Perdas no Contexto da Violência Doméstica: Um Luto Complexo

“Tento esquecer o medo do presente, superar os traumas que sofri e enfrentar o mundo sem você” (Nijair Araújo Pinto)

Estamos vivenciando um momento de crise e há situações que podem agravar a experiência deste momento. A violência doméstica contra mulheres é uma destas experiências. Infelizmente constatou-se que este problema seríssimo se agravou muito neste período de isolamento físico.

A violência contra mulheres possui números alarmantes ao redor do mundo. Segundo Carolina Cunha, as mortes violentas por razões de gênero são um fenômeno global e vitimizam mulheres todos os dias, como consequência da posição de discriminação estrutural e da desigualdade de poder, que inferioriza e subordina as mulheres aos homens. O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de Feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres. No entanto, os 5 países considerados mais perigosos para as mulheres viverem incluem Arábia Saudita, Somália, Síria, Afeganestão e Índia.  A Índia é classificada como o país mais perigoso do mundo para as mulheres. A nação têm casos de estupro, ataques ácidos, assédio sexual, casamentos precoces, trabalho forçado e escravidão sexual que afetam as mulheres.

No Brasil, em 2019, houve um aumento de 7,3% nos casos de feminicídios – crimes de ódio motivados pela condição de gênero. São 1.314 mulheres mortas pelo fato de serem mulheres – uma a cada 7 horas, em média. Dados de 2018 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indicam que o Brasil atingiu recorde de registros de lesões corporais dolosas em decorrência de violência doméstica, com 263 mil casos. Também houve recorde de registros de estupro, com 66 mil vítimas.

No Reino Unido, todos os anos, cerca de 2 milhões de pessoas sofrem algum tipo de abuso doméstico – 1,3 milhão de vítimas são do sexo feminino (8,2% da população). Anualmente, mais de 100.000 pessoas no Reino Unido correm alto risco iminente de serem assassinadas ou ficarem gravemente feridas como resultado de abuso doméstico. Nos Estados Unidos da América, em média, 24 pessoas por minuto são vítimas de estupro, violência física ou perseguição por um companheiro. Quase 3  em cada 10 mulheres (29%), nos EUA , sofreram estupro, violência física e/ou perseguição por um parceiro. 1 em cada 4 mulheres (24,3%) com 18 anos ou mais, nos EUA, foram vítimas de violência física grave por um companheiro em sua vida.

Diante deste panorama, o isolamento físico imposto pela pandemia da COVID-19 traz à tona, de forma potencializada, alguns indicadores preocupantes acerca da violência doméstica contra a mulher. Segundo Vieira, Garcia e Maciel, as organizações voltadas ao enfrentamento da violência doméstica observaram um aumento deste tipo de violência por causa da coexistência forçada, do estresse econômico e de temores sobre o Coronavírus. No isolamento, com maior frequência, as mulheres são vigiadas e impedidas de conversar com familiares e amigos, o que amplia a margem de ação para a manipulação psicológica. Na China, os registros policiais de violência doméstica triplicaram durante a pandemia. Na Itália, na França e na Espanha também foi observado aumento na ocorrência de violência doméstica após a implementação da quarentena domiciliar obrigatória. No Brasil, segundo dados do Ligue 180 disponibilizados pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos houve um aumento de cerca de 17% no número de ligações com denúncias de violência contra a mulher durante o mês de março.

De acordo com Roesch, Amin, Gupta e García-Moreno, somente no Condado de Jianli, na província de Hubei, na China, um departamento de polícia relatou o triplo de casos de violência doméstica em fevereiro de 2020 em comparação com fevereiro de 2019. No Reino Unido, um projeto de rastreamento da violência contra as mulheres observou que as mortes por abuso doméstico entre 23 de março e 12 de abril mais que dobraram, foram 16 mortes, em comparação com a taxa média nos 10 anos anteriores.

Como pudemos observar a questão da violência doméstica é muito séria. Como consequência deste tipo de violência, as mulheres vítimas sofrem uma série de perdas e muitas vivenciam um processo de luto, muitas vezes, não reconhecido. Essas mulheres perdem, quando ainda estão no relacionamento: a independência, a segurança, o acesso às redes sociais, o sistema de crenças, a confiança nas pessoas e a esperança pelo final feliz que todos sonham ao se casarem.

