Vivenciar a dor, dê um tempo para o tempo do luto

“O luto não tem um tempo determinado para o seu fim, sua duração corresponde ao tempo que nossa psique leva para assimilar a ausência e integrar a saudade” (Nazaré Jacobucci)

Uma das perguntas mais comuns que nós especialistas em luto recebemos ´é – quando termina o luto? O luto tem um prazo determinado para acabar? No entanto, para essa pergunta não há uma resposta pronta. Para respondê-la precisamos ponderar diversos pontos relativos à perda e ao vínculo afetivo que a envolve. É necessário avaliar, inclusive, as perdas secundárias, que podem ser muito significativas.

Quando perdemos um ente querido, seja um familiar ou um amigo, num primeiro momento nos sentimos vazios, tristes, angustiados, e nos é difícil até mesmo nomear essa dor. Segundo Machado Jr. (2018), a dor é um ponto cego, uma suspensão, uma bagunça que perturba o senso de realidade. É uma ruptura no tempo, um “claque” que estala em algum lugar dentro de nós. Cadê? Onde está? O que houve? Sim, pode-se dizer, é evidente, a pessoa se foi, e isso é triste. Morreu, e é fato. Mas nem tudo ou quase nada se encaixa. A dor é uma agitação estranha, uma névoa que nos envolve, uma ponta de espinho que toca fundo em um ponto minúsculo, pequenininho mesmo, que pesa de forma mortificante. No entanto, a intensidade dessa dor singular descrita por Machado, que nos desorganiza dependerá muito do tipo de vínculo afetivo que tínhamos com essa pessoa, qual era o significado desse ser em nossa vida, e as circunstâncias da morte.

Compreender a realidade da morte, consequentemente da perda da presença, é uma tarefa complexa e requer tempo. É nesse tempo, que é diferente para cada indivíduo, que um processo de luto acontecerá. Fazendo um paralelo com a mitologia grega, o tempo do luto é o tempo de Kairós. Os gregos antigos possuíam três conceitos para representar o tempo: Chronos, Kairós e Aíôn (o tempo sagrado, eterno e imensurável). O tempo de Chronos é o tempo medido pelo relógio, pelo calendário, pela rotina cotidiana. Ele é um limitador para a quantidade de atividades realizadas habitualmente. O tempo de Kairós é a forma qualitativa e pessoal do tempo, ele representa o tempo que não pode ser controlado cronologicamente, por isso ele  pode não acompanhar o tempo de Chronos. Neste sentido, é no tempo de Kairós que atravessaremos o processo de luto, tempo esse absolutamente necessário para nos reorganizarmos perante a vida novamente.

Recentemente eu, juntamente com Dra. Gabriela Casellato, uma mestra em perdas e luto, participamos de um Simpósio idealizado e organizado pela Universidade Vale do Rio Verde – Três Corações, no qual falamos sobre morte e luto na pandemia. Inevitavelmente essa pergunta sobre o tempo do luto surgiu entre os alunos. Vejamos nossos pontos de vista sobre o tema.

Na minha experiência clínica, eu observo que quando uma morte acontece dentro de um determinado padrão esperado de acontecimentos, o processo de luto, na maioria das vezes, se dará de uma forma natural. Deste modo, desde 2016 que não uso mais a terminologia “luto normal”. Eu a troquei por “luto natural”, por entender que a morte é um fenômeno natural que faz parte do desenvolvimento humano. Agora, como disse Dra. Gabriela, não podemos colocar o processo de luto em “caixinhas” pré-determinadas de tempo, pois por ser um processo absolutamente individual não podemos determinar o tempo, é impossível. Um exemplo clássico são de pais que perdem seus filhos num acidente ou por suicídio. Talvez eles demorem anos para assimilarem essa perda e isso não significa que eles estejam vivenciando um luto complicado. Às vezes, um processo prolongado de luto significa apenas que a pessoa está atravessando o tempo de Kairós com os recursos internos que possui, e isso é de uma singularidade ímpar.

