “Eu te perdoo! Eu te amo!” “Fique tranquila, mãe, eu vou ajudar a cuidar do papai e do meu irmão.” O capelão pode estar em oração ou conversa com paciente, pode confortar a todos, enquanto os trâmites pós morte acontecem,   pode auxiliar na preparação da cerimônia fúnebre, nos ritos de despedida e sepultamento.

Aqui em UK nós temos uma associação, a Association of Hospice & Palliative Care Chaplains, que agrega os profissionais da área de capelania. No Brasil há também uma associação?

Devido à demora na aprovação da lei que regulamenta a profissão, sendo o Brasil um país laico de matriz religiosa inigualável em que versa o sincretismo religioso, há inúmeras comunidades religiosas que tendem à aproximação e organização de Associações conforme o corpo doutrinário que possuem. Há assim várias associações de capelania. Um grande problema que exige enfrentamento é a multiplicação dos cursos chamados de capelania ministrados em 8h dando pouquíssimas informações sobre a assistência adequada, cobram caríssimo e divulgam validade em todo o território nacional.
Cursos sérios de capelania são ministrados em faculdades, universidades e associações sérias com carga horária sempre maior que 200 horas e incluem estágio em instituição hospitalar. Os gestores precisam estar atentos a isto.

Houve um momento dentre tantos atendimentos realizados em sua carreira profissional que te marcou, tanto pessoal como profissionalmente?

Ah… muitos! Um caso…
Quanta vida há na morte?
Domingo cedo. Sol e frio. Fim de outono. Decisão difícil escolher uma roupa para sepultar alguém. Hoje, J… A moça que sempre sorria e estava a postos de batom e lenço colorido, que queria ouvir falar de Deus, de esperança e paz. Estive com ela em assistência espiritual em vários momentos tanto na clínica onde se tratava quanto no projeto social do bairro. Foram 16 meses de convívio…
Sua melhor amiga nos avisou sobre o velório que aconteceu durante a noite na Igreja Batista do bairro, no bairro mais violento do Estado do ES. O pastor abrira as portas para a comunidade, para uma das maiores lições de Escola Bíblica Dominical: refletir sobre o significado da vida com toda a comunidade.
Eu e minhas amigas-irmãs fomos recebidas à porta pelos seus irmãos de sangue. Fomos apresentados à sua parentela e amigos reunidos.
Havia um clima de paz não oculto pela tristeza.
Sua mãe ao me abraçar, ofereceu-me logo um chá de capim cidreira que tomei como quem brinda à vida enquanto nos contava que passaram a noite conversando e comendo e bebendo porque J. havia recomendado sobre os preparativos da despedida que comessem e se alegrassem. “Pediu que distribuíssem cachorro quente pra que ninguém sentisse fome” disse ela, sorrindo. Passaram a noite ali, relembrando histórias, recarregando as baterias da alma. Juntos. Conheci e conversei com a criança que J. tinha como filho. Foi de doer… Ganhei um sorriso leve dele quando ele soube do meu sobrenome… ele achou engraçado… Ganhei um sorriso e um abraço. Durante a celebração de despedida, enquanto o pastor cantava com todos os presentes: “Porque Ele vive, posso crer no amanhã” e falava sobre os escritos de Paulo “quanto aos que dormem”, os dois cachorros da J. permaneciam deitados próximos ao caixão cabisbaixos. Triste, mas que coisa linda de ver…. Os que ela amava estavam todos lá.
Foi-me dada a oportunidade de falar na cerimônia. Trouxe uma breve reflexão sobre nossa fome de Paz, nossa necessidade de reconciliação conosco, com o próximo, com Deus e com o que nos cerca. Falei da oferta de Jesus: “Deixo-vos a Paz.”
No meio daquela gente simples, depois que todos se despediram e saiam para o sepultamento, seu irmão pediu que eu escolhesse uma foto dela no mural exposto. Que grande honra! Deixei que ele escolhesse e entregou-me a foto com um sorriso de paz. Retribui com um abraço e com lágrimas.
Eu não soube explicar e nunca saberei quanta vida há na morte…
“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir a casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração.” Disse o sábio Salomão em Eclesiastes 7:2
Todas as vezes que o menino que J. tinha como filho me vê no projeto social do bairro ele vem ao meu encontro e diz:
“- Ei, Tia! Você lembra de mim? Eu sou o P. Da J.,e você cuidou dela até depois que ela morreu.”
Eu sei pouco sobre a vida, mas sei muito mais sobre a Vida agora. Que bom ter gente com a gente na hora da dor… Dói menos… Conforta…

