A Impermanência, o Medo, a Consciência!

“Não! O planeta não está em ruínas. O que está em ruínas é a velha estrutura da insensatez, aliada à cultura do consumismo e do lucro, a qual a humanidade estava alicerçada”
(Nazaré Jacobucci)

Caro leitor, minha escrita desta vez será diferente. Abordarei algumas questões que permeiam o contexto atual. Mas também trarei para reflexão uma análise, segundo o meu olhar, da forma como nós estávamos nos comportando diante dos recursos naturais do planeta e perante as outras pessoas. Trarei alguns dados estatísticos e comentários de alguns estudiosos para que você entenda o quão nós somos responsáveis pela conjuntura atual da humanidade. Sim! Todos nós somos agentes do cenário presente.

Há muito tempo que, por meio da escrita, busco promover uma reflexão sobre o apego e a falta de consciência acerca da impermanência. Recentemente escrevi a respeito desse tema e no texto digo: não há nenhuma garantia que aquilo que planejamos para a vida aconteça. Não há! Tudo pode mudar a qualquer momento e para sempre.
Desde as últimas semanas as pessoas assistem incrédulas suas vidas, a de seus amigos, a do seu bairro, a do seu país, a do planeta, mudarem a cada dia. E não foram mudanças simples. Tudo o que nos era familiar se tornou estranhamente diferente. A maneira como vivíamos neste planeta não existe mais.

Quando ocorrem mudanças drásticas, que transformam nossa forma de se relacionar com o ofício de viver, é natural sentirmos medo e, por vezes, ansiedade. Neste momento a fragilidade humana está exposta diante do desconhecido. Não sabemos que proporções essa pandemia viral pode alcançar e, muito menos, quando ela terminará. Diante das incertezas, onde há mais perguntas do que respostas, somos tomados por uma série de sentimentos muitas vezes inexplicáveis. Não é tarefa fácil manter a serenidade no meio do caos, mas precisamos buscar estratégias, internas e externas, para tentarmos manter o equilíbrio entre o medo e a coragem, a ansiedade e a serenidade. Recursos estes que podemos encontrar no apoio social, espiritual e/ou com ajuda de profissionais qualificados. E muito desses recursos estão disponíveis de forma virtual.

No entanto, esse acontecimento, no meu entender, é uma excelente oportunidade para refletirmos sobre alguns aspectos relacionados à forma como nós humanos estávamos nos comportando. E, se me permitem, estávamos nos comportando muito mal. Comportamento este que se refletia nas relações humanas, na relação com o meio ambiente, com os recursos naturais, com o consumo exacerbado e, porque não dizer, nas relações de poder. Irei começar a minha análise pelo berço de grandes epidemias.

A China tem sido o berço de grandes epidemias do planeta e isso acontece desde a Idade Média. No século 14, o país deu origem à Peste Bubônica cuja bactéria era transmitida ao ser humano por pulgas que infestavam ratos e outros roedores. A doença chegou à Europa em 1343 pela rota da seda. Estima-se que a peste, na época, matou pelo menos 75 milhões de pessoas, cerca de 15% da população mundial estimada na época. Depois o país foi novamente o epicentro de outras epidemias que tiveram alcance mundial; a Gripe Asiática em 1957/58 vitimando 2 milhões de pessoas; a SARS em 2003 e a Gripe Aviária em 2005 que acarretou o abatimento de milhares de aves ao redor do mundo. No Reino Unido uma única granja abateu 160 mil aves infectadas. Neste momento você deva estar se perguntando: mas por que a China é o berço de tantas epidemias? A resposta envolve vários fatores.

Dois fatores que considero principais contribuem de forma direta: o fator sociodemográfico e o econômico. A população mundial continua a crescer, a um ritmo preocupante. Estima-se que a população global chegou a 7,7 bilhões, em abril de 2019. Segundo a ONU a China tem 1,4 bilhão de habitantes e a Índia 1,3 bilhão. Ambos continuam sendo os países mais populosos, com uma porcentagem de 19% e 18% do total da população global, respectivamente. E a maioria dessas populações vivem nas cidades. Segundo Luna, esta urbanização significa aglomeração intensa, com populações grandes vivendo em espaço reduzido; saneamento inadequado, tanto em relação ao abastecimento da água, quanto aos sistemas de esgotamento sanitário e destinação de resíduos sólidos; habitação precária; falta de infraestrutura urbana e agressão ao meio ambiente; proliferação de fauna sinantrópica (animais que se adaptaram a viver junto ao homem, mas que podem transmitir doenças, vírus e causar agravos à saúde dos seres humano) alguns desses animais são comercializados nos mercados chineses. Não precisamos ser cientistas para sabermos que esse cenário é altamente propício para a proliferação de doenças que podem acarretar epidemias e pandemias.