A experiência de atravessar um processo de luto exigirá um trabalho psíquico que, às vezes, pode ser complexo e árduo. Esse atravessamento é muito importante. É preciso experienciar esse “inverno” que abate a alma, para voltarmos a caminhar pela vida novamente. Observa-se progresso no processo de luto quando a pessoa é capaz de pensar sobre a sua perda sem a mesma intensidade de dor que foi previamente experienciada. Este progresso é constituído de pequenos passos que levam a pessoa a estar cada vez mais engajada nas atividades da vida cotidiana, o que leva ao seu bem estar psicoemocional.

Penso que o importante seja acolher e dar tempo à sua dor. Permitir-se caminhar pelo processo de luto no tempo de Kairós, mesmo que a sociedade te submeta a todo momento ao tempo de Chronos. O tempo de Kairós nos permite ter, após uma perda significativa, uma compreensão mais intensa sobre o morrer, a morte e o sentido do viver.

Nazaré Jacobucci
Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Perdas e Luto e Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Referências:
Maesso, M. C. O tempo do luto e o discurso do Outro. Ágora (Rio J.),  Rio de Janeiro,  v. 20, n. 2, p. 337-355,  Aug.  2017. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982017000200337&lng=en&nrm=iso.
Machado Jr., P. P. A ruptura do tempo na experiência do luto:: um aprendizado. Jornal de Psicanalise,  São Paulo,  v. 51, n. 95, p. 273-284, dez.  2018 .   Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-58352018000200022&lng=pt&nrm=iso.

O Significado da Morte e o Processo de Luto na visão do Cristianismo Católico

“O amor é tão forte quanto a morte” (Cântico dos Cânticos c.8, v.6)

Dando continuidade aos posts sobre a compreensão da morte em determinadas religiões, abordaremos neste post o Cristianismo Católico Romano. Exploraremos como os fiéis dessa religião se relacionam com a realidade da morte e buscaremos compreender o significado de seus rituais.

O Cristianismo tem sua origem na figura de Jesus Cristo, um judeu da Galileia, pois seus pais terrenos (Maria e José) eram judeus, descendentes de Abraão. Após o batismo, ele foi batizado por João Batista, Jesus começa a sua missão de levar a palavra de Deus e fazer milagres. No entanto, foram seus apóstolos (discípulos), como Pedro e Paulo, tempos depois de sua morte por volta da década de 50 d.C., que espalharam os ensinamentos e as histórias sobre Jesus em Roma e na Europa. O nome Jesus é a forma latina do grego Iesous, que por sua vez é a transliteração do hebraico Jeshua, ou Joshua, que significa “salvação”. E Cristo, ou Christos, é equivalente ao grego para a palavra hebraica Messias, que significa “ungido”. Assim, o termo Cristo ou Messias era um título, ao invés de um nome próprio.

Neste contexto, depois da morte de Jesus Cristo, o Cristianismo, denominação para os seguidores do Messias Jesus Cristo, se disseminou pelo Oriente Médio e pela Europa. Naquela época, o Império Romano dominava essas regiões. Inicialmente os romanos tinham sua própria religião, por isso perseguiam os cristãos. Mas no ano de 313 d.C. o Imperador Constantino converteu-se ao Cristianismo e permitiu o culto dessa religião em todo o Império. Entretanto, somente no ano de 380 d.C. o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano por ordem do imperador Teodósio I, que tomou a medida numa lei conhecida como Édito de Tessalônica.

O termo católico deriva do grego kata (junto) e holos (todo), isto é: universal, que abrange tudo e reúne a todos. A palavra foi aplicada pela primeira vez à Igreja de Roma no século II por Inácio de Antioquia, um de seus fundadores. Mas ela só passa a ser adotada oficialmente como um dos atributos essenciais da instituição a partir do Concílio de Constantinopla, no ano 381, afirma o teólogo Faustino Teixeira. O catolicismo é uma denominação, e é, portanto, um subconjunto do Cristianismo. Todos os católicos são cristãos, mas nem todos os cristãos são católicos. Um católico romano refere-se a um cristão que segue a religião católica como é transmitida através da sucessão dos Papas de Roma e do Império do Vaticano ao longo da história. O Papa é o líder da Igreja Católica Romana. O catolicismo é uma das mais expressivas vertentes do Cristianismo e, ainda hoje, congrega a maior comunidade de cristãos existente no planeta. Segundo estatística recente do Vaticano, cerca de um bilhão e trezentos milhões de pessoas professam ser adeptas ao catolicismo, que tem o Brasil, México e Filipinas como os principais redutos de convertidos.

