Morrer, Entristecer e Viver!

“O que fazer quando a gente perde alguém que ama muito?” (Ana Holanda)

Todos os dias eu reservo pelo menos 2h00 para cuidar das minhas mídias sociais e responder aos vários e-mails e mensagens que recebo ao longo do dia. Também aproveito para ler as publicações de alguns colegas e de pessoas que considero interessantes. Na semana passada, em meio a várias postagens, uma me chamou muito a atenção. Era uma conversa entre mãe e filho; uma conversa sobre a morte, o medo e o luto.

Minha querida Ana Holanda, que aqui tomo a liberdade de chamar simplesmente de Ana, postou em seu Instagram a conversa que tivera com seu filho Lucas de apenas 10 anos a caminho de um café. Eu confesso que li a postagem várias vezes e também a li para várias pessoas, pois as palavras daquele garoto tocaram a minha alma de tal forma que senti uma vontade enorme de escrever sobre esta conversa.

Ana havia levado seu filho ao médico, ele estava com otite. Na volta para casa ela o convida para um café e no caminho ele confessa o mais genuíno dos medos: “Mãe, eu tenho medo que você morra”. Ana, mesmo com um nó na garganta, escolheu o caminho da coragem. Ela escolheu o caminho do amor. Ela não mudou de assunto e não menosprezou aquele sentimento expressado por Lucas. Ela acolheu o medo do seu filho com todo afeto. Quem conhece Ana sabe de que afeto estou falando. Ela simplesmente lhe respondeu: “Eu também tenho medo de perdê-lo. Muito”. Ana validou o que todos nós sentimos: o temor de perdermos alguém que amamos. Ela, então, lhe fez uma pergunta: “O que fazer quando a gente perde alguém que ama muito?”. Ah! A resposta foi de uma magnitude inesperada. Ele respondeu: “A gente sofre por alguns dias. Deve doer bastante, mas acho que depois a gente entende que tem que seguir em frente, mãe”.

Meu caro Lucas, eu te diria que dói muito mesmo e que talvez a gente sofra muito mais que alguns dias. Mas você tem razão. Depois, com muita paciência para com nossos sentimentos, nós vamos assimilando a perda e quando compreendemos a ausência e a integramos dentro de nós, tornamo-nos capazes de seguir em frente novamente. Sim! É possível.

No entanto, o menino Lucas tinha mais um medo a confessar para sua mãe. Diante de um wafle com frutas ele diz: “Mãe, só tenho mais um medo”. Ana, que ali estava inteira naquele encontro despiu-se de qualquer temor e pergunta: “Qual?”. Eis que ele responde: “O de morrer sem fazer tudo o que eu gostaria, de morrer sem ser livre, sem ter vivido o suficiente”.

Devo confessar que ao ler esta resposta, eu chorei. Este é o seu medo, é o meu medo, e é o medo de todos nós. O quão humano há nesta inquietação. Ah! Como eu temo em morrer sem ter feito algumas coisas que ainda quero fazer. Temo em morrer longe da minha família em terras estranhas. Mas, não temos como controlar a morte. Ela acontecerá em algum momento e não temos a menor ideia de quando será. Tentar controlar a morte é como tentar controlar as batidas do coração; impossível. Ela simplesmente acontecerá. E penso eu que mesmo se morrer aos 100 anos ainda assim ficarei com a sensação de não ter vivido o suficiente. O que posso lhe dizer caro Lucas é que viva cada momento como se fosse único. Deguste cada pedacinho do seu próximo wafle na companhia da sua doce mãe. E, se possível, tenha um caderno onde você possa anotar todas as boas memórias que a vida lhe ofertar e sinta gratidão por elas.

Ana em sua generosidade não compartilhou conosco apenas este encontro entre mãe e filho. Por meio da sua escrita afetuosa, ela compartilhou um olhar desprovido de preconceitos sobre a morte e o morrer, e todos os medos que abarcam esta dimensão do viver. Eu diria que todos os que leram foram tocados, de alguma forma, pela sua escrita e por este encontro. Ela encerra com um lembrete para si mesma, mas que vale para todos nós: Viva!

Nazaré Jacobucci
Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Nota: Ana Holanda é jornalista, editora-chefe da revista Vida Simples desde 2011 e escritora. É professora e embaixadora da The School of Life no Brasil. Possui um projeto intitulado: Escrita Criativa e Afetuosa. Este projeto se transformou num curso; é um mergulho na chamada escrita afetuosa, aquela que toca, afeta, marca, conversa verdadeiramente com o outro.
Um curso excelente! Todas as informações em https://anaholanda.com.br/

Antes de Eu Morrer (Before I die)

“Antes de eu morrer, eu quero organizar minha festa fúnebre. (Before I die I want to organize my funeral party)” (Sicília, Itália)

Ao perguntarmos para uma pessoa o que ela deseja em sua vida, a resposta pode ser simples – “eu quero comprar uma casa, um carro, quero ter filhos, quero estudar, quero fazer uma viagem incrível…” ou a resposta pode ser complexa – “eu quero alcançar a felicidade plena, quero descobrir a cura para a AIDS…” mas, quando eu pergunto: o que você deseja de fato antes de morrer? Geralmente, a pessoa fica em silêncio e a sensação que tenho é que fiz uma pergunta incômoda. Pois, muitos de nós não se atenta ao fato de que um dia não haverá mais listas de desejos a almejar; simplesmente porque morremos.

