Autocuidado: como atravessar um processo de luto?

“Durante o viver nós vamos enfrentar muitas dores e muitas tempestades. Precisamos descobrir como sobreviver diante do caos” (Psic. Nazaré Jacobucci)

A dor quando perdermos alguém a quem amamos é avassaladora e pode nos desorganizar psíquica e emocionalmente. Inevitavelmente vamos experienciar esta dor muitas vezes ao longo de nossas vidas, não temos como evitar a manifestação do luto após uma perda e infelizmente não temos como eliminar a dor. Afinal, a morte é um fenômeno natural e irrefutável da existência humana.

Neste sentido, o autocuidado num processo de luto é de extrema importância para que possamos atravessar este momento tão árduo de forma mais equilibrada. Há pessoas que ficam anos paralisadas pela dor do luto e durante esse momento acabam deixando algumas questões de lado. Uma dessas questões é o autocuidado. Isso engloba deixar os cuidados pessoais, a sua saúde física e mental de lado. Algumas pessoas deixam esses cuidados para depois e empregam toda a energia apenas na dor pela qual estão passando.

O autocuidado, uma prática que todas as pessoas devem fazer, é o ato de cuidar de si mesmo e fazer coisas que irão fazer bem para o seu corpo e mente e assim terem melhor qualidade de vida. São coisas que, quando fazemos, nos fazem sentir melhores e mais organizados psíquica e emocionalmente. Com efeito, autocuidado não é sinônimo de evitar o desconforto, é sinônimo de acolhimento de suas dores. A prática do autocuidado num processo de luto não significa que você está esquecendo o seu ente querido, de forma alguma. A prática possibilita que você assimile a perda e aprenda a lidar com a ausência física.

E como praticar o autocuidado durante o processo de luto? Descreverei abaixo algumas práticas que podem te ajudar a atravessar esse momento tão delicado.

Caminhar: ‎Você deve ter notado uma melhora no seu humor depois de se exercitar e a ligação entre exercício físico e saúde mental estão bem documentadas. Tente começar devagar com uma caminhada de alguns minutos por dia e lentamente vá aumentando até atingir seu nível de conforto.‎ Estar ao ar livre pode te trazer uma sensação de bem-estar. E após a caminhada tome um banho quente. Isso pode ser relaxante e ajudar com sintomas físicos de dor e estresse.

Diário do luto: ‎É normal ficar confuso sobre como você está se sentindo depois que alguém morre. Manter um diário do luto pode ajudá-lo a entender suas emoções.‎ Escrever é uma forma de pensar em voz alta. Pode ajudá-lo a compreender os sentimentos e a identificar padrões de pensamento que possam estar atravancando a assimilação da perda. Registrar memórias pode permitir que você se sinta mais próximo do ente querido que morreu. O luto pode ser uma longa jornada e quando estamos no meio dela, pode ser difícil ver que as coisas estão se transformando. Quando você ler o seu diário de, semanas ou meses atrás, você verá o quanto você assimilou sobre a perda e o quanto o seu processo de luto se transformou ao longo do tempo.‎

Meditação: Essa é uma prática milenar. Na meditação, todo o fluxo de energia e atenção deve estar direcionado para você mesmo. A meditação nos traz calma, serenidade e também é uma forma de se conhecer melhor e conhecer o seu corpo e ajuda muito no momento do luto e a relaxar em situações de estresse como esse. Respire profundamente tentando reter o ar por alguns segundos no pulmão. Desta forma, começa um processo que acalma os pensamentos e regula a ansiedade. Tudo isso deve ser feito adotando uma postura confortável. Pode ser a posição de lótus, sentado ou deitado, desde que a coluna esteja reta, os ombros relaxados e o pescoço alinhado. Vá controlando a sua respiração de forma lenta e prazerosa. Acredite! Com a prática, ao longo do tempo, sua concentração vai sendo cada vez mais facilitada e a sensação de bem-estar aumenta significativamente.

Alimentação: Tente manter uma alimentação equilibrada para compensar as perdas nutricionais associadas ao processo de luto e tristeza. Quando temos uma boa alimentação, o nosso corpo reage de uma forma melhor, temos mais energia e melhor qualidade de vida, por isso ter uma boa alimentação é considerado um tipo de autocuidado.

Encontros: Em muitos momentos você sentirá o desejo de ficar sozinho, mas estar com amigos queridos pode ser terapêutico. Encontre uma tarde ou noite para fazer uma atividade e passar um tempo com um amigo e/ou amigos e familiares. As relações com pessoas afetivamente significativas são uma importante fonte de suporte emocional.

Saúde mental: A nossa saúde mental é tão importante quanto a saúde física e não podemos deixar os cuidados de lado principalmente no momento do luto. A saúde mental também pode ser afetada, pois o sofrimento desencadeado pode levar ao uso de respostas não adaptativas e à busca de estratégias inapropriadas para lidar com a dor. A identificação e realização de atividades que gerem bem-estar e satisfação podem ser utilizadas e incrementadas conforme o interesse da pessoa enlutada.