As principais crenças do catolicismo estão embasadas na crença em um único Deus verdadeiro que integra a Santíssima Trindade, que vincula a figura divina ao seu filho Jesus e ao Espírito Santo. Além disso, o catolicismo defende a existência da vida após a morte e a existência do céu, do inferno e do purgatório como diferentes estágios da existência póstuma. A ida para cada um desses destinos está ligada aos atos do fiel em vida e também determina o desígnio do cristão na chegada do dia do Juízo Final. A liturgia católica reafirma sua crença através dos sete sacramentos que simbolizam a comunhão espiritual do fiel junto a Deus. Entre esses sacramentos estão o batismo, a crisma, a eucaristia, a confissão, a ordem, o matrimônio e a extrema-unção. Os ensinamentos da Igreja Católica são provenientes das Sagradas Escrituras (Bíblia). A Bíblia Sagrada, é uma coleção de livros canônicos dividido em duas partes: o Antigo Testamento e o Novo Testamento.

Para compreendermos um pouco sobre os ritos de passagem do Cristianismo Católico, eu tive a honra de entrevistar o Padre Kécio Henrique Feitosa, sobre questões que permeiam este tema. Abaixo seguem os principais pontos da entrevista.

Como os cristãos católicos compreendem a morte? Qual o significado?
A morte para os católicos significa caminhar ao encontro da eternidade. Para quem pratica a religião, a vida não é tirada, mas transformada. O  homem de fé anseia por essa eternidade. Após a morte, o homem não é mais submetido ao tempo e ao espaço. Dentro desse mistério, o céu e o inferno não são lugares geográficos, mas “estados”. O céu é a participação plena de Deus, enquanto o inferno é o distanciamento. É como se o inferno significasse não participar mais do amor de Deus. Até gostaríamos de ser amados, mas agora não há mais essa possibilidade . Mas, a chegada da morte para um ente querido é difícil, e a separação nem sempre é tranquila, mas o padre lembra que é necessário acolher a finitude da vida.

Dentre os rituais cristãos de passagem, qual o significado da extrema-unção?
Unção dos enfermos é um rito cristão que consiste em ungir os enfermos com um óleo sagrado. Na Igreja Católica, o ritual é também denominado “Santa Unção” ou “Último Sacramento”. A unção dos enfermos tem o objetivo de confortar o doente, perdoar os seus pecados e transmitir um sentimento de alívio espiritual e físico. O ritual de unção dos enfermos segue as palavras do Apóstolo São Tiago, que diz: “Alguém de vós está enfermo? Chame os presbíteros da Igreja e orem sobre ele, ungindo-o com o óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o aliviará. E se tiver algum pecado, lhe será perdoado” (Tiago 5, 14-15).

A “Extrema-unção” é também um sacramento cristão, assim denominado por ser recebido pelos cristãos que estão em risco iminente de perder a vida. O efeito da Extrema-unção é preparar o cristão para um momento particularmente difícil da sua vida, em que irá enfrentar a morte e seguir em direção à vida eterna.

Qual a visão do Cristianismo sobre o mundo espiritual? Há vida após a morte?
Cada vez mais nos afastamos do fenômeno morte. Mas toda a nossa vida de fé se encaminha para o momento da partida para a casa definitiva. Temos que tomar consciência de que a vida do ser humano, por ser criação, tem um começo e um fim. Não acreditamos em reencarnação. Cremos que a alma criada por Deus, sobrevive após a separação do corpo e tende a se encontrar com seu criador e receber a recompensa por sua vida, ou a condenação por seus crimes. A vida é única e vivida nesta terra uma só vez. Somos matéria e espírito, assim, temos algo de divino em nós.