Após esta conversa com Beth Pavão, eu penso que se faz necessário implementar efetivamente, nos serviços de saúde, cuidados holísticos – físico, psíquico, social e espiritual – e não apenas para os pacientes em processo de finitude, mas para todos que necessitam de cuidados médicos.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

‎‎Colaboração:
Elizabeth Maria de Assis Silva Pavão – Capelã hospitalar paliativista com formação na ACS (ACEH), pós graduada em Ciências da Religião pela Faculdade Unida (Monografia: Modernidade, Humanização e voluntariado na assistência religiosa hospitalar: o caso do Hospital Estadual Central ES).
Fez Curso Multiprofissional de Cuidados Paliativos pela Casa do Cuidar em 2014. É teóloga pela Faculdade Unida (Monografia: “Espiritualidade do (Des)cuidado: Doenças Crônicas no Brasil e a abordagem em Cuidados Paliativos).
É graduada em Economia Doméstica pela UFV. É palestrante em Espiritualidade e Cuidados Paliativos na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Em 2017 atuou no HUCAM – Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes. Atua no Hospital Estadual Central ES desde 2010 e em assistência domiciliar.
É Secretária Presbiterial de Capelania do PCES/IPB e integrante do Conselho Presbiteriano de Capelania da IPB.

Poema escrito por Beth Pavão no dia Mundial de Cuidados Paliativos

“Poema de Uma Capelã Paliativista”

