Luto Complexo Persistente: quando o tempo de compreensão da perda se prolonga

“O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções” (Martha Medeiros)

No meu último post eu discuti a questão do tempo num processo de luto. Ainda sobre essa questão podemos tecer várias reflexões que passam por dois vieses: o técnico e o da vivência prática de pessoas enlutadas. O técnico está descrito no DSM. Para quem não conhece, o DSM é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, criado há algumas décadas para unificar a terminologia sobre as doenças mentais pela APA, Associação Psiquiátrica Americana que está na sua 5º edição.

Segundo Freitas (2018), na contemporaneidade existem divergências no modo de compreender e atuar diante do luto. Um modo perpassa pelo DSM. Ao longo das suas edições, o luto vem sendo citado como condição cultural, diagnóstico diferencial, critério de exclusão, condição concomitante ou agravante de transtornos mentais. Em sua penúltima edição, o DSM-IV publicado em 2000, se refere ao luto como diagnóstico diferencial do Episódio Depressivo Maior, princípio organizador para classificação de transtornos do humor. Deste modo, segundo o manual, sintomas depressivos seriam normais no luto, se surgissem no período de dois meses após a perda de um ente querido, e se não persistissem para além deste tempo. Na última edição do manual, o DSM-V publicado em 2013, o luto permanece como diagnóstico diferencial do Episódio Depressivo Maior, porém com algumas alterações no que tange à compreensão do luto prolongado (Machado; Menezes, 2018).

Michel e Freitas (2019), discutem em seu artigo que no DSM-V nós temos uma indicativa de como a temática do luto está sendo debatida e pensada na sociedade pós-moderna. Nesta edição, no capítulo “Condições para estudos posteriores”, o luto teve sua inclusão em uma sessão que abarca o que foi denominado como “Transtorno do luto complexo persistente” sendo assim, um diagnóstico ainda não reconhecido oficialmente, necessitando de maiores estudos. Isso revela seu aspecto ainda fronteiriço entre o que podemos considerar como “natural” e “complicado”. De acordo com o DSM-V, a distinção entre luto natural e complicado teria como critério o tempo cronológico. Depois de doze meses (seis meses, no caso de crianças) em que se apresenta um conjunto de sintomas persistentes do luto, a pessoa enlutada passa a ser diagnosticada com o “Transtorno do Luto Complexo Persistente”. Ou seja, após este período, as reações relacionadas ao luto passam a ser consideradas sintomas que estariam “interferindo” na capacidade do indivíduo de retomar as atividades do cotidiano (APA, 2014).

Dentre as reações relacionadas ao luto que dificultam a retomada do cotidiano, podemos destacar: foco excessivo na perda e lembranças da pessoa falecida; intenso desejo ou vontade de encontrar a pessoa; dificuldade para compreender a morte; sentimentos que a vida está vazia sem a pessoa que se foi, dificuldade para realizar atividades do cotidiano; estado de humor permanentemente alterado; comportamento antissocial; ideação suicida e comportamentos autodestrutivos; sentimento que a vida não tem qualquer sentido ou propósito. Segundo Knobel, apenas cerca de 2% a 3% das pessoas em todo o mundo sofrem com o luto complicado. Pessoas que lidam com a morte de uma criança, um jovem ou alguém que morreu de forma abrupta, são mais propensas a sofrerem de luto prolongado, assim como uma pessoa que teve uma relação particularmente dependente com a pessoa que morreu.

O luto prolongado não deve ser ignorado. Os indivíduos com a condição não são capazes de melhorar por conta própria, além de estarem em risco de comprometer a saúde física e possuir uma taxa de suicídio mais elevada (Knobel, 2017). No entanto, uma avaliação psicodiagnóstica rigorosa se faz necessária para não corrermos o risco de “patologizar” um processo natural e com singularidade única. Não apenas os sintomas acima descritos devem ser analisados, como também: o laço afetivo da relação que se finda; o significado concreto e abstrato relacionados à perda; o papel que a pessoa ocupava no sistema familiar; a condição mental da pessoa enlutada anterior à perda; experiências prévias com morte e/ou perdas e recursos psíquicos utilizados para o enfrentamento desse processo; o contexto social, cultural, ético, religioso e espiritual da pessoa enlutada; pendências não-resolvidas com a pessoa morta; sentimento exacerbado de culpa pela circunstâncias da morte; as perdas secundárias advindas pela perda primária.

Como podemos observar há uma série de condições relacionais, emocionais, sociais, culturais e psíquicas que podem influenciar significantemente no processo de luto de cada indivíduo, intensificando seu grau de impacto. Não podemos determinar com exatidão quanto tempo uma pessoa precisará para se reorganizar e acomodar todas essas condições. Segundo Parkes (1998), o processo de luto é uma vivência imprevisível, inexplicável e desconexa dos demais estágios vivenciados anteriormente no ciclo vital, por isso quando falamos em retomada do cotidiano após uma perda significativa precisamos ter muita cautela.

