Filmes: Possibilidades de Reflexão sobre a Morte e o Luto

Antonius – Nenhum homem pode viver com a morte e saber que tudo é nada
Morte – A maioria das pessoas não pensam nem na morte ou no nada”.
(Filme O Sétimo Selo – Ingmar Bergman)

Eu sou uma cinéfila confessa. Considero a sétima arte absolutamente sublime. Como professora, considero filmes uma ótima ferramenta de auxílio para a compreensão de diversos conceitos. Os filmes não só nos divertem, mas são capazes de nos fazer refletir, favorecendo assim novas formas de lidar com questões e conflitos do nosso cotidiano. Compartilho, então, algumas sugestões de filmes que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.

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Despedir-se: A difícil arte de dizer “Adeus”

“A vida me ensinou…
A dizer adeus às pessoas que amo, sem tira-las do meu coração” (Charles Chaplin)

No final de 2017, como faço todos os anos, eu tirei um tempo para relembrar e refletir sobre todas as perdas que sofri ao longo do ano. Não foram poucas. Infelizmente, por uma questão geográfica, eu não pude me despedir de pessoas tão queridas.

Poder despedir-se de quem amamos é de uma magnitude que está na categoria do indizível. Contudo, hoje as pessoas têm medo de dizer “adeus”. Muitas pensam que essa atitude pode atrair a morte mais rápido e, por conta desse medo, perdem a oportunidade de dar aquele abraço único que ficará para sempre na memória. Outras preferem acreditar que aquela intervenção milagrosa feita na UTI terá o poder de reanimar seu ente querido e elas terão a chance de se despedir mais tarde. Eu estava justamente pensando sobre o porquê de as pessoas ficarem tão bravas comigo quando eu as questiono sobre – “você já se despediu do seu ente querido?” – parece que estou fazendo uma pergunta ofensiva. Claro, que esta pergunta só deve ser feita num contexto específico e com muita delicadeza.  Então me deparei com o texto abaixo, escrito pelo Psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, que me autorizou a compartilhá-lo na íntegra, que nos mostra que precisamos reaprender a nos despedir.

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Dia dos Mortos: Um dia para celebrarmos as memórias

“Os mortos são invisíveis, e não ausentes”. (Victor Hugo)

No dia 02 de novembro vários países e culturas celebram e homenageiam seus ancestrais que se encontram em outra dimensão. Dependendo do contexto histórico, social e cultural em que o sujeito está inserido, o dia pode ganhar um viés festivo ou pode ser um dia para reflexão e oração. Eu penso que seja o dia de celebrarmos as boas e eternas recordações…

Neste sentido, a tradição religiosa de se ter um dia para lembrarmos e rezarmos pelos nossos antepassados, iniciou-se por volta de 998 DC, quando o abade Odilo de Cluny, em Borgonha na França, estabeleceu aos membros de sua abadia e a todos aqueles que professavam a fé da Ordem Beneditina a obrigatoriedade de se rezar pelos mortos. Segundo Fernandes, a partir do século XII, essa data popularizou-se em todo o mundo cristão medieval como o Dia de Finados, e não apenas no meio clerical. Apesar do processo de secularização e laicização que o mundo ocidental tem passado desde a entrada da Modernidade, o dia 02 de novembro ainda é caracterizado como sendo um dia específico para se meditar e rezar pelos mortos.

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Tanatofobia: o medo excessivo da morte

“Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte” (Arthur Schopenhauer)

Segundo Almeida, morte e vida coabitam o intrincado tecido biológico, físico, mental, psicológico e espiritual que constitui a identidade de cada pessoa desde a nossa concepção. A morte é também o grande mistério que compõe a vida.

Há uma área do conhecimento, a Tanatologia, que se dedica a estudar e compreender esse fenômeno denominado morte em suas particularidades e/ou outros fenômenos a ela relacionados. A palavra Tanatologia origina-se do grego “Thánatos” que na mitologia grega representa a morte.

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Você já se fez esta pergunta: O que é uma “boa morte”?

“A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim…” (Mario Quintana)

Na sociedade moderna há uma tendência, principalmente entre alguns médicos, de assimilar a morte de um paciente como um fracasso. O avanço tecnológico da medicina e seus infindáveis recursos para prolongar a vida – às vezes, desnecessariamente – são potencializadores desse pensar médico. Então, busca-se por meio desses recursos prorrogar a vida ignorando o fato de que o apito final já soara.

Neste sentido, há uma pergunta que precisamos nos fazer, e com certa urgência. Afinal, o que constitui uma “boa morte”? O que queremos quando trazemos para discussão algo tão subjetivo quanto esta desconcertante pergunta? Queremos provocar uma reflexão sobre uma das maiores questões da vida: a arte de morrer bem.