Sim! Muitos dos vírus que nos causam doenças têm origem em animais. No caso do COVID-19, parece ter sido originado no contato com morcego. Muitos mercados chineses e do Sudeste da Ásia, como o de Wuhan, os animais estão vivos e são mortos e vendidos aos clientes na hora. São diferentes animais, retirados de seu habitat selvagem e colocados em gaiolas ainda vivos. E, muitos desses mercados funcionam em condições insalubres sendo locais de proliferação de vírus e bactérias. Quando um ser humano consome um desses animais que esteja infectado, o vírus pode então, potencialmente, infectar esse ser humano. E, se esse vírus passa para outro humano está iniciado um surto viral. Porém, o consumo desses animais está muito além da culinária exótica praticada na Ásia, há uma questão econômica. Muitas pessoas lucram com o comércio de animais selvagens hoje.

Segundo Myers, a Wildlife Conservation Society, uma ONG sediada em Nova York, aliás sugiro que visitem o site desta ONG https://www.wcs.org/, pediu a proibição global do comércio de animais silvestres, especialmente em mercados como os da China, que se revelaram como ameaça à saúde pública após o último surto. A WCS é enfática nesta questão – para prevenir futuros grandes surtos virais, como o surto de COVID-19, impactando a saúde humana, o bem-estar, as economias e a segurança em escala global, a WCS recomenda parar todo o comércio de vida selvagem‎ ‎para consumo humano (particularmente de aves e mamíferos) e fechamento de todos esses mercados.‎

Neste sentido, quando o fator econômico passa a ter um peso maior em detrimento ao cuidado humano temos como consequência uma série de problemas difíceis de gerenciar. Segundo Woetzel e colegas, a China se tornou o maior exportador mundial de mercadorias em 2009 e a maior nação comercializadora de mercadorias em 2013. Sua participação no comércio global de mercadorias aumentou de 1,9% em 2000 para 11,4% em 2017. Em uma análise de 186 países, a China é o maior destino de exportação para 33 países e a maior fonte de importações para 65. O impacto desse crescimento econômico no meio ambiente também têm proporções gigantescas. A China tem sido a maior fonte mundial de emissões de carbono desde 2006 e hoje representa 28% das emissões globais anuais. O economista de recursos ambientais Marshall Burke calcula que dois meses de redução da poluição na China provavelmente salvará a vida de aproximadamente 4.000 crianças com menos de cinco anos e 73.000 adultos com mais de 70 anos, que de outra forma teriam sido afetados pelos altos níveis de poluição.

No entanto, começamos a perceber uma mudança de postura do governo chinês a respeito do assunto. O país tem investido fortemente em energia renovável. Em 2017, investiu cerca de US$ 127 bilhões, 45% do total global e três vezes maior que o investimento nos EUA e na Europa, cada um com US$ 41 bilhões. Além de ser motivada por seu compromisso como signatária do Acordo de Paris de reduzir sua intensidade de carbono em 40 a 45% entre 2005 e 2020.

Neste sentido, como consumidores aqui começa a nossa responsabilidade. Quando um cidadão europeu entra numa loja de comércio popular de origem irlandesa e compra uma camiseta fabricada, em algum lugar da Ásia, por € 3,00 ou no país onde resido a Inglaterra por £ 3,00 é praticamente impossível não haver o questionamento: como uma camiseta pode custar tão barato? Isso só é possível porque há muita mão de obra barata para fabricar estas mesmas camisetas. Um trabalhador na indústria chinesa ganha em média US$ 3,60 por hora, no Brasil é ainda pior o valor é de US$ 2,90. No entanto, a receita da loja de comércio popular no ano de 2019 fora de £ 7,8 bilhões de libras. Aqui também não precisamos ser analistas econômicos para percebermos que há um desequilíbrio abissal entre o ganho dos trabalhadores e o lucro dos empresários.