Na outra ponta, quando as mulheres conseguem sair do sistema de aprisionamento físico e psicológico imposto pelo parceiro, outras perdas ocorrem: a moradia, as roupas (muitas não levam nem uma peça para o novo abrigo), o convívio com outros membros da família, a esperança de um futuro que ela esperava ter junto ao parceiro, a vida do jeito que ela havia sonhado e gostaria que tivesse sido, e a perda da autoestima. Há uma perda de si mesma diante da dor. Elas também vivenciam a autoculpa, a vergonha, sentimentos internos perturbadores e constrangimento. Ao sofrer a perda de um relacionamento, algumas sobreviventes de abuso doméstico agravam seu luto revivendo seu trauma. Segundo Holliger, este processo de luto, inúmeras vezes, não é reconhecido abertamente, não é validado socialmente, não é observado publicamente. A pessoa não tem socialmente direito de lamentar essas perdas.

Nos casos mais graves e extremos quando ocorre a morte da vítima, são os familiares e amigos a vivenciarem um processo de luto. Por trás de cada uma das mulheres vítimas de feminicídio está uma família enlutada e marcada pela dor da ausência e pela brutalidade dos crimes, geralmente cometidos por maridos ou ex-companheiros. Neste sentido, quando a vítima possuía filhos, estes vivenciarão dois lutos simultaneamente. O luto efetivamente pela morte da mãe e o luto simbólico pela perda do pai, que em muitos casos será preso e retirado da cena cotidiana dos filhos. Neste contexto, estas crianças também experienciarão outras perdas reais e simbólicas que podem causar um trauma igualmente de difícil manejo e  levá-las a um estado de ansiedade e depressão.

Há muito a dizer e fazer quando se trata de violência doméstica. Processar o trauma do abuso no contexto doméstico é de uma complexidade ímpar. A assimilação, a compreensão dos fatos e a elaboração do trauma acontecerá por meio de uma jornada árdua onde emoções como raiva, angústia, tristeza, culpa, arrependimento e alívio serão experienciadas. Não será nada fácil lidar com essas emoções e suas implicações. Estas são complicadas, confusas, frustrantes e, por vezes, exaustivas, mas é importante que essas emoções sejam expressas e validadas.

Na busca de uma estratégia e solução para a violência doméstica há necessidade do envolvimento das autoridades públicas, serviços sociais, advogados, profissionais da saúde e sociedade civil no sentido de proteger estas mulheres e validar suas necessidades urgentes de segurança. Mulheres que estão vivenciando violência doméstica, física ou psicológica, precisam de ajuda efetiva para denunciarem seus agressores e preservarem com dignidade suas preciosas vidas.

Nazaré Jacobucci
Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Perdas e Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Utilidade Pública: Mulheres em situação de violência ou testemunhas de violência contra mulheres – Denunciem!

Brasil:
Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 (24h00)
Campanha “Sinal Vermelho Para a Violência Doméstica” – A vítima de violência doméstica deverá fazer um X vermelho na palma da mão e mostrá-lo ao atendente de uma das farmácias que aderiram ao projeto. 10 mil farmácias do país já podem registrar denúncias de violência contra a mulher.

Reino Unido:
Ligue para o 999 se for uma emergência ou se você estiver em perigo imediato.
National Domestic Abuse Helpline –  0808 2000 247 (24h00)

Estados Unidos da América (EUA):
National Domestic Violence Hotline – Recursos e ajuda podem ser encontrados pelo telefone 1-800-799-7233. Pessoas surdas ou com deficiência auditiva podem usar o TTY 1-800-787-3224 (24h00).

Portugal:
Informação às vítimas de violência doméstica – 800 202 148 (24h00)