Segundo a tradição cristã  católica há três destinos para a alma do indivíduo: o céu, o purgatório e o inferno. A igreja não os define como lugares palpáveis mas sim, estados sobrenaturais onde a alma viverá. Poderia nos explicar cada uma dessas dimensões?
A vida é um dom de Deus, porém estamos de passagem neste mundo e a qualquer momento podemos perder alguém querido, alguém que amamos. Quem não perdeu é bom estar preparado, pois se existe algo certo na vida, é a morte. Ao olharmos para a morte devemos valorizar a vida, como uma forma e oportunidade de nos prepararmos para a eternidade com Deus. O próprio Jesus garante que é da vontade do Pai que não se perca nenhum daqueles que lhe deu, e que todo aquele que n’Ele crê tenha a vida eterna, e o ressuscitará no último dia (Jo 6, 37-40).

Céu é o prêmio, ou seja, e o destino para os que em sua vida terrena desejaram o bem, mas sobretudo, o Sumo Bem que é Deus.
Purgatório é o caminho que a maioria dos homens iram trilhar até o céu. Pois, precisam pagar as penas dos seus pecados para chegar a visão beatifica de Deus.
Inferno é o castigo, ou seja, o destino para o que que em sua vida terrena desejaram o mal, fizeram o mal, e rejeitaram o Sumo Bem que é Deus e a sua salvação.
Ambos devem ser vistos com uma vida sobrenatural, assim sendo, entender que não existe espaço ou tempo no mundo espiritual. É uma realidade que está para além da nossa concepção humana, tão presos a matéria.

Mas existe o purgatório, o céu e o inferno?
Continua o Catecismo da Igreja Católica: “Cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja através de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do céu, seja para condenar-se de imediato para sempre” (CIC 1022). Então, acreditamos que imediatamente após a morte a nossa alma já terá o seu destino eterno definido.
O céu, para aqueles que morreram em estado de beatitude, como por exemplo: Nossa Senhora e os santos. Cremos foram direto para Deus.
O purgatório para aqueles que estão destinados ao céu, mas antes tem de viver o estado de purificação. Purgatório não é lugar, mas um estado de purificação das almas após a morte.  A Igreja chama purgatório a esta purificação final dos eleitos que é absolutamente distinta do castigo dos condenados.
E o inferno, para aqueles que não aceitam a salvação, concedida por Deus.

Deus não condena ninguém ao inferno. O inferno é uma auto- exclusão da graça, é uma pessoa que no uso do seu livre arbítrio rompeu com Deus, em pecado grave e insistiu em permanecer no pecado grave. Mas existem almas, pessoas que na hora da morte no juízo particular não romperam com Deus, ainda há muito que ser purificado e é bem nessa dimensão que existe o purgatório.

 Qual o significado da missa de sétimo dia? Por que rezar pelos mortos?
“Orando pelos mortos, a Igreja contempla, antes de tudo, o mistério da Ressurreição de Cristo que nos obtém a vida eterna”.
Na realidade brasileira, reza-se ainda uma Missa de sétimo dia por causa da extensão territorial. Os parentes que não podiam chegar a tempo para velar o morto vinham depois de alguns dias; assim, a Missa de sétimo dia permitia que o parente distante pudesse estar com a família e rezar pelo defunto.
Por fim, reza-se a Missa de sétimo dia, porque desde o Gênesis havia o costume fazer luto pelos mortos, por outras passagens que falam dessa realidade de purificação da alma do falecido, reza-se devido à fé católica na ressurreição dos mortos, reza-se pela oportunidade de um parente distante estar com a família do falecido e rezar com a família. Reza-se uma Missa de sétimo dia para fazer alusão ao dia que o Senhor descansou. Rezar é ainda uma oportunidade para aqueles que ficaram, louvar a Deus pelo dom da vida daquele que partiu, rezar uma Missa de sétimo dia, para aqueles que ficaram, é uma oportunidade de pensar como está a própria vida.

Os cristãos católicos acreditam na reencarnação?
Não. Nós CREMOS na RESSURREIÇÃO.
A doutrina cristã sobre a ressurreição se encontra o Catecismo da Igreja Católica, do número 988 ao 1001.
O número 989 assinala: “Nós cremos e esperamos firmemente que, tal como Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos e vive para sempre, assim também os justos, depois da morte, viverão para sempre com Cristo ressuscitado, e que Ele os ressuscitará no último dia. Tal como a d’Ele, também a nossa ressurreição será obra da Santíssima Trindade”.