Após expor todos esses dados e, por estarmos vivenciando um momento de paralisação coletiva ímpar na história da sociedade contemporânea, seria interessante emergir uma nova consciência sobre a forma como estamos vivendo neste planeta. Entramos numa espiral desmedida de consumismo e, como sempre, estávamos atolados em nossas agendas, repletas de afazeres, e não tínhamos tempo de parar e refletir sobre tais questões. Mas agora a reflexão se faz urgente. Pois, ao consumirmos cada vez mais, as indústrias precisam entrar num processo incessantemente de produção, com isso mais agentes poluentes são lançados no ar, e claro, toneladas de lixo são produzidas, e assim por diante.

Pare um minuto e reflita – será que eu preciso comprar tanto? Será que o que eu estou comprando é realmente necessário? Será que preciso mesmo comprar um casaco novo a cada inverno? Será que preciso ter uma bolsa que combine com cada sapato? Por que comprar online se eu posso caminhar até o comércio local da minha cidade e posso prestigiar as lojas do meu bairro? Será que preciso trocar o aparelho celular a cada novo modelo lançado? Esses são apenas alguns exemplos.

Não precisamos de fábricas produzindo uma gama infinita de mercadorias descartáveis, de shopping centers e de plataformas online de compras com produtos inúteis. Precisamos de fábricas produzindo produtos úteis para o cuidado humano. Precisamos construir hospitais equipados para dar conta de cuidar da população cada vez mais idosa em todos os países. Essa nova pandemia provou o quanto os sistemas de saúde de diversos países estão saturados e precisam de investimentos urgentes. Precisamos de laboratórios para que cientistas possam estudar as novas e velhas doenças. Precisamos de escolas que forneçam uma educação de qualidade e que preparem os profissionais para os grandes desafios que a humanidade ainda há de experienciar. E, por fim, precisamos de profissionais da área da logística que possam gerenciar os bancos de alimentos e rastrear a distribuição de alimentos no mundo. Há muito desperdiço nos países ricos e muita fome nos países pobres.

Uma nova consciência se faz necessária para que possamos viver de forma mais digna e justa neste pequeno planeta. Precisamos sair da bolha em que vivíamos e ter um olhar mais atento ao que acontece ao nosso redor e às pessoas que nos cercam. Hora de deixarmos o supérfluo e centrarmos no essencial para a vida e para a alma.
Ao terminar esse texto lembrei-me do discurso final de Charles Chaplin no filme o “Grande Ditador” de 1940 que é perfeito para esse momento.

“Não sois máquina! Homens é que sois!… Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo das trevas para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!”

Nazaré Jacobucci
Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Perdas e Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Referências:
Fioratti, C. O que são os mercados chineses de animais silvestres? Super Interessante [online]. 20.03.20. Disponível em: https://super.abril.com.br/sociedade/o-que-sao-os-mercados-chineses-de-animais-silvestres/
Guevane, E. População mundial atingiu 7,6 bilhões de habitantes. ONU News [online]. 21.06.17. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2017/06/1589091-populacao-mundial-atingiu-76-bilhoes-de-habitantes
Luna, E. J. A. A emergência das doenças emergentes e as doenças infecciosas emergentes e reemergentes no Brasil. Rev. Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 229-243, Dec. 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-790X2002000300003
Metrofocus [online]. What is the link between COVID-19 and animals? 27.03.20. Disponível em: https://www.thirteen.org/metrofocus/2020/03/catskill-counties-ask-new-yorkers-to-stay-home/
MSN NEWS [online]. The environmental impact of covid 19. 2020. Disponível em:
https://www.msn.com/en-gb/news/world/the-environmental-impact-of-covid-19/ss-BB11JxGv?li=BBoPWjQ&ocid=mailsignout#image=29
Myers, S. L. Coronavírus faz governo chinês rever legislação sobre mercados com animais vivos. O Globo [online]. 30.01.20. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus-faz-governo-chines-rever-legislacaosobre-mercados-com-animais-vivos-24219721
Oliveira, M. Sars, gripe aviária e Coronavírus: por que a China é berço de epidemias? Portal UOL [online]. 31.01.20. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/01/31/sars-h1n1-e-coronavirus-por-que-a-china-e-berco-de-grandes-epidemias.htm
Wildlife Conservation Society [online]. WCS issues policy on reducing risk of future zoonotic pandemics. 28.03.20. Disponível em: https://www.wcs.org/get-involved/updates/wcs-issues-policy-on-reducing-risk-of-future-zoonotic-pandemics
Woetzel, J. (et al.). China and the world: Inside the dynamics of a changing relationship. McKinsey Global Institute [online]. Jul. 2019. Disponível em: https://www.mckinsey.com/~/media/mckinsey/featured%20insights/china/china%20and%20the%20world%20inside%20the%20dynamics%20of%20a%20changing%20relationship/mgi-china-and-the-world-full-report-june-2019-vf.ashx
Zhong, J. Coronavirus closures reveal vast scale of China’s secretive wildlife farm industry. The Guardian [online]. 25.02.20. Disponível em: https://www.theguardian.com/environment/2020/feb/25/coronavirus-closures-reveal-vast-scale-of-chinas-secretive-wildlife-farm-industry