Já acompanhei pessoas em seus processos nas mais diferentes situações.
Já orei com mães no hospital entregando seus filhos pequenos a Deus.
Já joguei futebol com filhos pequenos no primeiro feriado depois da morte da mãe deles.
Já orei com mãe na cadeira de rodas (por causa do avanço da doença) na porta da igreja se preparando para casar o filho, levando-o até o altar.
Já levei no bolso turbante, lenços, folhetos, café, doces, livros, bonés e mão vazia.
Já comprei balas para crianças em velório depois de dar colo, consolá-las, e orar com elas.
Já viajei 7 horas para passar 30 minutos com pacientes.
Já fui na roça entregar presentes.
Já fiz serenatas, festas, dança e teatro.
Já chorei sozinha sem conta… como se a gente fosse cavalo em que o sofrimento monta.
Já segurei com uma mão a mão de quem partia e com a outra mão, a mão de quem ficava.
Já organizei almoço, celebrações, festas, rituais de despedida e de gratidão.
Já perdi o sono pensando em solução e recuperei-o depois da oração.
Já usei o jaleco como se fosse manto.
Já levei música no corredor e no leito,
Li muitos textos sagrados e depois com respeito
Expliquei cada ponto ou me silenciei.
Já doei meu ombro, meu ouvido e meu canto.
Já orei sem palavras, com palavras, de todo jeito.
Já ajudei nas notícias difíceis e nas que dão alegria.
Já ganhei receita de torta capixaba, de bolos e doces.
Já comemorei piscada de olho, lágrima que caia, olhos se abrindo e sorrisos.
Já acenei de volta para a mão que acenava na despedida,
Já contei piadas e já ri de gargalhar…
Já calcei meias diferentes pra tirar sorriso de paciente,
Já levei hidratante, roupa e maquiagem
Enfeite de cabelo, barbeador e perfume.
Já orei com enlutados à beira-mar.
Ouvi muitas histórias e confissões, convidando para a Deus entregar
Toda mágoa, tristeza, culpa, maldade e miséria
Alegria, vitória e gratidão.
Já cantei desafinando com choro e já cantei sorrindo.
Levei kit de desenho, de bordado e de história.
Já participei de campanha de doação de sangue, medula, órgãos e tecidos.
Já fui abraçada e abracei com braços e com palavras.
Já segurei a mão na partida de gente que em paz se despediu da vida.
Já vi o desamparo e o desespero gritando nos olhos de gente que morria
Já briguei por analgesia, ar condicionado e cobertor
Estou sempre estudando, observando e aprendendo
De mochila pronta, se precisar, socorrendo.
Já chorei de alegria com colega no corredor do hospital
Já chorei de tristeza, dei e ganhei abraço
Já contei causos da roça
E histórias de amor e de intrigas.
Já ri de piadas de doer a barriga
Sou parte da equipe multiprofissional.
Quem cuida do outro alivia o sofrimento e a dor
Promove cura da alma, conforta onde for
Nós cuidamos de gente de modo integral
E mesmo que seja doído… não há nada igual!
Já senti tanta paz e já perguntei a Deus:
Por que tanto mistério?
Já chorei baixinho sozinha com a dor gritando no cemitério.
Sinto como se o mundo não compreendesse
O que fazemos, falamos, e nem se escrevesse
Poderia detalhar com clareza o que vivemos.
Capelania é chamado, é o Caminho que escolhe
Quem vai ser árvore que dá sombra e fruto,
Quem faz da folha remédio e que no peito acolhe
Qualquer que seja a pessoa que nas noites da vida
Quando o chão some e se sente perdida
Porque a Cristo será sempre nosso chão.
Um dia, nessa vida seremos poeira da estrada
E se houver um pouco Dele que está em nós:
Deixaremos AMOR
E mais nada…

Referências:
AITKEN, Eleny Vassão de Paula. (Org.) Esperança para Viver e para Partir: Espiritualidade na Prática dos Cuidados Paliativos. São Paulo: Cultura Cristã: 2017.
ARANTES, Ana Cláudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2016.
Association of Hospice and Palliative Care Chaplains. GUIDELINES FOR HOSPICE AND PALLIATIVE CARE CHAPLAINCY. 2013. Disponível em: www.ahpcc.org.uk/wp-content/uploads/2013/03/guidelines2012.pdf
Crossroads Hospice Charitable Foundation [site]. What is a Hospice Chaplain? Apr. 2017. Disponível em: https://crhcf.org/Blog/what-is-a-hospice-chaplain/
Freire, Maria Eliane Moreira et al. Assistência espiritual e religiosa a pacientes com câncer no contexto hospitalar. Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental Online, [S.l.], v. 9, n. 2, p. 356-362, apr. 2017. Disponível em: http://www.seer.unirio.br/index.php/cuidadofundamental/article/view/4906
JACOBUCCI, N. O papel da espiritualidade na terminalidade. Perdas e Luto [site]. Disponível em: https://perdaseluto.com/2015/11/16/o-papel-da-espiritualidade-na-terminalidade/
KOENIG, Harold. Medicina, Religião e Saúde: O Encontro da Ciência e da Espiritualidade. L&PM, 2012.
PESSINI, Leo. Espiritualidade e arte de cuidar: O sentido da fé para a Saúde. São Paulo: Paulinas/Centro Universitário São Camilo, 2010.
TAMIIAN, C. Palliative care chaplains must understand their vulnerabilities. National Association of Catholic Chaplains [site]. Disponível em:
https://www.nacc.org/vision/2016-jan-feb/palliative-care-chaplains-must-understand-their-vulnerabilities-by-calin-tamiian/
World Health Organization. WHO Definition of Palliative Care. Disponível em: www.who.int/cancer/palliative/definition/en/

A Imprevisibilidade acontece nas horas, nos minutos, nos segundos…

“Somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”. (Ayrton Senna)

Estamos vivenciando um momento único. Goste você ou não, a Copa do Mundo é este momento. Povos dos 5 continentes estão reunidos num mesmo local experienciando os mesmos sentimentos e emoções. Tudo pode acontecer naqueles incríveis e imprevisíveis 90 minutos e, antes que o juiz sopre seu apito sentenciando o fim, tudo pode acontecer.