Poderia nos explicar a ideia central do Juízo Final, dia em que todos ressuscitarão dos mortos e serão separados entre os justos e injustos?
As ações de cada pessoa serão expostas e julgadas com imparcialidade por Deus (Apocalipse 20:12-13). Todos que não tiverem seus nomes escritos no Livro da Vida serão condenados por causa de seus pecados. Eles serão lançados no lago de fogo, junto com o diabo e seus anjos, onde sofrerão castigo eterno (Apocalipse 20:15).
Os verdadeiros seguidores de Jesus terão seus nomes escritos no Livro da Vida. Eles escaparão do julgamento no dia do Juízo Final e vão morar no Céu com Jesus (Mateus 25:32-34). Mas os que apenas fingem amar Jesus serão revelados e condenados.

O Juízo Final é injusto?
Não, o Juízo Final não é injusto. Uma pessoa pode ser muito boa mas se cometer um crime, vai receber castigo. Da mesma forma, todo pecado merece castigo. Deus não se alegra em castigar mas Ele é justo e perfeito e não tolera o pecado. O castigo do pecado é ficar eternamente separado de Deus (Romanos 3:23).
Quem rejeita Jesus como seu salvador não quer estar com Deus. Tudo de bom vem de Deus, por isso uma eternidade sem Deus é eterno sofrimento.

Os cristãos podem ser cremados?
A Igreja não é contra a cremação; ao contrário, até a permite. Há casos em que a cremação é necessária devido a alguma doença grave do falecido ou no caso de ele ter morrido fora de seu país e a família não teve condições de transportar imediatamente o corpo. Há também casos em que a pessoa desejava mesmo ser cremada. No entanto, uma coisa precisa ficar clara: a cremação não deve ter fins supersticiosos, nem de uma crença que não condiz com a fé católica. O Catecismo nos ensina: “A Igreja permite a cremação, a não ser que esta ponha em causa a fé na ressurreição dos corpos”
(n. 2301).

Às vezes, alguns filmes apresentam cenas muito emocionantes, quando o ator espalha as cinzas da pessoa amada como se a presença dela fosse ficar por ali vagando. Essa não é a nossa fé. Como católicos cristãos, nossa fé é de ressurreição. Quando se faz a opção pela cremação, seja por um pedido da pessoa ou por questão de saúde, tal atitude não deve negar a fé na ressurreição.

Dentre os rituais ligados a morte o que os familiares fazem com os pertencem das pessoas que morreu?
O processo de luto não deve ser apressado e varia de pessoa para pessoa com relação à intensidade e duração. Os enlutados que vivenciam um luto muito doloroso apresentam mais dificuldade para lidar com objetos diretamente relacionados com o falecido.

Como é vivenciado o processo de luto pelos familiares e amigos?
O luto é vivenciado de maneira singular; não existe um padrão de reação; há variações em intensidade e duração, influenciadas por fatores como o contexto da morte e as características do enlutado. Por isto, é necessário não interpretar como patológicas, reações que são naturais. Para que o apoio ao indivíduo enlutado possa ser efetivo e para que equívocos sejam evitados, é necessário considerar as culturas, as crenças, os contextos e as dinâmicas dos relacionamentos familiares, bem como identificar fatores que possam prejudicar o enfrentamento do luto, como a não manifestação dos sentimentos, o adiamento do processo ou a negação da perda. A elaboração do luto pode ser compreendida como a fase em que há diminuição do sofrimento frente às lembranças do falecido, havendo a retomada do interesse pela vida, por parte dos familiares.

Mesmo quando o processo de luto é considerado normal, isto não significa que não exista sofrimento ou necessidade de adaptação à nova estrutura familiar. Logo, encontrar espaços onde seja possível expressar-se livremente, compartilhar a dor e se deparar com outras pessoas que experimentam sentimentos e dificuldades semelhantes ameniza o sofrimento e favorece a busca pelas soluções dos problemas enfrentados.