Referências:
Cunha, C. Feminicídio – Brasil é o 5º país em morte violentas de mulheres no mundo. Atualidades. Portal UOL Educação [Online]. Disponível em: https://vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/feminicidio-brasil-e-o-5-pais-em-morte-violentas-de-mulheres-no-mundo.htm?cmpid=copiaecola
Holliger, C. Loss, Grief, and Violence Domestic. PDF [Online]. Disponível em:
https://www.fcasv.org/sites/default/files/Loss,%20Grief,%20and%20Domestic%20Violence,%20Concetta%20Hollinger.pdf
Marques, E. S. et al. A violência contra mulheres, crianças e adolescentes em tempos de pandemia pela COVID-19: panorama, motivações e formas de enfrentamento. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro, v. 36, n. 4, 2020. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2020000400505&lng=pt&nrm=iso
National Domestic Violence Hotline [site]. Disponível em: https://www.thehotline.org/
Roesch, E.; Amin, A.; Gupta, J.; García-Moreno, C. Violence against women during covid-19 pandemic restrictions. BMJ 2020. Disponível em: https://www.bmj.com/content/369/bmj.m1712
Safe Lives. Ending Domestic Abuse [Site]. Disponível em: https://safelives.org.uk/
Sawe, B. E. The 10 Most Dangerous Countries For Women. World Atlas [Site]. Disponível em: https://www.worldatlas.com/articles/the-10-most-dangerous-countries-for-women.html
Velasco, C.; Caesar, G.; Reis, T. Mesmo com queda recorde de mortes de mulheres, Brasil tem alta no número de feminicídios em 2019. Monitor da Violência. Portal G1 [Online]. Disponível em: https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2020/03/05/mesmo-com-queda-recorde-de-mortes-de-mulheres-brasil-tem-alta-no-numero-de-feminicidios-em-2019.ghtml
Vieira, P. R.; Garcia, L. P.; Maciel, E. L. N. Isolamento social e o aumento da violência doméstica: o que isso nos revela?. Rev. bras. Epidemiologia,  Rio de Janeiro,  v. 23,  2020. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-790X2020000100201&lng=pt&nrm=iso

Etiqueta para a Morte, o Morrer e o Luto na Era Digital

“A essência da etiqueta para a morte, o morrer e o luto na era das mídias digitais é ter bom senso, discrição e cuidado para com a dor do outro” (Nazaré Jacobucci)

Desde fevereiro que a vida aqui na Europa começou a mudar gradualmente, e após 2 meses o que nos era familiar agora nos é estranho. O familiar e seguro tornou-se desconhecido e, por vezes, ameaçador. A estabilidade física e mental foi violentamente lançada ao medo e à insegurança. Estar com entes queridos e pessoas do nosso convívio social é definido agora como perigoso. O primeiro país a experimentar esse estranhamento fora a Itália, país severamente afetado pela Covid-19, e logo todo o velho continente sucumbiu ao vírus. A vida como pensávamos não existe mais. Tivemos que implementar, num curto espaço de tempo, novos hábitos, e estes incluem a digitalização do morrer e da morte.

Lembro-me de que certa vez, quando estava ministrando uma aula sobre “O Morrer, a Morte e o Luto nas Mídias Sociais” uma aluna questionou-me sobre a questão dos velórios virtuais, que já eram uma opção nos Estado Unidos, e o quanto esses poderiam ser um complicador para o processo de luto. Eu respondi que estar presente num momento único como este é muito importante e é sempre a melhor opção. Participar dos rituais fúnebres faz parte do processo de assimilação da perda e, consequentemente, contribui para o processo de luto. No entanto, o velório virtual poderia ser uma boa opção para aqueles que estão em outra cidade, ou até mesmo em outro país, poderem se fazer presentes no momento de despedida. Agora o despedir-se virtualmente não é uma alternativa adicional mas, em muitos lugares, a única opção.

Neste momento a tecnologia é uma aliada para nos conectarmos com pessoas em final de vida, familiares e amigos que estão perdendo entes queridos, não apenas pela Covid-19, mas também por outras comorbidades. A psicóloga Raquel Alves, de quem tenho o privilégio de ser amiga, disse algo interessante esta semana: nós estamos em isolamento físico, não social. Concordo com Raquel, pois os laços afetivos que baseiam as nossas relações sociais podem ser transportados para o ambiente virtual. No entanto, para interagirmos nesse ambiente, assim como na interação presencial, precisamos seguir algumas regras básicas. Neste sentido, após ler um guia cuidadosamente preparado pela plataforma Art of Dying Well que publicou Deathbed Etiquette, um guia de Etiqueta para o Leito de Morte que fornece conselhos e orientações durante este momento difícil, e por ser uma estudiosa da morte e do luto em ambientes virtuais há algum tempo, decidi escrever algumas dicas que podem nortear a comunicação na era digital.