Espiritualidade: A espiritualidade também pode exercer uma função significativa de conforto e proteção nestes momentos. É importante salientar que cada pessoa deve descobrir qual ou quais estratégias respondem melhor à sua necessidade e que estejam de acordo com seus valores e crenças.

Ajuda Especializada: Busque ajuda caso perceba que seu sofrimento está muito intenso, se prolongando ou mesmo impedindo que consiga manter suas atividades cotidianas, causando significativo impacto na sua vida e em suas relações. Segundo a professora Ângela Seger, outro sinal de que é preciso buscar suporte emocional pode surgir quando as pessoas à sua volta sinalizam que estão preocupadas com sua saúde mental. Esses sinais podem significar que as perdas vivenciadas neste período estejam lhe sobrecarregando e, neste caso, pode ser necessário o auxílio de um profissional qualificado para que não haja agravamento das dificuldades.

Com o exposto neste post podemos observar como é importante que as pessoas não deixem os cuidados pessoais, psíquicos e espirituais durante o processo de luto, por mais difícil que seja esse momento. Os familiares e amigos devem ficar sempre atentos aos sinais apresentados pela pessoa que perdeu um ente querido recentemente, e devem incentivá-la a procurar por ajuda psicológica ou a fazer coisas que ela goste, se sinta bem fazendo, ou que lhe tragam conforto.

Psic. Mestre em Cuidados Paliativos
Psic. Especialista em Perdas e Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
Blog Perdas e Luto

Referências:

Cruse Bereavement Support [site]. Managing grief. Find out how to support yourself and manage your grief. Disponível em: https://www.cruse.org.uk/understanding-grief/managing-grief/

Parque das Flores [site]. Saiba qual é a importância do autocuidado durante o luto. Disponível em: https://parquedasflores.com.br/blog/saiba-qual-e-a-importancia-do-autocuidado-durante-o-luto

Seger, A. 5 comportamentos que ajudam a lidar com o processo de luto. Mar. 2021. Disponível em: https://www.pucrs.br/blog/5-comportamentos-que-ajudam-a-lidar-com-o-processo-de-luto/

Zanatta, M. Autocuidado no processo de luto. Dez. 2020. Disponível em: https://www.cortel.com.br/autocuidado-no-processo-de-luto/

Vamos conversar sobre a morte?

“Não podemos estar realmente vivos sem termos a consciência de que morreremos um dia” (Frank Ostaseski)

A sociedade moderna possui novos assuntos interditos e dentre eles está a morte. Hoje os pais conversam com seus filhos sobre drogas e métodos contraceptivos, porém na minha prática clínica/hospitalar tenho observado que pais e filhos não conversam sobre a morte. Quando algum membro da família começa a falar sobre este tema alguém automaticamente diz – para com isso, que assunto mais chato, tanta coisa boa para conversar e você quer falar de morte, que bobagem. No entanto, a morte faz parte do desenvolvimento humano e precisamos conversar sobre ela.

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Legado Digital: quem herdará seu patrimônio digital após a sua morte?

“Quem era, como era. Somos só memória à espera de não sermos esquecidos” (Memória, Ana Bacalhau)

No dia 01 de junho eu defendi minha dissertação de mestrado e o tópico central desse trabalho de pesquisa foi sobre legado digital. Eu investiguei o conhecimento dos meus colegas da área da saúde que trabalham em unidades de cuidados paliativos, no Brasil e em Portugal, sobre esse tema. A pesquisa foi respondida por 243 profissionais, e como era de se esperar, 98,8% disseram ser usuários de plataformas de mídias digitais. Entretanto, 52,7% declararam não ter nenhum conhecimento sobre legado digital e 46,5% confessaram não ter nenhum conhecimento sobre a forma como as empresas provedoras de mídias tratam os dados de seus usuários após a sua morte.

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Luto Coletivo: a perda doi em mim, doi em você, doi em todos nós!

“O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto, nem daquilo, nem sequer de tudo

ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço” 

(Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa)

Nestes tempos angustiantes de pandemia, tempos de notícias difíceis, iniciamos a segunda quinzena de abril com 3,034,587 de pessoas mortas em decorrência de complicações da COVID-19, tempo de experenciarmos perdas irreparáveis, perdas reais e simbólicas, perdas inimagináveis que nos levam a vivenciar sentimentos difusos e, muitas vezes, inomináveis. Após um ano de pandemia, estamos todos extenuados fisicamente, psiquicamente e emocionalmente. Estamos todos exaustos!

Recentemente a Organização Mundial da Saúde (OMS) denominou esse estado de exaustação que vivemos de Fadiga Pandêmica. Essa fadiga se deve ao cansaço proveniente do esgotamento gerado pela hipervigilância e pelo medo de um vírus que ninguém vê, mas todos sabemos que está aí, como explica Laura Rojas Marcos, doutora em psicologia clínica em entrevista ao Jornal El País. Basta olhar os dados. Segundo Laura, o Escritório do Censo dos Estados Unidos faz um levantamento semanal sobre a saúde mental dos norte-americanos. No fim de novembro, 69% dos entrevistados confessaram sofrer frequentemente sintomas de nervosismo, ansiedade ou a sensação de se encontrar no limite. No começo da pandemia, esta cifra se situava apenas em 25%.