No entanto, como vivemos numa sociedade completamente despreparada para lidar com a morte, e consequentemente com pouca tolerância às vivências inerentes ao luto, alguns processos de luto podem se tornar extremamente dolorosos e inadministráveis psíquica e emocionalmente. Por isso, caso perceba que de fato o processo de luto está sendo demasiadamente doloroso, é importante procurar ajuda de um profissional da saúde mental que saiba como diagnosticar e tratar o luto prolongado.

Nazaré Jacobucci
Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Perdas e Luto e Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Referências:                                                                                                                                                  American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 (5a ed.). Porto Alegre: Artmed; 2014.                                                          Correia, A. Luto: O que é e como se manifesta. Andréia Correia Psicóloga [online], 2020. Disponível em: http://andreiacorreiapsicologa.com.br/luto-o-que-e-e-como-se-manifesta                                                                                                                                                        FREITAS, J. de L. Luto, pathos e clínica: uma leitura fenomenológica. Psicol. USP,  São Paulo, v. 29, n. 1, p. 50-57,  Jan.  2018. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642018000100050&lng=en&nrm=iso               Knobel, E. Luto complicado: Uma ferida que não tem cura. Portal Cardiologia Knobel [online], 2017. Disponível em: http://www.knobel.com.br/2017/09/25/luto-complicado-uma-ferida-que-nao-tem-cura/                                                                           Machado, R. de M.; Menezes, R. A. Gestão Emocional do Luto na Contemporaneidade. Revista Ciências da Sociedade (RCS), Vol. 2, n. 3, p. 65-94, Jan/Jun 2018. [Arquivo PDF].                                                                                                                                                                      Michel, L. H. F.; Freitas, J. de L. A clínica do luto e seus critérios diagnósticos: possíveis contribuições de Tatossian. Psicol. USP,  São Paulo,  v. 30,  e 180-185,    aug. 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642019000100217                                                                                                                                 Parkes, C. M. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. Trad.: Maria Helena Franco Bromberg. São Paulo: Summus; 1998. 291 p.

 

Vivenciar a dor, dê um tempo para o tempo do luto

“O luto não tem um tempo determinado para o seu fim, sua duração corresponde ao tempo que nossa psique leva para assimilar a ausência e integrar a saudade” (Nazaré Jacobucci)

Uma das perguntas mais comuns que nós especialistas em luto recebemos ´é – quando termina o luto? O luto tem um prazo determinado para acabar? No entanto, para essa pergunta não há uma resposta pronta. Para respondê-la precisamos ponderar diversos pontos relativos à perda e ao vínculo afetivo que a envolve. É necessário avaliar, inclusive, as perdas secundárias, que podem ser muito significativas.

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O Significado da Morte e o Processo de Luto na visão do Cristianismo Católico

“O amor é tão forte quanto a morte” (Cântico dos Cânticos c.8, v.6)

Dando continuidade aos posts sobre a compreensão da morte em determinadas religiões, abordaremos neste post o Cristianismo Católico Romano. Exploraremos como os fiéis dessa religião se relacionam com a realidade da morte e buscaremos compreender o significado de seus rituais.

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Perdas no Contexto da Violência Doméstica: Um Luto Complexo

“Tento esquecer o medo do presente, superar os traumas que sofri e enfrentar o mundo sem você” (Nijair Araújo Pinto)

Estamos vivenciando um momento de crise e há situações que podem agravar a experiência deste momento. A violência doméstica contra mulheres é uma destas experiências. Infelizmente constatou-se que este problema seríssimo se agravou muito neste período de isolamento físico.

A violência contra mulheres possui números alarmantes ao redor do mundo. Segundo Carolina Cunha, as mortes violentas por razões de gênero são um fenômeno global e vitimizam mulheres todos os dias, como consequência da posição de discriminação estrutural e da desigualdade de poder, que inferioriza e subordina as mulheres aos homens. O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de Feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres. No entanto, os 5 países considerados mais perigosos para as mulheres viverem incluem Arábia Saudita, Somália, Síria, Afeganistão e Índia.  A Índia é classificada como o país mais perigoso do mundo para as mulheres. A nação têm casos de estupro, ataques ácidos, assédio sexual, casamentos precoces, trabalho forçado e escravidão sexual que afetam as mulheres.