Segundo Crocker e McLeod, a forma como interagimos online quando alguém está morrendo ou morreu deve ser modelada sobre o que faríamos se pudéssemos estar lá pessoalmente. Não é incomum a pessoa sentir-se constrangida ou insegura sobre o que dizer ou como agir online e/ou offline. Eu penso que, a chave para se comunicar, no contexto de morte e luto, seja agir com discrição. Abaixo irei discorrer sobre dois contextos que carecem de atenção neste momento.

No contexto hospitalar, infelizmente, hoje há severas restrições para se visitar alguém que esteja em final de vida. Portanto, nem todos os familiares poderão visitar um ente querido presencialmente. Mas é possível obter informações sobre o familiar por meio da tecnologia, claro, dentro das possibilidades do paciente e da própria instituição hospitalar. Caso o paciente esteja consciente, o ideal seria garantir que ele tenha um telefone ou tablet junto ao seu leito. Pois assim, ele próprio pode se comunicar com familiares e amigos, amenizando a sensação de estar sozinho num momento de extrema fragilidade.

Caso o paciente esteja numa situação mais comprometida clinicamente, então, nem todos poderão ter este encontro virtual, talvez, sejam escolhidos os familiares mais próximos do paciente e, na medida do possível, um familiar poderia ser designado para ser o porta voz das notícias para o restante da família. Mas, esteja preparado. Pode ser que, no final de vida, seu familiar possa estar muito mal ou muito sonolento para falar. Mesmo virtualmente tente fazer contato visual. Pode ser um momento para “sem palavras”; apenas um momento de companhia um do outro. Proporcionar um encontro virtual entre a pessoa em final de vida e seus familiares pode trazer um conforto psíquico emocional que fará diferença no processo de luto.

No contexto dos funerais, há diversas funerárias ao redor do mundo colocando à disposição dos clientes a forma online para velórios. Caso você seja convidado para um velório virtual e este disponha do serviço de enviar mensagens eletrônicas que serão entregues aos familiares posteriormente, escreva algo simples. Exemplo: enderece a sua mensagem para uma pessoa específica da família, a quem você for mais próximo. Você pode escrever – sinto muito por sua perda, meus sentimentos. Também poderá escrever um pequeno elogio à pessoa que morreu – Sr. ou Sra. X era uma pessoa incrível, foi um prazer trabalhar com ele/ela. E você pode terminar a mensagem se colocando à disposição para uma eventual necessidade que aquela família possa ter – deixe-me saber se há algo que possamos fazer para ajudá-lo. Assine com seu nome e sobrenome, caso você tenha uma apelido o coloque entre aspas, para que a pessoa possa identificá-lo de forma rápida.

Em relação às mídias sociais tais como: Facebook, Instagram e WhatsApp há de se ter muito cuidado ao expressar seus sentimentos. A primeira regra é: não comunique em qualquer mídia social a morte de alguém antes de se certificar que um familiar direto o tenha feito. Quando tomar conhecimento da morte de um familiar e/ou um amigo seja sucinto no seu comentário. Para mim não há melhor frase que esta – sinto muito por sua perda, meus sentimentos. Também não é aconselhável questionar nos comentários o porquê da morte, talvez, a pessoa enlutada não queira que a doença do ente querido que morreu seja exposta, por exemplo, no Facebook. Contenha a sua curiosidade.

Outra questão que muito tem me preocupado é em relação à exposição de pessoas, que não são figuras públicas, e que morreram em decorrência da Covid-19. Na semana passada eu tomei conhecimento de um grupo que fora criado no Facebook com a intenção de ser um memorial em homenagem às pessoas que morreram em virtude do Coronavírus. A intenção pode ser válida. No entanto, um familiar deve ser consultado e este precisa autorizar o uso da imagem de seu ente querido numa plataforma pública. Outro ponto a ser questionado é se a pessoa que morreu gostaria de pertencer a um memorial construído por pessoas totalmente desconhecidas por ela. Será que esta pessoa iria gostar de “viver para sempre” numa nuvem digital? Infelizmente essas pessoas que morreram não tiveram tempo, talvez, nem conhecimento para designar um cuidador para sua herança digital.