O Sentido da Vida…

“A morte não faz parte de uma categoria específica: é uma questão que atravessa os tempos e, sobretudo, é uma questão humana” (Renata Rezende Ribeiro)

No dia 20.02.20 o Parlamento português aprovou 5 projetos de lei que prevê a despenalização da eutanásia em Portugal, mas o processo está ainda numa fase inicial e segue-se agora um longo processo até que o fim da criminalização da morte assistida seja uma realidade. Todos os cinco projetos de lei levados a votação foram aprovados e serão discutidos na especialidade. Os trabalhos na Comissão de Assuntos Constitucionais permitirão agora que seja trabalhado um texto único e final. Este também é o objetivo dos socialistas.

No entanto, em Portugal ainda se faz necessário avançar em um outro tema; os Cuidados Paliativos. Aproximadamente 70% dos portugueses não tem acesso a esse cuidado em final de vida. Penso que antes de tratarmos de uma questão tão complexa, a morte assistida – eutanásia, talvez devêssemos, governantes e sociedade civil, voltarmos o nosso olhar para a área de cuidados paliativos com mais atenção e, claro provendo maiores investimentos. E, neste olhar, caberia também prover mais qualidade de trabalho para os profissionais que estão na lida diária dos cuidados paliativos e o esforço que fazem para proverem tais cuidados.
Penso que a maioria dos pacientes que, estejam sendo bem cuidados em seu processo de finitude não pensarão em morrer, pensarão em viver até morrer. Reafirmando a frase de Winnicott “Eu quero estar vivo na hora da minha morte”.

No meu curso de mestrado tive o privilégio de conviver com pessoas extraordinárias e profissionais igualmente incríveis. Uma dessas profissionais é Cristina Madeira, uma enfermeira que atua em cuidados paliativos numa região denominada Alentejo. Cristina é uma dessas enfermeiras que ama o que faz e entende da arte de cuidar. Ela escreveu um texto para um jornal local em que ela faz uma pequena reflexão, sobre a vida, sobre a morte e sobre o cuidar como uma forma única e individual. Abaixo vou reproduzir o texto de Cristina, que me autorizou a compartilhá-lo na íntegra.

“O Sentido da Vida…”

“Integrar a própria morte, com todas as dúvidas e dificuldades, com receios e inseguranças, mas com a certeza que sem nunca sabermos quando é o dia, apenas sabemos que esse dia chegará. Faz cada vez mais sentido em qualquer fase da vida de alguém aprender a viver, para que possa também saber morrer. “Aprendam a viver e saberão como morrer; aprendam a morrer e saberão como viver” (Schwartz, 2006).

Tenho boas memórias do tempo em que via os doentes numa longa varanda ao sol e onde as equipas de profissionais faziam o que melhor sabiam com os recursos que dispunham, ouviam as preces dos que sofriam e rezavam com as famílias que, muito pouco podiam esperar daqueles que visitavam e que muitas vezes sucumbiam às malvadas doenças que teimavam em aparecer. De cuidados paliativos em 1990 pouco se ouvia falar no Alentejo, onde cresci, morria-se maioritariamente de doenças cardiovasculares e a morte era negada e encarada como derrota para muitos profissionais de saúde, um fracasso, uma frustração, eram essencialmente profissionais treinados para a doença aguda. “A morte não é pois, uma possibilidade, algo de eventual, mas um fato inexorável da própria vida e um fato com o qual as sociedades, em geral, e os profissionais de saúde, em particular, deverão aprender a lidar” (Barbosa et al., 2016).

