“A vida adulta é cheia de despedidas silenciosas. Perdas miúdas, discretas, que não ganham nome nem ritual, mas que deixam marcas onde só nós alcançamos” (Psic. Nazaré Jacobucci)
Olá, caro leitor!
Há tempos eu ensaiava escrever sobre as perdas e os pequenos lutos que atravessamos ao longo dos ciclos da vida — desde a infância até a fase adulta — e que só reconhecemos, de fato, quando já habitamos a maturidade. Entre a rotina profissional e tantos outros afazeres, fui adiando essa escrita. Mas, nesta semana, ao me deparar com uma publicação da psicóloga Ananda Mendonça no Instagram, intitulada “As Pequenas Mortes da Vida Adulta”, senti novamente o chamado para refletir sobre esse tema que nos toca de maneira tão silenciosa quanto profunda.
Quando mencionamos a palavra luto, quase sempre pensamos em morte física ou em rupturas dramáticas. Mas, como bem lembrou Ananda, existem perdas abstratas e simbólicas que atravessam a vida e nos conduzem a processos de luto silenciosos, muitas vezes, não reconhecidos nem por nós mesmos. Ela cita exemplos que todos conhecemos intimamente: o distanciamento de um grupo de amigos, o fim de um ciclo escolar — ensino fundamental, ensino médio, a universidade que parecia interminável, a mudança de uma cidade onde construímos rotinas, hábitos e pequenos rituais que um dia foram tão naturais quanto respirar. Há também o ato de se aposentar de um trabalho que, por anos, organizou nossos horários, nossa identidade e até a forma como nos apresentávamos ao mundo.
O interessante é que muitas pessoas atravessam essas transformações da vida com relativa leveza, sem perceber que ali também houve perdas e, consequentemente, pequenos processos de luto silenciados pelas exigências e responsabilidades que a vida adulta impõe. Por outro lado, há quem sinta um desconforto profundo diante dessas mudanças inevitáveis, mas não consiga nomear o que sente — nem compreender por que sente.
Como descreve Ananda, esse desconforto não é exatamente tristeza — embora haja tristeza. Não é exatamente saudade — embora haja saudade. É uma mistura curiosa de nostalgia, deslocamento e a sensação incômoda de que algo terminou, mesmo que a maioria das pessoas ao nosso redor pareça não ter percebido. Em algum momento, percebemos que mais uma fase do ciclo da vida simplesmente deixou de existir. Os amigos e vizinhos daquela época já não estão tão próximos, os lugares mudaram, a rotina agora é outra, as conversas são outras, as preocupações também. Até a forma como nos enxergávamos se transformou e isso, por vezes, é profundamente desconcertante.
Esse desconforto pode, sim, nos conduzir a um estado de melancolia. O Filósofo e Sociólogo Walter Benjamin, em suas reflexões sobre infância, memória e experiência, nos lembra que a nostalgia não é exatamente o desejo de voltar ao passado, mas a percepção aguda e melancólica, de que o tempo transforma lugares antes familiares em territórios que já não nos pertencem. E essa transformação altera também o sentido da experiência vivida. Diferente de uma melancolia reacionária, que deseja restaurar uma ordem perdida, a nostalgia benjaminiana reconhece a irreversibilidade do passado, mas valoriza seus vestígios como algo inesquecível. Em suma, não sentimos falta apenas das pessoas, dos lugares ou das circunstâncias; sentimos saudade da forma como existíamos naquele tempo.

Cada fase da vida carrega consigo uma espécie de ecossistema emocional. Existem versões de nós mesmos que só existem dentro de determinados contextos: o estudante universitário que acreditava poder transformar o mundo com seu conhecimento; a pessoa apaixonada que imaginava uma relação capaz de atravessar décadas; o profissional que construiu sua identidade em torno de um trabalho que, um dia, deixou de existir. Quando esses contextos desaparecem, não é apenas o cenário que muda — uma parte da identidade também se dissolve. E é justamente aí que um processo de luto se instala. O problema é que quase ninguém nomeia essa transição como luto. Nesse momento, precisamos parar, respirar e nos conceder tempo para nos reorganizarmos psíquica e emocionalmente. Essa pausa é fundamental para chegarmos mais inteiros ao próximo ciclo, que inevitavelmente exigirá de nós novas responsabilidades.
A tarefa de compreender intelectualmente que algo se findou é um trabalho contínuo, que permite à mente se desapegar, pouco a pouco, dos vínculos invisíveis que ainda nos prendem ao que já pertence ao passado. Como costumo pontuar, o processo de luto acontece por meio da assimilação dos fatos. Primeiro percebemos que não frequentamos mais certos lugares; depois, que algumas conversas desapareceram; mais adiante, que determinadas versões de nós mesmos já não fazem sentido.
Quando nos damos conta, aquele capítulo inteiro da vida já terminou mas, muitas vezes, não vivenciamos o luto como poderíamos e deveríamos. Sentimentos e emoções permanecem ali, produzindo angústia e tristeza, simplesmente porque não reconhecemos que o fim de um ciclo também implica uma perda e toda perda inaugura um processo de luto.
Assim como pontuou Ananda em seu post, nem todo luto nasce de uma perda evidente. Às vezes, ele surge simplesmente porque o tempo passou, uma fase do ciclo vital terminou, e a vida — com sua delicadeza um tanto impiedosa — decidiu virar a página enquanto nós ainda estávamos relendo o último parágrafo do capítulo anterior.
E você, quais perdas lhe atravessaram de forma mais profunda nas mudanças de fase da vida?

Livro à Venda – Autora do Livro: Legado Digital: Conhecimento, Decisão e Significado – Viver, Morrer e Enlutar na Era Digital
Referências:
Gonçalves, N. Walter Benjamin, o marxista da nostalgia. 21 nov. 2025. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/walter-benjamin-o-marxista-da-nostalgia/
Mendonça, A. As Pequenas Mortes da Vida Adulta. Instagram. 09 mar. 2026.