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Filmes: Possibilidades de Reflexão sobre a Morte e o Luto

Antonius – Nenhum homem pode viver com a morte e saber que tudo é nada
Morte – A maioria das pessoas não pensam nem na morte ou no nada”.
(Filme O Sétimo Selo – Ingmar Bergman)

Eu sou uma cinéfila confessa. Considero a sétima arte absolutamente sublime. Como professora, considero filmes uma ótima ferramenta de auxílio para a compreensão de diversos conceitos. Os filmes não só nos divertem, mas são capazes de nos fazer refletir, favorecendo assim novas formas de lidar com questões e conflitos do nosso cotidiano. Compartilho, então, algumas sugestões de filmes que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.

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Luto: Teoria da Transição Psicossocial

“Não há nenhum livro de regras. Não há nenhuma escala de tempo. O luto é tão individual como uma impressão digital. Faça o que é melhor para a sua alma” (W Larcombe & Son)

Eu tenho a honra de ser tutora do módulo sobre Luto do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Cuidados Paliativos da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais coordenado pelas Profas. Gláucia Tavares e Marília Aguiar. Tem sido uma experiência muito valiosa e enriquecedora. Na unidade 2 foi solicitado aos alunos que discorressem sobre uma das teorias que permeiam um processo de luto: a Teoria da Transição Psicossocial. Essa teoria foi proposta por Colin Murray Parkes, psiquiatra britânico, que compreende luto como uma importante transição psicossocial decorrente das transformações no mundo interno que necessariamente ocorrem a partir da vivência de um processo de luto. A partir dessa transformação o enlutado passa a assumir novos papéis e uma nova visão de si e do mundo externo, buscando novas soluções para os problemas da vida cotidiana.

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Despedir-se: A difícil arte de dizer “Adeus”

“A vida me ensinou…
A dizer adeus às pessoas que amo, sem tira-las do meu coração” (Charles Chaplin)

No final de 2017, como faço todos os anos, eu tirei um tempo para relembrar e refletir sobre todas as perdas que sofri ao longo do ano. Não foram poucas. Infelizmente, por uma questão geográfica, eu não pude me despedir de pessoas tão queridas.

Poder despedir-se de quem amamos é de uma magnitude que está na categoria do indizível. Contudo, hoje as pessoas têm medo de dizer “adeus”. Muitas pensam que essa atitude pode atrair a morte mais rápido e, por conta desse medo, perdem a oportunidade de dar aquele abraço único que ficará para sempre na memória. Outras preferem acreditar que aquela intervenção milagrosa feita na UTI terá o poder de reanimar seu ente querido e elas terão a chance de se despedir mais tarde. Eu estava justamente pensando sobre o porquê de as pessoas ficarem tão bravas comigo quando eu as questiono sobre – “você já se despediu do seu ente querido?” – parece que estou fazendo uma pergunta ofensiva. Claro, que esta pergunta só deve ser feita num contexto específico e com muita delicadeza.  Então me deparei com o texto abaixo, escrito pelo Psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, que me autorizou a compartilhá-lo na íntegra, que nos mostra que precisamos reaprender a nos despedir.