Aprofundar a essência da vida e aquilo que de fato faz sentido é o que faz toda a diferença, os pormenores, o querer dançar quando já se perdeu a mobilidade dos membros, as emoções sentidas, o medo de envelhecer, o perdão e até o dizer adeus aqueles que mais amamos; a nossa família. Comecei a questionar a minha existência, a minha vida e obriguei-me a tomar decisões conscientes e com um único sentido, o alívio do sofrimento, porque mesmo sem doença podemos estar descontentes com a nossa existência e com algumas escolhas que fazemos. Tantas vezes ouvimos nos últimos dias de vida de uma pessoa, questões como – “por que não fiz aquilo que deveria quando era novo?”; “por que não tomei aquela atitude na altura certa?”; “por que não investi naquilo que mais sentido fazia para mim?”, tantas questões se colocam quando percebemos que a nossa vida é finita e essencialmente se achamos que a proximidade a esse dia está chegando. Cuidar de pessoas com doença crônica e progressiva, dá-nos uma visão diferente daquilo que somos e daquilo que queremos ser. Permite-nos tentar viver a nossa vida de uma forma mais autêntica e com sentido.

A OMS em 2002 definiu cuidados paliativos como: “uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida dos doentes – e suas famílias – que enfrentam problemas decorrentes de uma doença incurável e/ou grave e com prognóstico limitado, através da prevenção e alívio do sofrimento, com recurso a identificação precoce de tratamento rigoroso dos problemas não só físicos, como a dor, mas também dos psicossociais e espirituais”. Perceber que o sofrimento de alguém está agravado por ter longe o filho que reside no estrangeiro, ou aquela mãe que cortou relações com a filha por ciúmes do irmão, ou simplesmente aquela paciente que sempre viveu sozinha e que agora não tem ninguém que cuide dela, faz-nos pensar sobre as atitudes que habitualmente temos durante a nossa existência, que a atitude de quem ajuda o outro pode ter um impacto positivo ou negativo na que recebe, determinando a sua receptividade à oferta.

Quando a doença surge, percebemos que estamos aqui de passagem e que a finitude é real e pode não estar assim tão distante quanto aquilo que sempre achamos. Para Marie de Hennezel, os que vão morrer ensinam-nos a viver, “A morte, essa que todos havemos de viver um dia, a que fere os nossos próximos ou os nossos amigos, talvez seja o que nos leva a não contentarmos em viver à superfície das coisas e dos seres, o que nos move a penetrar na sua intimidade e na sua profundeza” (Hennezel, 2000).

Ser enfermeira é para mim um enorme prazer na dedicação e na valorização do outro como alvo dos meus cuidados de forma única e individual. Cuidar de alguém, é uma tarefa de grande importância para o outro porque ele confia em nós para que lhe seja aliviado o sofrimento que advém de uma alteração no decurso da sua vida, com o aparecimento de uma doença grave que o irá levar à morte. É, para todos, difícil conviver diariamente com a morte, a perda, a finitude daquilo que sempre achamos ser para sempre. A morte é, efetivamente, aquilo que quando nascemos temos mais certo na nossa vida, porque todos iremos morrer, só não sabemos como, nem em que condições.

Cabe-nos a nós profissionais de saúde cultivar um ambiente acolhedor e livre de sofrimento para que esse momento inevitável seja o menos doloroso para quem parte e também para quem fica, pois este é que terá que conviver com a ausência daquele que fazia parte da sua vida e que inevitavelmente irá morrer. Conviver com a morte quotidianamente não é banalizá-la, mas sim viver a vida intensamente e valorizar cada minuto, como se fosse o último, aproveitando tudo o que é belo e nos faz sentido, como tal é para mim muito importante a comunicação com o doente mas também, com a família que experimenta momentos difíceis e muito angustiantes sem saber o que fazer, nem tão pouco o que dizer, porque tudo acarreta muito sofrimento, porque a inevitabilidade da perda existe.