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Vida e Morte: será que há vida após a morte? Talvez!

“A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo.
É o mesmo de sempre. ‎Há continuidade absoluta e ininterrupta. ‎
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho […] ” (Death Is Nothing At All by Henry Scott Holland – ‎trecho baseado em um sermão pregado na Catedral de São Paulo, Londres, após a morte do rei Eduardo VII‎)

Uma matéria no jornal The Guardian captou minha atenção. Era sobre uma nova série da Netflix intitulada “Surviving Death – Sobrevivendo à Morte”. Esta é uma série/documentário baseada no livro da jornalista investigativa Leslie Kean, que explora histórias pessoais e pesquisas sobre experiências de quase morte, reencarnação e fenômenos paranormais. Como uma estudiosa da morte e do morrer, fiquei curiosa e decidi assistir.

Pude observar ao longo de seis episódios, de aproximadamente uma hora de duração, que a série explora e analisa, por meio de experimentos e da fala de cientistas, acadêmicos, jornalistas, médiuns, religiosos, pacientes, pessoas enlutadas e pessoas da comunidade, sinais e evidências de que há algo para experimentar além do nosso último suspiro.‎ O diretor Rick Stern, por meio dos episódios, construiu uma série muito convincente e reflexiva de que nossa consciência pode continuar existindo além da vida como a conhecemos.

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Natal: Celebrando as memórias, as histórias, a esperança

“Não queira eu que se apaguem as minhas dores, mas que eu saiba acomodá-las
no meu coração” (Cântico da Esperança – Rabindranath Tagore)

Estamos vivenciando uma das épocas mais significativas do calendário, o Natal. No entanto, este ano as comemorações serão um pouco diferentes da forma que estávamos acostumados a celebrar, principalmente para os cristãos. O ano de 2020 nos colocou diante de inúmeros desafios e provocou profundas mudanças de comportamento. Com o Natal não será diferente. Muitas famílias estarão enlutadas devido à perda de entes queridos por motivo da Covid-19 e, devido às restrições impostas pela pandemia, é possível que não possam celebrar da forma como estão habituadas.

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Luto Complexo Persistente: quando o tempo de compreensão da perda se prolonga

“O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções” (Martha Medeiros)

No meu último post eu discuti a questão do tempo num processo de luto. Ainda sobre essa questão podemos tecer várias reflexões que passam por dois vieses: o técnico e o da vivência prática de pessoas enlutadas. O técnico está descrito no DSM. Para quem não conhece, o DSM é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, criado há algumas décadas para unificar a terminologia sobre as doenças mentais pela APA, Associação Psiquiátrica Americana que está na sua 5º edição.

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Vivenciar a dor, dê um tempo para o tempo do luto

“O luto não tem um tempo determinado para o seu fim, sua duração corresponde ao tempo que nossa psique leva para assimilar a ausência e integrar a saudade” (Nazaré Jacobucci)

Uma das perguntas mais comuns que nós especialistas em luto recebemos ´é – quando termina o luto? O luto tem um prazo determinado para acabar? No entanto, para essa pergunta não há uma resposta pronta. Para respondê-la precisamos ponderar diversos pontos relativos à perda e ao vínculo afetivo que a envolve. É necessário avaliar, inclusive, as perdas secundárias, que podem ser muito significativas.

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O Significado da Morte e o Processo de Luto na visão do Cristianismo Católico

“O amor é tão forte quanto a morte” (Cântico dos Cânticos c.8, v.6)

Dando continuidade aos posts sobre a compreensão da morte em determinadas religiões, abordaremos neste post o Cristianismo Católico Romano. Exploraremos como os fiéis dessa religião se relacionam com a realidade da morte e buscaremos compreender o significado de seus rituais.

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Perdas no Contexto da Violência Doméstica: Um Luto Complexo

“Tento esquecer o medo do presente, superar os traumas que sofri e enfrentar o mundo sem você” (Nijair Araújo Pinto)

Estamos vivenciando um momento de crise e há situações que podem agravar a experiência deste momento. A violência doméstica contra mulheres é uma destas experiências. Infelizmente constatou-se que este problema seríssimo se agravou muito neste período de isolamento físico.

A violência contra mulheres possui números alarmantes ao redor do mundo. Segundo Carolina Cunha, as mortes violentas por razões de gênero são um fenômeno global e vitimizam mulheres todos os dias, como consequência da posição de discriminação estrutural e da desigualdade de poder, que inferioriza e subordina as mulheres aos homens. O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de Feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres. No entanto, os 5 países considerados mais perigosos para as mulheres viverem incluem Arábia Saudita, Somália, Síria, Afeganistão e Índia.  A Índia é classificada como o país mais perigoso do mundo para as mulheres. A nação têm casos de estupro, ataques ácidos, assédio sexual, casamentos precoces, trabalho forçado e escravidão sexual que afetam as mulheres.

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