Compreender a linguagem simbólica das religiões é de suma importância para que possamos oferecer um melhor cuidado aos nossos pacientes, principalmente os pacientes que estão hospitalizados e/ou em final de vida.

Nazaré Jacobucci
Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Perdas e Luto / Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Este post teve a colaboração do Padre Kécio Henrique Feitosa, atualmente ele desempenha sua tarefa como pároco na Paróquia de São João Batista na cidade de Dourado – Diocese de São Carlos / SP. Padre Kécio cursou Filosofia e Teologia na Pontifícia Universidade Católica de Campinas – SP.

Referências:
Britannica Escola [online]. Catolicismo. Disponível em: https://escola.britannica.com.br/artigo/catolicismo/482389
Campisi, T.; Silvonei, J. Aumentam os católicos no mundo, são 1 bilhão e 300 milhões. Vaticano News [online]. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-03/aumentam-os-catolicos-no-mundo-bilhao-300-milhoes.html
Farias, L. A morte é uma passagem. Visão da Igreja Católica. Medium [online]. Disponível em: https://medium.com/@leonardofdeabreu/a-morte-%C3%A9-uma-passagem-vis%C3%A3o-da-igreja-cat%C3%B3lica-88c4ded0e58c
Maas, A. Origin of the Name of Jesus Christ. The Catholic Encyclopedia. Vol. 8. New York: Robert Appleton Company, 1910. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/08374x.htm
Sousa, R. G. Catolicismo. Brasil Escola [online]. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/religiao/catolicismo.htm.
Super Interessante [online]. Qual é a origem da palavra católico? Disponível em:
https://super.abril.com.br/historia/qual-e-a-origem-da-palavra/

Perdas no Contexto da Violência Doméstica: Um Luto Complexo

“Tento esquecer o medo do presente, superar os traumas que sofri e enfrentar o mundo sem você” (Nijair Araújo Pinto)

Estamos vivenciando um momento de crise e há situações que podem agravar a experiência deste momento. A violência doméstica contra mulheres é uma destas experiências. Infelizmente constatou-se que este problema seríssimo se agravou muito neste período de isolamento físico.

A violência contra mulheres possui números alarmantes ao redor do mundo. Segundo Carolina Cunha, as mortes violentas por razões de gênero são um fenômeno global e vitimizam mulheres todos os dias, como consequência da posição de discriminação estrutural e da desigualdade de poder, que inferioriza e subordina as mulheres aos homens. O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de Feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres. No entanto, os 5 países considerados mais perigosos para as mulheres viverem incluem Arábia Saudita, Somália, Síria, Afeganistão e Índia.  A Índia é classificada como o país mais perigoso do mundo para as mulheres. A nação têm casos de estupro, ataques ácidos, assédio sexual, casamentos precoces, trabalho forçado e escravidão sexual que afetam as mulheres.

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Etiqueta para a Morte, o Morrer e o Luto na Era Digital

“A essência da etiqueta para a morte, o morrer e o luto na era das mídias digitais é ter bom senso, discrição e cuidado para com a dor do outro” (Nazaré Jacobucci)

Desde fevereiro que a vida aqui na Europa começou a mudar gradualmente, e após 2 meses o que nos era familiar agora nos é estranho. O familiar e seguro tornou-se desconhecido e, por vezes, ameaçador. A estabilidade física e mental foi violentamente lançada ao medo e à insegurança. Estar com entes queridos e pessoas do nosso convívio social é definido agora como perigoso. O primeiro país a experimentar esse estranhamento fora a Itália, país severamente afetado pela Covid-19, e logo todo o velho continente sucumbiu ao vírus. A vida como pensávamos não existe mais. Tivemos que implementar, num curto espaço de tempo, novos hábitos, e estes incluem a digitalização do morrer e da morte.

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Impermanência: Expectativa e Consciência

“Entre todas as percepções, a percepção da impermanência é a suprema” (Buda)

Como faço todos os anos na primeira semana do novo ano, eu tiro algumas horas para refletir sobre o que aprendi com as experiências vivenciadas no ano que se findou. Revisito as alegrias, as tristezas, as decepções, as frustrações, as perdas, mas também os sonhos, as vitórias e as conquistas. Também reflito sobre alguns questionamentos que familiares, amigos, alunos, pacientes e leitores me fizeram ao longo do ano. Uns são tão interessantes que anoto no meu caderno de “coisas interessantes para pensar”. Sim! Eu tenho um caderno de capa vermelha para tais anotações. Enfim, é um momento de introspecção.