Cada doente deixou o seu ensinamento na minha vida e ajudou-me a tentar ser cada vez melhor e procurar conhecimento para prestar cada vez mais melhores cuidados com base na evidência e na ciência. “Aqueles que passam por nós não vão sós nem nos deixam sós” (Antoine de Saint-Exupéry, 2009). Neste sentido, “vivo, sem dúvida, mais intensamente, com uma consciência mais aguda, aquilo que me é dado a viver, alegrias e tristezas, mas também todas essas pequenas coisas quotidianas que são óbvias, tal como o simples fato de respirar ou de andar” (Hennezel, 2000).

Viver é sem dúvida um desafio, o corpo é apenas uma parte, porque somos muito maiores do que a soma das partes físicas, somos valores, pensamentos sobre o bem e o mal, temos emoções, discernimento e intuição e sem dúvida que as nossas vivências são também uma parte muito importante na construção do nosso ser único e individual e viver a trabalhar com estes doentes deu-me uma visão unificada de cada pessoa e de cada momento”.

(Publicado em: Jornal Diário do Sul em 08.10.2019)

Nazaré Jacobucci
Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Perdas e Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Colaboração:
Cristina Madeira – Enfermeira na Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos do ACES – Alentejo Central.

Referências:
BARBOSA, A. et. al. Manual de Cuidados Paliativos. 3. ed. Lisboa: Núcleo de Cuidados Paliativos – Centro de Bioética da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, 2016. p. 691-735. (Coleção: Cuidados Paliativos).
HENNEZEL, M. Diálogo com a Morte. Portugal: Casa das Letras, 2000. 174 p.
RAMOS, D.; FRAZÃO, J. Despenalização da eutanásia avança em Portugal. Cinco projetos de lei seguem para discussão. Correio da Manhã [online]. 21.01.2020. Disponível em: https://www.cmjornal.pt/politica/detalhe/despenalizacao-da-eutanasia-avanca-em-portugal-cinco-projetos-de-lei-seguem-para-discussao
SAINT-EXUPÉRY, A. O Principezinho. Porto: Aster Editora, 2009. 96p.
SCHWARTZ, M. Amar e Viver: Lições de Um Mestre Inesquecível. Tradução: Vera Faria. Cascais: Editora Pergaminho, 2006. 114 p.
WORLD HEALTH ORGANIZATION [site]. Palliative care. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/palliative-care

Impermanência: Expectativa e Consciência

“Entre todas as percepções, a percepção da impermanência é a suprema” (Buda)

Como faço todos os anos na primeira semana do novo ano, eu tiro algumas horas para refletir sobre o que aprendi com as experiências vivenciadas no ano que se findou. Revisito as alegrias, as tristezas, as decepções, as frustrações, as perdas, mas também os sonhos, as vitórias e as conquistas. Também reflito sobre alguns questionamentos que familiares, amigos, alunos, pacientes e leitores me fizeram ao longo do ano. Uns são tão interessantes que anoto no meu caderno de “coisas interessantes para pensar”. Sim! Eu tenho um caderno de capa vermelha para tais anotações. Enfim, é um momento de introspecção.

Continuar lendo

As Crianças e o Conceito de Morte

“A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais…”
(Memórias de Emília – Monteiro Lobato)

Muitas pessoas me perguntam sobre o entendimento das crianças sobre a morte. Dentre esses questionamentos está a dúvida se devemos ou não conversar com elas sobre o morrer e o luto. E a minha resposta é – sim!

Afinal, a morte é inerente à nossa existência, então, precisamos falar sobre a morte com as crianças, pois em algum momento elas irão perder um ente querido ou um animal de estimação. Há também as crianças que vivem em zonas de extrema violência e que se deparam com a morte cotidianamente. Portanto, temos que prepará-las para lidar com esta situação. Quando uma morte ocorrer, pode ser a oportunidade para que nós conversemos com ela sobre o tema. Esta conversa é importante e saudável para ajudá-la a lidar com o sofrimento. Como os adultos, as crianças precisam vivenciar o processo de luto para elaborar a perda que ocorreu e continuar com sua vida sem medo. Resguardar as crianças da morte ou do conceito de morte presumindo que são muito pequenas para entender o que significa o que é morrer não é o ideal. Continuar lendo