Apesar de ser, normalmente, um assunto incômodo, falar sobre nossos desejos antes da morte pode ser uma possibilidade para lançarmos nosso olhar para o que realmente importa, ajuda no planejamento de projetos de vida. Mas, projetos que alimentam a alma. Quando tomamos consciência da nossa mortalidade, não podemos perder a chance de concretizar sonhos e projetos que estão ao nosso alcance aqui e agora.

Candy Chang em seu processo de luto, após perder uma pessoa muito querida, criou o projeto Before I die na cidade de Nova Orleans. Durante o processo seu mundo interior não parecia pertencer ao exterior e, olhando para as mensagens que ela via quando caminhava pela rua, percebeu o quanto evitamos enfrentar a morte. O projeto Before I die (Antes de Morrer) reinventa a maneira pela qual uma simples parede de nossas cidades pode nos aproximar da morte e ajudar a lidar com seu significado.

Candy fez um estêncil caseiro que dizia: “Antes de eu morrer, eu quero _____”, e com a ajuda de velhos e novos amigos, ela pintou o lado de uma casa em ruínas, em seu bairro, um painel. Ela escreveu a primeira frase no painel e deixou vários espaços lá para que qualquer pessoa que estivesse passando pela calçada pudesse pegar um pedaço de giz e por um instante parasse para refletir sobre a morte e a vida e compartilhasse suas aspirações pessoais em público.

No dia seguinte, a parede estava repleta de respostas interessantes: ”Antes que eu morra, quero … seguir meu sonho de infância; ver minha filha se formar; abandonar todas as inseguranças; recuperar minha esposa; ver meus alunos se tornam professores…”. A parede havia se tornado uma bagunça honesta de saudade, dor, alegria, insegurança, gratidão, medo e admiração que você encontra em todas as comunidades. Enquanto lia as respostas, Candy entendia seus vizinhos e lembrou-se de que não estava sozinha enquanto tentava dar sentido à sua vida. Hoje o mural de Candy, graças a pessoas apaixonadas em todo o mundo, está presente em mais de 4.000 paredes ao redor do mundo, em mais de 75 países e em 36 idiomas.

Eu sei o quão difícil é em nosso dia-a-dia em meio a agendas lotadas de compromissos, às vezes não tão imprescindíveis assim, nos apercebermos o que de fato é relevante e de voltar nosso olhar para o que realmente importa. Temos dificuldade em parar e priorizar os nossos reais desejos diante de tantos estímulos inúteis disponíveis na sociedade atual. Na minha experiência com pessoas em final de vida é surpreendente a simplicidade dos desejos que elas gostariam de realizar antes de morrer. E muitos destes estavam ali o tempo todo ao alcance da mão, mas o “prescindível” das suas agendas não os deixaram realizar o imprescindível para a alma. Concordo com Hilda Hilst quando ela diz: “Ah, se as pessoas tivessem noção do transitório, de como é breve tudo isso” com certeza se tivéssemos esta noção não perderíamos tempo com o insignificante.

Por isso, te convido a parar, respirar, ficar em silêncio, pensar e indagar a si mesmo. Minha vida está pautada no imprescindível? Antes de eu morrer, eu quero______?

Se sentir vontade compartilhe nos comentários seu desejo.

Nazaré Jacobucci
Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Referências:
Before I Die [site]. Disponível em: https://beforeidieproject.com/

Envelhecimento: Reflexões sobre o processo de luto e perdas da pessoa idosa

“Pobre velho que, no curso de sua longa vida, não tenha se apercebido que deve arredar o medo da morte” (Marco Túlio Cícero)

Estou temporariamente residindo em Lisboa, devido ao meu curso de mestrado em cuidados paliativos, e andando pelo meu bairro, no transporte público e nas dezenas de cafés espalhados por Lisboa, observei que esta é uma cidade com um número considerável de idosos, assim como em Reading, minha cidade na Inglaterra e demais cidades europeias. Portugal e Reino Unido têm hoje aproximadamente mais de 2 milhões e 3 milhões de idosos respectivamente.

Contudo, segundo o Ageing Working Group of the Economic Policy Committee (EPC) e o European Commission’s Directorate-General for Economic and Financial Affairs (DG ECFIN), a Alemanha e a Itália é que possuem a maior percentagem de idosos acima de 65 anos. A União Europeia possui uma projeção de 520 milhões de pessoas idosas em 2070. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de pessoas com idade superior a 65 anos chegará a 2 bilhões até 2050. Isso representará um quinto da população mundial.

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Questões Práticas: Quanto custa morrer?

“Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha”. (Baden Powell / Paulo César Pinheiro)

Noto um certo estranhamento quando alguém me pergunta qual é minha área de atuação e eu respondo que trabalho com pessoas enlutadas. Mas, o estranhamento maior é quando explico que também ajudo pessoas em final de vida e seus familiares a compreenderem a morte. Neste momento, observo o quão falar da morte é algo incomum e, para algumas pessoas, constrangedor.

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Capelania: A importância do Cuidado Espiritual em Cuidados Paliativos

“Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma “faiá”. (Gilberto Gil)

Como já discutimos em posts anteriores, Cuidado Paliativo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, é uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes adultos, crianças e famílias que enfrentam problemas associados a doenças que ameaçam a vida. Previne e alivia o sofrimento por meio da identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e outros problemas físicos, psicossociais ou espirituais (WHO, 2017).

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A Imprevisibilidade acontece nas horas, nos minutos, nos segundos…

“Somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”. (Ayrton Senna)

Estamos vivenciando um momento único. Goste você ou não, a Copa do Mundo é este momento. Povos dos 5 continentes estão reunidos num mesmo local experienciando os mesmos sentimentos e emoções. Tudo pode acontecer naqueles incríveis e imprevisíveis 90 minutos e, antes que o juiz sopre seu apito sentenciando o fim, tudo pode acontecer.

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Filmes: Possibilidades de Reflexão sobre a Morte e o Luto

Antonius – Nenhum homem pode viver com a morte e saber que tudo é nada
Morte – A maioria das pessoas não pensam nem na morte ou no nada”.
(Filme O Sétimo Selo – Ingmar Bergman)

Eu sou uma cinéfila confessa. Considero a sétima arte absolutamente sublime. Como professora, considero filmes uma ótima ferramenta de auxílio para a compreensão de diversos conceitos. Os filmes não só nos divertem, mas são capazes de nos fazer refletir, favorecendo assim novas formas de lidar com questões e conflitos do nosso cotidiano. Compartilho, então, algumas sugestões de filmes que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.

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Despedir-se: A difícil arte de dizer “Adeus”

“A vida me ensinou…
A dizer adeus às pessoas que amo, sem tira-las do meu coração” (Charles Chaplin)

No final de 2017, como faço todos os anos, eu tirei um tempo para relembrar e refletir sobre todas as perdas que sofri ao longo do ano. Não foram poucas. Infelizmente, por uma questão geográfica, eu não pude me despedir de pessoas tão queridas.

Poder despedir-se de quem amamos é de uma magnitude que está na categoria do indizível. Contudo, hoje as pessoas têm medo de dizer “adeus”. Muitas pensam que essa atitude pode atrair a morte mais rápido e, por conta desse medo, perdem a oportunidade de dar aquele abraço único que ficará para sempre na memória. Outras preferem acreditar que aquela intervenção milagrosa feita na UTI terá o poder de reanimar seu ente querido e elas terão a chance de se despedir mais tarde. Eu estava justamente pensando sobre o porquê de as pessoas ficarem tão bravas comigo quando eu as questiono sobre – “você já se despediu do seu ente querido?” – parece que estou fazendo uma pergunta ofensiva. Claro, que esta pergunta só deve ser feita num contexto específico e com muita delicadeza.  Então me deparei com o texto abaixo, escrito pelo Psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, que me autorizou a compartilhá-lo na íntegra, que nos mostra que precisamos reaprender a nos despedir.

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Dia dos Mortos: Um dia para celebrarmos as memórias

“Os mortos são invisíveis, e não ausentes”. (Victor Hugo)

No dia 02 de novembro vários países e culturas celebram e homenageiam seus ancestrais que se encontram em outra dimensão. Dependendo do contexto histórico, social e cultural em que o sujeito está inserido, o dia pode ganhar um viés festivo ou pode ser um dia para reflexão e oração. Eu penso que seja o dia de celebrarmos as boas e eternas recordações…

Neste sentido, a tradição religiosa de se ter um dia para lembrarmos e rezarmos pelos nossos antepassados, iniciou-se por volta de 998 DC, quando o abade Odilo de Cluny, em Borgonha na França, estabeleceu aos membros de sua abadia e a todos aqueles que professavam a fé da Ordem Beneditina a obrigatoriedade de se rezar pelos mortos. Segundo Fernandes, a partir do século XII, essa data popularizou-se em todo o mundo cristão medieval como o Dia de Finados, e não apenas no meio clerical. Apesar do processo de secularização e laicização que o mundo ocidental tem passado desde a entrada da Modernidade, o dia 02 de novembro ainda é caracterizado como sendo um dia específico para se meditar e rezar pelos mortos.

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Tanatofobia: o medo excessivo da morte

“Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte” (Arthur Schopenhauer)

Segundo Almeida, morte e vida coabitam o intrincado tecido biológico, físico, mental, psicológico e espiritual que constitui a identidade de cada pessoa desde a nossa concepção. A morte é também o grande mistério que compõe a vida.

Há uma área do conhecimento, a Tanatologia, que se dedica a estudar e compreender esse fenômeno denominado morte em suas particularidades e/ou outros fenômenos a ela relacionados. A palavra Tanatologia origina-se do grego “Thánatos” que na mitologia grega representa a morte.

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