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Suicídio: O mito dos 90%

“Não tenho certeza de nada, mas a visão das estrelas me faz sonhar”
(Vicent van Gogh – pintor holandês, morreu aos 37 anos num ato de suicídio)

No dia 10 de setembro, foi comemorado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Durante todo o mês, prédios públicos estarão iluminados com a cor amarela, como forma de alerta. O movimento “Setembro Amarelo” é estimulado mundialmente pela IASP – Associação Internacional pela Prevenção do Suicídio – e tem por objetivo conscientizar a população sobre a realidade do suicídio e mostrar que existe prevenção. A ideia é discutir o assunto e divulgar ações preventivas. Continuar lendo

Envelhecimento: Reflexões sobre o processo de luto e perdas da pessoa idosa

“Pobre velho que, no curso de sua longa vida, não tenha se apercebido que deve arredar o medo da morte” (Marco Túlio Cícero)

Estou temporariamente residindo em Lisboa, devido ao meu curso de mestrado em cuidados paliativos, e andando pelo meu bairro, no transporte público e nas dezenas de cafés espalhados por Lisboa, observei que esta é uma cidade com um número considerável de idosos, assim como em Reading, minha cidade na Inglaterra e demais cidades europeias. Portugal e Reino Unido têm hoje aproximadamente mais de 2 milhões e 3 milhões de idosos respectivamente.

Contudo, segundo o Ageing Working Group of the Economic Policy Committee (EPC) e o European Commission’s Directorate-General for Economic and Financial Affairs (DG ECFIN), a Alemanha e a Itália é que possuem a maior percentagem de idosos acima de 65 anos. A União Europeia possui uma projeção de 520 milhões de pessoas idosas em 2070. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de pessoas com idade superior a 65 anos chegará a 2 bilhões até 2050. Isso representará um quinto da população mundial.

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Separação Conjugal: Um luto existencial

“Agora que faço eu da vida sem você
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar” (Fernando Mendes)

O luto é um processo psicoemocional que todo ser humano vivencia quando passa por uma perda significativa. Num processo de divórcio haverá múltiplas perdas pela ruptura do vínculo e um período para o luto será necessário. Não tente evitar, é necessário vivê-lo!

Um casal não acorda pela manhã com a descoberta de que deseja se separar. Isso é um processo. Quem passa por essa experiência se submete a um recolhimento reflexivo aflitivo porque, muitas vezes, não consegue assimiliar facilmente a realidade de seus sentimentos. Quando um casal decide pela separação, ambos vivenciam diversos tipos de perdas, sendo que a mais frequente é a perda da expectativa que se criou em relação àquele casamento. A pessoa vivenciará um luto existencial, um luto pela convivência que não deu certo, e até mesmo um luto pelo investimento afetivo que não vingou.

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Papai: ausência que se tornou uma delicada lembrança

“Pai
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz”. (Fábio Jr.)

A morte visitará todos nós um dia, mas ela não tem o costume de nos avisar quando isso acontecerá. Sua agenda é completamente desconhecida. Pode ser numa fria manhã de inverno ou num belo entardecer de primavera. O fato é: ela pode nos tirar de cena a qualquer momento, assim como quem amamos. Eu tenho a consciência de como a vida é permeada pela imprevisibilidade e impermanência desde criança.

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A Imprevisibilidade acontece nas horas, nos minutos, nos segundos…

“Somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”. (Ayrton Senna)

Estamos vivenciando um momento único. Goste você ou não, a Copa do Mundo é este momento. Povos dos 5 continentes estão reunidos num mesmo local experienciando os mesmos sentimentos e emoções. Tudo pode acontecer naqueles incríveis e imprevisíveis 90 minutos e, antes que o juiz sopre seu apito sentenciando o fim, tudo pode acontecer.

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