Impermanência: Expectativa e Consciência

“Entre todas as percepções, a percepção da impermanência é a suprema” (Buda)

Como faço todos os anos na primeira semana do novo ano, eu tiro algumas horas para refletir sobre o que aprendi com as experiências vivenciadas no ano que se findou. Revisito as alegrias, as tristezas, as decepções, as frustrações, as perdas, mas também os sonhos, as vitórias e as conquistas. Também reflito sobre alguns questionamentos que familiares, amigos, alunos, pacientes e leitores me fizeram ao longo do ano. Uns são tão interessantes que anoto no meu caderno de “coisas interessantes para pensar”. Sim! Eu tenho um caderno de capa vermelha para tais anotações. Enfim, é um momento de introspecção.

Dentre os questionamentos, um que mais se repete é sobre o meu trabalho. Quando falo que sou uma psicóloga especialista em luto, que trabalho com pessoas enlutadas e/ou em final de vida e, para completar, digo que ajudo emocionalmente as pessoas em finitude a se despedirem da vida com dignidade, percebo um certo estranhamento. Muitos dizem: “Nossa! Nunca imaginei que tivesse essa especialidade! Que interessante!”. E nesse contexto, a pergunta seguinte é praticamente inevitável e foi esta que permeou minha reflexão desse ano – “Por que você escolheu trabalhar com isso? Trabalhar com a morte deve ser muito pesado, como você consegue?”

Bom, eu penso que há certas escolhas que não somos nós que propriamente a fazemos. Na verdade, há caminhos que já estão pré-determinados. Acredite você ou não, trabalhar com a morte é uma designação que está no meu mapa astral! Minhas astrólogas preferidas Izabel Christina e Ana Leo há muito tempo confirmaram isso.

Eu jamais inferi que a morte era uma “inimiga” e desde criança tenho consciência de que a morte faz parte da vida e que o viver é permeado pela impermanência. A morte me foi apresentada quando eu tinha 2 anos e 8 meses, quando meu pai morreu. No entanto, só compreendi de fato o significado desse evento quando eu tinha 6 anos. Foi na escola, na convivência com outros colegas, que percebi que eu não tinha um pai, ele estava morto. Mas, também observei que não era apenas eu que não tinha um pai. Tenho na memória que também havia um menino que não tinha pai e umas meninas, elas eram irmãs, que não tinham a mãe. As histórias desses colegas, mescladas com a minha, foram o gatilho para que no auge dos meus 6 anos eu começasse a pensar que a morte estava presente na vida de todos e não somente na minha.

Ainda na infância minha consciência sobre a morte se alargou um pouco mais quando uma amiga de minha irmã mais velha morreu atropelada. Ela era jovem, bonita e estava noiva prestes a se casar. A morte abrupta dessa moça me fez pensar que aquela ideia de que as pessoas morrem quando estão velhinhas não era verdadeira. Os jovens também morrem. Um outro evento me fez ter a certeza de que a morte pode chegar a qualquer momento. No primeiro ano do ensino fundamental minha colega Mara morreu, ela tinha um problema no coração. A morte de Mara me fez concretizar uma das mais difíceis certezas: as crianças também morrem. Outras perdas ocorreram ao longo da minha infância e juventude, amigos do ensino médio, vizinhos, primas, primos, e minha mãe. Então, me dei conta que aquela famosa “lei” natural da vida era uma falácia. Qualquer um pode morrer a qualquer hora: pai, mãe, filho, neto, avô. Contrária à lógica da idade, a verdade é que, dado ninguém saber a hora de sua morte, não existe uma ordem estabelecida para que as coisas aconteçam. Filhos costumam enterrar os pais, é verdade, mas o contrário também ocorre.

Tenho observado pelos comentários em minhas mídias sociais e e-mails que recebo que infelizmente as pessoas estão cada vez mais desconectadas da consciência de que somos finitos. Há também um despreparo psico emocional coletivo para lidar com as dores que advém após uma perda significativa. A sociedade atual considera desconfortável vivenciar as dores que um processo de luto pode ocasionar. Interessante observar como muitas pessoas vivem como se todos ao seu redor fossem imortais, inclusive elas próprias, e quando uma morte acontece o choque inicial perpassa pela ideia de que “nunca imaginei que isso poderia ocorrer”. Esse pensamento mágico se dá porque não discutimos a morte com a devida seriedade que ela carece, nós a ignoramos.