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Etiqueta para a Morte, o Morrer e o Luto na Era Digital

“A essência da etiqueta para a morte, o morrer e o luto na era das mídias digitais é ter bom senso, discrição e cuidado para com a dor do outro” (Nazaré Jacobucci)

Desde fevereiro que a vida aqui na Europa começou a mudar gradualmente, e após meses o que nos era familiar agora nos é estranho. O familiar e seguro tornou-se desconhecido e, por vezes, ameaçador. A estabilidade física e mental foi violentamente lançada ao medo e à insegurança. Estar com entes queridos e pessoas do nosso convívio social é definido agora como perigoso. O primeiro país a experimentar esse estranhamento fora a Itália, país severamente afetado pela Covid-19, e logo todo o velho continente sucumbiu ao vírus. A vida como pensávamos não existe mais. Tivemos que implementar, num curto espaço de tempo, novos hábitos, e estes incluem a digitalização do morrer e da morte.

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A Impermanência, o Medo, a Consciência!

“Não! O planeta não está em ruínas. O que está em ruínas é a velha estrutura da insensatez, aliada à cultura do consumismo e do lucro, a qual a humanidade estava alicerçada”
(Nazaré Jacobucci)

Caro leitor, minha escrita desta vez será diferente. Abordarei algumas questões que permeiam o contexto atual. Mas também trarei para reflexão uma análise, segundo o meu olhar, da forma como nós estávamos nos comportando diante dos recursos naturais do planeta e perante as outras pessoas. Trarei alguns dados estatísticos e comentários de alguns estudiosos para que você entenda o quão nós somos responsáveis pela conjuntura atual da humanidade. Sim! Todos nós somos agentes do cenário presente.

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O Sentido da Vida…

“A morte não faz parte de uma categoria específica: é uma questão que atravessa os tempos e, sobretudo, é uma questão humana” (Renata Rezende Ribeiro)

No dia 20.02.20 o Parlamento português aprovou 5 projetos de lei que prevê a despenalização da eutanásia em Portugal, mas o processo está ainda numa fase inicial e segue-se agora um longo processo até que o fim da criminalização da morte assistida seja uma realidade. Todos os cinco projetos de lei levados a votação foram aprovados e serão discutidos na especialidade. Os trabalhos na Comissão de Assuntos Constitucionais permitirão agora que seja trabalhado um texto único e final. Este também é o objetivo dos socialistas.

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Impermanência: Expectativa e Consciência

“Entre todas as percepções, a percepção da impermanência é a suprema” (Buda)

Como faço todos os anos na primeira semana do novo ano, eu tiro algumas horas para refletir sobre o que aprendi com as experiências vivenciadas no ano que se findou. Revisito as alegrias, as tristezas, as decepções, as frustrações, as perdas, mas também os sonhos, as vitórias e as conquistas. Também reflito sobre alguns questionamentos que familiares, amigos, alunos, pacientes e leitores me fizeram ao longo do ano. Uns são tão interessantes que anoto no meu caderno de “coisas interessantes para pensar”. Sim! Eu tenho um caderno de capa vermelha para tais anotações. Enfim, é um momento de introspecção.

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As Crianças e o Conceito de Morte

“A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais…”
(Memórias de Emília – Monteiro Lobato)

Muitas pessoas me perguntam sobre o entendimento das crianças sobre a morte. Dentre esses questionamentos está a dúvida se devemos ou não conversar com elas sobre o morrer e o luto. E a minha resposta é – sim!

Afinal, a morte é inerente à nossa existência, então, precisamos falar sobre a morte com as crianças, pois em algum momento elas irão perder um ente querido ou um animal de estimação. Há também as crianças que vivem em zonas de extrema violência e que se deparam com a morte cotidianamente. Portanto, temos que prepará-las para lidar com esta situação. Quando uma morte ocorrer, pode ser a oportunidade para que nós conversemos com ela sobre o tema. Esta conversa é importante e saudável para ajudá-la a lidar com o sofrimento. Como os adultos, as crianças precisam vivenciar o processo de luto para elaborar a perda que ocorreu e continuar com sua vida sem medo. Resguardar as crianças da morte ou do conceito de morte presumindo que são muito pequenas para entender o que significa o que é morrer não é o ideal. Continuar lendo

Checklist Final

“A morte não vem de fora, mas se processa dentro da vida com a perda progressiva da força vital. Morremos um pouco a cada minuto e um dia este processo chegará ao fim”. (L. Boff)

A sociedade moderna possui novos tabus e dentre eles está a morte. Hoje os pais conversam com seus filhos sobre drogas e métodos contraceptivos, porém na minha prática clínica/hospitalar tenho observado que pais e filhos não conversam sobre a morte. A família muitas vezes desconhece como aquele ente querido gostaria de morrer, o que ele gostaria de fazer em caso de uma doença crônica sem possibilidade terapêutica de cura ou uma morte súbita. Quando algum membro da família começa a falar sobre este tema alguém automaticamente diz – para com isso, que assunto mais chato, tanta coisa boa para conversar e você quer falar de morte, que bobagem –. Infelizmente, o tema da morte se tornou interdito no século XX, sendo banido da comunicação entre as pessoas. (Ariès, 1977). Continuar lendo