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Luto no escritório: Quando um colega de trabalho morre

“Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de 7 chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção
Que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir”.      (Milton Nascimento e Fernando Brant)

O ano era 1986, eu cursava o último ano do curso de secretariado e como exigência curricular eu realizava meu estágio profissional numa multinacional holandesa. Meu departamento era pequeno, éramos apenas 3 pessoas. A secretária que supervisionava meu estágio era casada com um funcionário da administração, um departamento enorme, por isso nós tínhamos o hábito de almoçarmos com os colegas dele. E assim fiz amizade com muitas pessoas que trabalhavam na administração, e em especial com o Hélio, que os colegas carinhosamente chamavam de Helinho, por ser um rapaz miúdo.

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Dia dos Mortos: Um dia para celebrarmos as memórias

“Os mortos são invisíveis, e não ausentes”. (Victor Hugo)

No dia 02 de novembro vários países e culturas celebram e homenageiam seus ancestrais que se encontram em outra dimensão. Dependendo do contexto histórico, social e cultural em que o sujeito está inserido, o dia pode ganhar um viés festivo ou pode ser um dia para reflexão e oração. Eu penso que seja o dia de celebrarmos as boas e eternas recordações…

Neste sentido, a tradição religiosa de se ter um dia para lembrarmos e rezarmos pelos nossos antepassados, iniciou-se por volta de 998 DC, quando o abade Odilo de Cluny, em Borgonha na França, estabeleceu aos membros de sua abadia e a todos aqueles que professavam a fé da Ordem Beneditina a obrigatoriedade de se rezar pelos mortos. Segundo Fernandes, a partir do século XII, essa data popularizou-se em todo o mundo cristão medieval como o Dia de Finados, e não apenas no meio clerical. Apesar do processo de secularização e laicização que o mundo ocidental tem passado desde a entrada da Modernidade, o dia 02 de novembro ainda é caracterizado como sendo um dia específico para se meditar e rezar pelos mortos.

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Manchester à Beira-Mar: um mergulho na dolorosa experiência humana do luto e da culpa

“Luto complicado; é complicado” (Colin M. Parkes)

No último dia 06 de outubro eu participei do Complicated Grief Study Day, um dia inteiramente dedicado ao estudo e a reflexões sobre luto complicado promovido pela Child Bereavement, uma entidade inglesa que presta assistência às pessoas enlutadas. Dentre as palestrantes estava a Dra. Katherine Shear da Universidade Columbia – NY, uma autoridade no assunto. Fora um dia interessante. Contudo, fez-me refletir sobre a linha tênue que distingue um processo de luto natural e complicado. Esta distinção não é das tarefas mais fáceis de fazermos.

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Tanatofobia: o medo excessivo da morte

“Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte” (Arthur Schopenhauer)

Segundo Almeida, morte e vida coabitam o intrincado tecido biológico, físico, mental, psicológico e espiritual que constitui a identidade de cada pessoa desde a nossa concepção. A morte é também o grande mistério que compõe a vida.

Há uma área do conhecimento, a Tanatologia, que se dedica a estudar e compreender esse fenômeno denominado morte em suas particularidades e/ou outros fenômenos a ela relacionados. A palavra Tanatologia origina-se do grego “Thánatos” que na mitologia grega representa a morte.

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Você já se fez esta pergunta: O que é uma “boa morte”?

“A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim…” (Mario Quintana)

Na sociedade moderna há uma tendência, principalmente entre alguns médicos, de assimilar a morte de um paciente como um fracasso. O avanço tecnológico da medicina e seus infindáveis recursos para prolongar a vida – às vezes, desnecessariamente – são potencializadores desse pensar médico. Então, busca-se por meio desses recursos prorrogar a vida ignorando o fato de que o apito final já soara.

Neste sentido, há uma pergunta que precisamos nos fazer, e com certa urgência. Afinal, o que constitui uma “boa morte”? O que queremos quando trazemos para discussão algo tão subjetivo quanto esta desconcertante pergunta? Queremos provocar uma reflexão sobre uma das maiores questões da vida: a arte de morrer bem.

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