Há 2 anos eu estudo e trabalho com algo denominado Legado Digital, ou seja, o que a pessoa quer fazer com sua herança digital após a sua morte. Tenho orientado diversas pessoas sobre este assunto novo, complexo e delicado. Portanto, se você não é um familiar próximo da pessoa que morreu, você precisa ter muito cuidado ao expor a imagem e o motivo da morte desta pessoa em sua mídia social. Essa atitude de compartilhar a morte em plataformas virtuais, pode acarretar agravos no processo de luto do familiar que perdeu um ente querido. Este familiar, talvez, ainda esteja na primeira etapa de assimilação da perda e ver a imagem de seu ente querido exposto em mídias de pessoas desconhecidas pode lhe trazer desconforto e tristeza.

Como observou a Dra. Kathy Kortes-Miller, em seu livro Talking About Death Won’t Kill You (Falar sobre a morte não vai te matar), e como foi pontuado neste texto o quão complexo é navegar ao redor da morte, do morrer, do luto e da perda no universo online. No entanto, como disse Crocker e McLeod, enquanto vamos nos adaptando às normas e regras da comunicação por meio da tecnologia virtual, a maneira como nos conectamos e nos comunicamos com o humano permanecem as mesmas. Seja gentil, sincero, útil e, principalmente cuidadoso para com a dor do outro. Este cuidado pode ajudar seu familiar e/ou amigo que está vivenciando um momento de fragilidade a passar pela dor da perda com mais segurança.

Nazaré Jacobucci
Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Perdas e Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Referências:
Art of Dying Well [site]. Deathbed etiquette and the coronavirus (COVID-19). Disponível em: https://www.artofdyingwell.org/caring-for-the-dying/deathbed-etiquette/deathbed-etiquette-and-the-coronavirus-covid-19/
Crocker, A.; McLeod, V. Digital legacy plan: a guide to the personal and practical elements of your digital life before you die. Canada: International Self-Counsel Press Ltd., 2019. 120 p. (Series: Self-Counsel reference series).
Kortes-Miller, K. Talking About Death Won’t Kill You: The Essential Guide to End-of-Life Conversations. Canada: ECW Press, 2018. 216 p.

Impermanência: Expectativa e Consciência

“Entre todas as percepções, a percepção da impermanência é a suprema” (Buda)

Como faço todos os anos na primeira semana do novo ano, eu tiro algumas horas para refletir sobre o que aprendi com as experiências vivenciadas no ano que se findou. Revisito as alegrias, as tristezas, as decepções, as frustrações, as perdas, mas também os sonhos, as vitórias e as conquistas. Também reflito sobre alguns questionamentos que familiares, amigos, alunos, pacientes e leitores me fizeram ao longo do ano. Uns são tão interessantes que anoto no meu caderno de “coisas interessantes para pensar”. Sim! Eu tenho um caderno de capa vermelha para tais anotações. Enfim, é um momento de introspecção.

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Suicídio: O mito dos 90%

“Não tenho certeza de nada, mas a visão das estrelas me faz sonhar”
(Vicent van Gogh – pintor holandês, morreu aos 37 anos num ato de suicídio)

No dia 10 de setembro, foi comemorado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Durante todo o mês, prédios públicos estarão iluminados com a cor amarela, como forma de alerta. O movimento “Setembro Amarelo” é estimulado mundialmente pela IASP – Associação Internacional pela Prevenção do Suicídio – e tem por objetivo conscientizar a população sobre a realidade do suicídio e mostrar que existe prevenção. A ideia é discutir o assunto e divulgar ações preventivas. Continuar lendo

Envelhecimento: Reflexões sobre o processo de luto e perdas da pessoa idosa

“Pobre velho que, no curso de sua longa vida, não tenha se apercebido que deve arredar o medo da morte” (Marco Túlio Cícero)

Estou temporariamente residindo em Lisboa, devido ao meu curso de mestrado em cuidados paliativos, e andando pelo meu bairro, no transporte público e nas dezenas de cafés espalhados por Lisboa, observei que esta é uma cidade com um número considerável de idosos, assim como em Reading, minha cidade na Inglaterra e demais cidades europeias. Portugal e Reino Unido têm hoje aproximadamente mais de 2 milhões e 3 milhões de idosos respectivamente.