Não temos como controlar a morte. Ela acontecerá em algum momento e não temos a menor ideia de quando será. Tentar controlar a morte é como tentar controlar as batidas do coração: impossível. Ela simplesmente acontecerá. É claro que eu fico triste diante de uma perda e às vezes, destruída. Já experenciei a dor do luto algumas vezes em minha vida. Mas não fico inconformada. Eu já assimilei a informação de que posso perder a quem amo a qualquer instante. Busco manter o equilíbrio entre as minhas expectativas e a realidade. Afinal, as minhas expectativas são abstratas, mas a morte é concreta.

Ter a consciência da impermanência é que me faz viver cada momento como se fosse único. Eu degusto cada instante quando estou na companhia das pessoas que amo. Eu costumo demonstrar a elas meu afeto sempre que possível. Quando cometo um erro, peço perdão, e já cometi inúmeros. Quando é necessário perdoar também o faço. Ah! E não podemos esquecer da prática da gratidão: essa alarga a alma.

A morte é um tema que nos convida à reflexão sobre a vida e sobre o que temos feito com ela. É importante dialogar e refletir sobre a morte e o morrer. Ter a consciência de que somos seres mortais é o que nos permite compreender o verdadeiro significado da vida.

Nazaré Jacobucci
Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Perdas e  Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Referências:
Kovács, MJ. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo; 1992.
Puri, S. The Lesson of Impermanence. The New York Times [online]. Mar/19. Disponível em: https://www.nytimes.com/2019/03/07/well/live/palliative-care-end-of-life-death.html
Rinpoche, CN; Shlim DR. Medicine and Compassion: A Tibetan Lama and an American Doctor on How to Provide Care with Compassion and Wisdom. Wisdom Publications, U.S.; 2nd Revised; 2015.

Suicídio: O mito dos 90%

“Não tenho certeza de nada, mas a visão das estrelas me faz sonhar”
(Vicent van Gogh – pintor holandês, morreu aos 37 anos num ato de suicídio)

No dia 10 de setembro, foi comemorado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Durante todo o mês, prédios públicos estarão iluminados com a cor amarela, como forma de alerta. O movimento “Setembro Amarelo” é estimulado mundialmente pela IASP – Associação Internacional pela Prevenção do Suicídio – e tem por objetivo conscientizar a população sobre a realidade do suicídio e mostrar que existe prevenção. A ideia é discutir o assunto e divulgar ações preventivas. Continuar lendo

Envelhecimento: Reflexões sobre o processo de luto e perdas da pessoa idosa

“Pobre velho que, no curso de sua longa vida, não tenha se apercebido que deve arredar o medo da morte” (Marco Túlio Cícero)

Estou temporariamente residindo em Lisboa, devido ao meu curso de mestrado em cuidados paliativos, e andando pelo meu bairro, no transporte público e nas dezenas de cafés espalhados por Lisboa, observei que esta é uma cidade com um número considerável de idosos, assim como em Reading, minha cidade na Inglaterra e demais cidades europeias. Portugal e Reino Unido têm hoje aproximadamente mais de 2 milhões e 3 milhões de idosos respectivamente.

Contudo, segundo o Ageing Working Group of the Economic Policy Committee (EPC) e o European Commission’s Directorate-General for Economic and Financial Affairs (DG ECFIN), a Alemanha e a Itália é que possuem a maior percentagem de idosos acima de 65 anos. A União Europeia possui uma projeção de 520 milhões de pessoas idosas em 2070. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de pessoas com idade superior a 65 anos chegará a 2 bilhões até 2050. Isso representará um quinto da população mundial.

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Separação Conjugal: Um luto existencial

“Agora que faço eu da vida sem você
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar” (Fernando Mendes)

O luto é um processo psicoemocional que todo ser humano vivencia quando passa por uma perda significativa. Num processo de divórcio haverá múltiplas perdas pela ruptura do vínculo e um período para o luto será necessário. Não tente evitar, é necessário vivê-lo!

Um casal não acorda pela manhã com a descoberta de que deseja se separar. Isso é um processo. Quem passa por essa experiência se submete a um recolhimento reflexivo aflitivo porque, muitas vezes, não consegue assimiliar facilmente a realidade de seus sentimentos. Quando um casal decide pela separação, ambos vivenciam diversos tipos de perdas, sendo que a mais frequente é a perda da expectativa que se criou em relação àquele casamento. A pessoa vivenciará um luto existencial, um luto pela convivência que não deu certo, e até mesmo um luto pelo investimento afetivo que não vingou.