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A arte de morrer: questões pertinentes

Antonius – Nenhum homem pode viver com a morte e saber que tudo é nada
Morte – A maioria das pessoas não pensam nem na morte ou no nada”.  
(Filme O Sétimo Selo – Ingmar Bergman)

Estou fazendo um curso, sobre a morte e o morrer, com um conteúdo muito interessante que tem me posto a refletir sobre as questões que permeiam a arte de morrer. Uma das atividades foi sobre a contribuição dos filmes para reflexão sobre esta temática. Tínhamos que escolher dois filmes: um clássico e um moderno. Eu escolhi O Sétimo Selo e Encontro Marcado para compor a minha análise. Minha escolha se deu por considerar ambos os filmes interessantes.

Em O Sétimo Selo, Antonius Block é um cavaleiro que retorna das Cruzadas para uma Suécia devastada pela peste negra e pela Inquisição promovida pela igreja católica. Contudo, ele também tem um encontro marcado com a Morte. Porém, para ganhar tempo, ele rejeita o fim da sua existência. Ele, então, desafia a morte para uma partida de xadrez, com o objetivo de driblá-la.

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Música e Cuidado Paliativo para o enfretamento das dores físicas e psicoemocionais

“Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier”. (Sérgio Britto – Titãs)

Todos nós sabemos que ao ouvir uma boa música somos tomados por uma sensação de bem-estar. Esta sensação pode trazer benefícios para a saúde, tais como melhorar o humor e reduzir o estresse e a ansiedade.

A música como recurso terapêutico, principalmente no contexto hospitalar, pode ser uma ferramenta para o paciente enfrentar sua condição clínica. A música pode auxiliar no aumento da capacidade respiratória, pode estimular a coordenação motora, pode aliviar as dores de cabeça, pode auxiliar o paciente a suportar as crises que uma doença crônica traz e também a suportar as dores físicas e psíquicas. Desse modo, a música é um recurso terapêutico em potencial, por seu caráter de linguagem e de expressão e por possibilitar a conexão com conotações ligadas à área afetivo-emocional, relacionadas aos sentidos que o indivíduo e seu contexto atribuem ao fenômeno musical. (SekiI; GalheigoII, 2010).

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Alzheimer: o cessar lento da memória, não dos laços afetivos

“Alzheimer apaga a memória, não os sentimentos”. (Pasqual Maragall)

A população mundial está ficando mais velha. Em países desenvolvidos a expectativa de vida ultrapassa os 82 anos. Contudo, com o envelhecimento da população há uma maior incidência de doenças crônicas degenerativas, entre elas as demências, sendo a Doença de Alzheimer a forma mais comum de demência.

A doença de Alzheimer (DA) é essencialmente uma síndrome neurológica degenerativa, progressiva e irreversível. A DA deteriora as funções cognitivas –  memória, orientação, atenção e linguagem –  causada pela morte de células cerebrais. Esta deterioração interfere diretamente na autonomia e na qualidade de vida do indivíduo, impactando significantemente suas atividades cotidianas.

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Os Cinco maiores arrependimentos dos pacientes em final de vida

“Vida é uma escolha. É a sua vida. Escolha conscientemente, escolha sabiamente, escolha honestamente. Escolha a felicidade”. (Bronnie Ware)

Esta semana eu estava preparando uma aula sobre cuidados paliativos e ao reler alguns textos me deparei com alguns da enfermeira australiana Bronnie Ware. Com certeza um dos mais importantes contributos da autora é o livro “The Top Five Regrets of the Dying” onde ela descreve os cinco maiores arrependimentos relatados pelos seus pacientes em final de vida.  Bronnie Ware passou vários anos trabalhando em cuidados paliativos, cuidando de pacientes nas últimas semanas de suas vidas. Bronnie escreveu em seu blog “as pessoas crescem muito quando elas são confrontadas com a sua própria mortalidade. Eu aprendi a nunca subestimar a capacidade de alguém de enfrentar momentos difíceis. Algumas mudanças aconteceram e foram fenomenais. Cada paciente experimentou uma variedade de emoções, como esperado, negação, medo, raiva, remorso, mais negação e, eventualmente, aceitação. Contudo, cada paciente encontrou a sua paz, antes de partir”.

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Educar para a morte

“Sabemos o momento em que nossa vida começa e, obviamente, não temos ideia quando ela terminará. Não sabemos quanto tempo teremos do primeiro ato da nossa existência até o último, em que teremos que sair de cena”. (Nazaré Jacobucci)

Hoje eu li este texto escrito pelo caríssimo Prof. Dr. Franklin Santana Santos e adorei! Por isso, decidi compartilhá-lo com vocês.

“Educar para a morte é uma necessidade, diria mesmo uma urgência. Na nossa sociedade discutimos todo e qualquer assunto seja na rua, em casa, nas escolas e universidades, exceto a morte.

O assunto tornou-se tabu e o medo nos paralisou. Colocar a morte de escanteio, na periferia de nossas vidas e da nossa sociedade não diminui o tabu, nem o medo. O historiador francês Philippe Ariès já nos advertia que deixar de pensar na morte não a evita ou a retarda. O pensamento mágico já não funciona para qualquer coisa, quanto mais com a realidade mais certa da vida: a morte. Gostemos ou não, queiramos ou não, crentes ou descrentes, morreremos. Eis a suprema verdade!

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