Contudo, segundo o Ageing Working Group of the Economic Policy Committee (EPC) e o European Commission’s Directorate-General for Economic and Financial Affairs (DG ECFIN), a Alemanha e a Itália é que possuem a maior percentagem de idosos acima de 65 anos. A União Europeia possui uma projeção de 520 milhões de pessoas idosas em 2070. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de pessoas com idade superior a 65 anos chegará a 2 bilhões até 2050. Isso representará um quinto da população mundial.

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Separação Conjugal: Um luto existencial

“Agora que faço eu da vida sem você
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar” (Fernando Mendes)

O luto é um processo psicoemocional que todo ser humano vivencia quando passa por uma perda significativa. Num processo de divórcio haverá múltiplas perdas pela ruptura do vínculo e um período para o luto será necessário. Não tente evitar, é necessário vivê-lo!

Um casal não acorda pela manhã com a descoberta de que deseja se separar. Isso é um processo. Quem passa por essa experiência se submete a um recolhimento reflexivo aflitivo porque, muitas vezes, não consegue assimiliar facilmente a realidade de seus sentimentos. Quando um casal decide pela separação, ambos vivenciam diversos tipos de perdas, sendo que a mais frequente é a perda da expectativa que se criou em relação àquele casamento. A pessoa vivenciará um luto existencial, um luto pela convivência que não deu certo, e até mesmo um luto pelo investimento afetivo que não vingou.

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Papai: ausência que se tornou uma delicada lembrança

“Pai
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz”. (Fábio Jr.)

A morte visitará todos nós um dia, mas ela não tem o costume de nos avisar quando isso acontecerá. Sua agenda é completamente desconhecida. Pode ser numa fria manhã de inverno ou num belo entardecer de primavera. O fato é: ela pode nos tirar de cena a qualquer momento, assim como quem amamos. Eu tenho a consciência de como a vida é permeada pela imprevisibilidade e impermanência desde criança.

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A Imprevisibilidade acontece nas horas, nos minutos, nos segundos…

“Somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”. (Ayrton Senna)

Estamos vivenciando um momento único. Goste você ou não, a Copa do Mundo é este momento. Povos dos 5 continentes estão reunidos num mesmo local experienciando os mesmos sentimentos e emoções. Tudo pode acontecer naqueles incríveis e imprevisíveis 90 minutos e, antes que o juiz sopre seu apito sentenciando o fim, tudo pode acontecer.

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Laços Familiares: Ressignificando a morte de um irmão

“Ter um irmão é ter, para sempre, uma infância lembrada com segurança em outro coração”. (Tati Bernardi)

Eu costumo dizer que este blog é um presente para a minha alma pois todos os dias eu sou agraciada com histórias que me fazem refletir sobre a importância do amor e dos vínculos afetivos que construímos ao longo de nossa existência. Muitas das histórias me fazem crer que devemos amar o outro intensamente, sem medo e sem restrição, para que o sentido da vida se faça valer.

A história que compartilho com vocês a seguir, com a devida autorização, é da Carolinne Kandelman, que perdeu o irmão há dois anos. Na maioria das vezes o luto pela perda de um irmão é ofuscado ante a dor dos pais. As pessoas voltam seu olhar e cuidado para os pais, pois enterrar um filho é, de fato, uma tarefa dificílima. No entanto, ao perdermos um irmão estamos rompendo com um dos laços mais significativos de nossas vidas. Não existe uma palavra para descrever a perda de um irmão. Se você perde seus pais, você é órfão. Mas, se você perde um irmão não há um adjetivo que caracterize essa perda. Por isso, a importância de reconhecermos e cuidarmos da dor emocional desse irmão/irmã.

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Filmes: Possibilidades de Reflexão sobre a Morte e o Luto

Antonius – Nenhum homem pode viver com a morte e saber que tudo é nada
Morte – A maioria das pessoas não pensam nem na morte ou no nada”.
(Filme O Sétimo Selo – Ingmar Bergman)

Eu sou uma cinéfila confessa. Considero a sétima arte absolutamente sublime. Como professora, considero filmes uma ótima ferramenta de auxílio para a compreensão de diversos conceitos. Os filmes não só nos divertem, mas são capazes de nos fazer refletir, favorecendo assim novas formas de lidar com questões e conflitos do nosso cotidiano. Compartilho, então, algumas sugestões de filmes que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.

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