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Papai: ausência que se tornou uma delicada lembrança

“Pai
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz”. (Fábio Jr.)

A morte visitará todos nós um dia, mas ela não tem o costume de nos avisar quando isso acontecerá. Sua agenda é completamente desconhecida. Pode ser numa fria manhã de inverno ou num belo entardecer de primavera. O fato é: ela pode nos tirar de cena a qualquer momento, assim como quem amamos. Eu tenho a consciência de como a vida é permeada pela imprevisibilidade e impermanência desde criança.

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A Imprevisibilidade acontece nas horas, nos minutos, nos segundos…

“Somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”. (Ayrton Senna)

Estamos vivenciando um momento único. Goste você ou não, a Copa do Mundo é este momento. Povos dos 5 continentes estão reunidos num mesmo local experienciando os mesmos sentimentos e emoções. Tudo pode acontecer naqueles incríveis e imprevisíveis 90 minutos e, antes que o juiz sopre seu apito sentenciando o fim, tudo pode acontecer.

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Laços Familiares: Ressignificando a morte de um irmão

“Ter um irmão é ter, para sempre, uma infância lembrada com segurança em outro coração”. (Tati Bernardi)

Eu costumo dizer que este blog é um presente para a minha alma pois todos os dias eu sou agraciada com histórias que me fazem refletir sobre a importância do amor e dos vínculos afetivos que construímos ao longo de nossa existência. Muitas das histórias me fazem crer que devemos amar o outro intensamente, sem medo e sem restrição, para que o sentido da vida se faça valer.

A história que compartilho com vocês a seguir, com a devida autorização, é da Carolinne Kandelman, que perdeu o irmão há dois anos. Na maioria das vezes o luto pela perda de um irmão é ofuscado ante a dor dos pais. As pessoas voltam seu olhar e cuidado para os pais, pois enterrar um filho é, de fato, uma tarefa dificílima. No entanto, ao perdermos um irmão estamos rompendo com um dos laços mais significativos de nossas vidas. Não existe uma palavra para descrever a perda de um irmão. Se você perde seus pais, você é órfão. Mas, se você perde um irmão não há um adjetivo que caracterize essa perda. Por isso, a importância de reconhecermos e cuidarmos da dor emocional desse irmão/irmã.

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Filmes: Possibilidades de Reflexão sobre a Morte e o Luto

Antonius – Nenhum homem pode viver com a morte e saber que tudo é nada
Morte – A maioria das pessoas não pensam nem na morte ou no nada”.
(Filme O Sétimo Selo – Ingmar Bergman)

Eu sou uma cinéfila confessa. Considero a sétima arte absolutamente sublime. Como professora, considero filmes uma ótima ferramenta de auxílio para a compreensão de diversos conceitos. Os filmes não só nos divertem, mas são capazes de nos fazer refletir, favorecendo assim novas formas de lidar com questões e conflitos do nosso cotidiano. Compartilho, então, algumas sugestões de filmes que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.

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Luto: Teoria da Transição Psicossocial

“Não há nenhum livro de regras. Não há nenhuma escala de tempo. O luto é tão individual como uma impressão digital. Faça o que é melhor para a sua alma” (W Larcombe & Son)

Eu tenho a honra de ser tutora do módulo sobre Luto do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Cuidados Paliativos da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais coordenado pelas Profas. Gláucia Tavares e Marília Aguiar. Tem sido uma experiência muito valiosa e enriquecedora. Na unidade 2 foi solicitado aos alunos que discorressem sobre uma das teorias que permeiam um processo de luto: a Teoria da Transição Psicossocial. Essa teoria foi proposta por Colin Murray Parkes, psiquiatra britânico, que compreende luto como uma importante transição psicossocial decorrente das transformações no mundo interno que necessariamente ocorrem a partir da vivência de um processo de luto. A partir dessa transformação o enlutado passa a assumir novos papéis e uma nova visão de si e do mundo externo, buscando novas soluções para os problemas da vida cotidiana.

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Natal: Como lidar com a dor do luto durante as festividades do final do ano

“O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível”. (Adélia Prado)

Estamos vivenciando uma das épocas mais significativas do ano. O Natal e o Ano Novo são, para a maioria das pessoas que vivem no ocidente, um momento de estar com a família e com amigos queridos. Não podemos esquecer que a essência do Natal está justamente no partilhar de afetos com aqueles que amamos.

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