Vamos conversar sobre a morte?

“Não podemos estar realmente vivos sem termos a consciência de que morreremos um dia” (Frank Ostaseski)

A sociedade moderna possui novos assuntos interditos e dentre eles está a morte. Hoje os pais conversam com seus filhos sobre drogas e métodos contraceptivos, porém na minha prática clínica/hospitalar tenho observado que pais e filhos não conversam sobre a morte. Quando algum membro da família começa a falar sobre este tema alguém automaticamente diz – para com isso, que assunto mais chato, tanta coisa boa para conversar e você quer falar de morte, que bobagem. No entanto, a morte faz parte do desenvolvimento humano e precisamos conversar sobre ela.

Sim, eu sei que conversar sobre a morte não é uma tarefa fácil, principalmente quando consideramos a complexidade dos aspectos emocionais e afetivos que o assunto naturalmente evoca nas pessoas. Pode ser muito difícil iniciar um diálogo com sua família. Entretanto, há certos tópicos práticos que fazem parte da morte e do morrer e que são muito importantes de serem discutidos.

Inspirada numa postagem da Cruse Bereavement Support irei compartilhar alguns dos tópicos a serem abordados nesta fascinante conversa.‎

A organização desses tópicos é um ponto de extrema importância no processo de luto dos familiares, pois quando os herdeiros sabem o que fazer, conhecem o desejo manifestado do seu ente querido, e sabem as senhas de acesso, isso pode contribuir para a regulação do estresse e da ansiedade durante o processo de luto. Com efeito, além do impacto prático no dia a dia e no acesso a diversos recursos, inclusive financeiros, não saber as senhas de acesso pode gerar um elevado grau de ansiedade nas pessoas enlutadas e tornar o período de luto ainda mais traumático.

A morte é um tema que nos convida à reflexão sobre a vida e sobre o que temos feito com ela. Discutir sobre a morte pode ter um impacto profundo sobre o nosso propósito de vida. Enfim, é essencial dialogar e refletir sobre a morte e o morrer. É por sermos seres mortais que podemos compreender o verdadeiro significado da vida.

Psic. Mestre em Cuidados Paliativos
Psic. Especialista em Perdas e Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Referências:

Cruse Bereavement Support [site]. Disponível em: https://www.cruse.org.uk/

Você também encontrar mais informações nos posts abaixo:

Legado Digital: quem herdará seu patrimônio digital após a sua morte?

“Quem era, como era. Somos só memória à espera de não sermos esquecidos” (Memória, Ana Bacalhau)

No dia 01 de junho eu defendi minha dissertação de mestrado e o tópico central desse trabalho de pesquisa foi sobre legado digital. Eu investiguei o conhecimento dos meus colegas da área da saúde que trabalham em unidades de cuidados paliativos, no Brasil e em Portugal, sobre esse tema. A pesquisa foi respondida por 243 profissionais, e como era de se esperar, 98,8% disseram ser usuários de plataformas de mídias digitais. Entretanto, 52,7% declararam não ter nenhum conhecimento sobre legado digital e 46,5% confessaram não ter nenhum conhecimento sobre a forma como as empresas provedoras de mídias tratam os dados de seus usuários após a sua morte.

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Etiqueta para a Morte, o Morrer e o Luto na Era Digital

“A essência da etiqueta para a morte, o morrer e o luto na era das mídias digitais é ter bom senso, discrição e cuidado para com a dor do outro” (Nazaré Jacobucci)

Desde fevereiro de 2020 que a vida aqui na Europa começou a mudar gradualmente, e após meses o que nos era familiar agora nos é estranho. O familiar e seguro tornou-se desconhecido e, por vezes, ameaçador. A estabilidade física e mental foi violentamente lançada ao medo e à insegurança. Estar com entes queridos e pessoas do nosso convívio social é definido agora como perigoso. O primeiro país a experimentar esse estranhamento fora a Itália, país severamente afetado pela Covid-19, e logo todo o velho continente sucumbiu ao vírus. Assim como, outros continentes também foram implacavelmente afetados pela pandemia. A vida como pensávamos não existe mais. Tivemos que implementar, num curto espaço de tempo, novos hábitos, e estes incluem a digitalização do morrer e da morte.

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