Checklist Final

“A morte não vem de fora, mas se processa dentro da vida com a perda progressiva da força vital. Morremos um pouco a cada minuto e um dia este processo chegará ao fim”. (L. Boff)

A sociedade moderna possui novos tabus e dentre eles está a morte. Hoje os pais conversam com seus filhos sobre drogas e métodos contraceptivos, porém na minha prática clínica/hospitalar tenho observado que pais e filhos não conversam sobre a morte. A família muitas vezes desconhece como aquele ente querido gostaria de morrer, o que ele gostaria de fazer em caso de uma doença crônica sem possibilidade terapêutica de cura ou uma morte súbita. Quando algum membro da família começa a falar sobre este tema alguém automaticamente diz – para com isso, que assunto mais chato, tanta coisa boa para conversar e você quer falar de morte, que bobagem –. Infelizmente, o tema da morte se tornou interdito no século XX, sendo banido da comunicação entre as pessoas. (Ariès, 1977). Continuar lendo

Suicídio: O mito dos 90%

“Não tenho certeza de nada, mas a visão das estrelas me faz sonhar”
(Vicent van Gogh – pintor holandês, morreu aos 37 anos num ato de suicídio)

No dia 10 de setembro, foi comemorado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Durante todo o mês, prédios públicos estarão iluminados com a cor amarela, como forma de alerta. O movimento “Setembro Amarelo” é estimulado mundialmente pela IASP – Associação Internacional pela Prevenção do Suicídio – e tem por objetivo conscientizar a população sobre a realidade do suicídio e mostrar que existe prevenção. A ideia é discutir o assunto e divulgar ações preventivas. Continuar lendo

Comunicação de Más Notícias: O cuidado começa com as palavras

“São como um cristal, as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras, orvalho apenas.” (Eugénio de Andrade)

No final da década de 80 eu tive a honra de conhecer e fazer um trabalho voluntário junto a Brenda Lee, militante transexual brasileira, pioneira no apoio e acolhimento à portadores da AIDS. Considerada o anjo da guarda das travestis, criou em 1986 a Casa de Apoio Brenda Lee, no centro de São Paulo, com objetivo de acolher e dar assistência médica, social, moral e material às pessoas com HIV. E, naquela época, receber tal diagnóstico era como receber uma sentença de morte. Lembro-me das histórias que ouvi, a maioria de muita dor psíquica e angústia existencial, que a forma como o diagnóstico fora comunicado havia sido tão cruel e insensível que eles/elas jamais esqueceriam as palavras ditas pelo médico.

Continuar lendo

Direito à Morte: é possível escolher a forma de morrer?

“Existirmos: a que será que se destina?” (Cajuína, Caetano Veloso) 

Recentemente no meu curso de mestrado na Universidade de Lisboa tivemos a oportunidade de discutir um pouco sobre as questões éticas e bioéticas que envolvem um processo de morte e, claro, até mesmo questões espirituais que permeiam o morrer. Nos foi solicitado fazer um exercício sobre o tema e, eu escolhi um filme para ilustrar algumas ideias. Reproduzirei uma parte do meu ensaio para este tema, no qual expus minha opinião.

Continuar lendo

Testamento Vital: devo fazer um testamento expressando como quero morrer?

“Que papel é apropriado desempenharmos na nossa própria morte?” (Margaret Battin)

Penso que seja pertinente, antes de responder à pergunta título deste post, explicar o que seja um Testamento Vital e qual o seu propósito. Afinal, este é um termo que começa a circular na mídia, mas percebo que centenas de pessoas não fazem ideia do que se trata e muito menos sua finalidade. Comecemos pelo básico.

Continuar lendo

Morrer, Entristecer e Viver!

“O que fazer quando a gente perde alguém que ama muito?” (Ana Holanda)

Todos os dias eu reservo pelo menos 2h00 para cuidar das minhas mídias sociais e responder aos vários e-mails e mensagens que recebo ao longo do dia. Também aproveito para ler as publicações de alguns colegas e de pessoas que considero interessantes. Na semana passada, em meio a várias postagens, uma me chamou muito a atenção. Era uma conversa entre mãe e filho; uma conversa sobre a morte, o medo e o luto.

Continuar lendo