“Na solidão da escuridão, quase consegui sentir a finitude da vida e sua preciosidade. Não damos valor, mas ela é frágil, precária, incerta, capaz de terminar a qualquer momento, sem aviso”. (Livro: Marley e Eu)
O Luto é um processo que se inicia após o rompimento de um vínculo e estende-se até o período de sua elaboração – quando o indivíduo enlutado volta-se, novamente, ao mundo externo. O luto é um processo essencial para que nós possamos nos reconstruir, nos reorganizar, diante do rompimento de um vínculo. É um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que lidar. Inclui transformação e ressignificação da relação com o que foi perdido.
“Há em cada um de nós um potencial para a bondade que é maior do que imaginamos; para dar sem buscar recompensa; para escutar sem julgar; para amar sem impor condições”(Elizabeth Kubler-Ross)
Há várias áreas em que a atuação do profissional de psicologia se faz absolutamente necessária. A área hospitalar é uma delas. Trabalhei por alguns anos em hospitais da rede pública e privada na cidade de São Paulo e o meu papel era fornecer suporte ao paciente em adoecimento. Nós psicólogos especializados em hospitalar visamos minimizar o sofrimento psíquico do paciente em processo de adoecimento e/ou hospitalização. Nós buscamos, por meio da escuta ativa, compreender o que representa aquela doença na vida cotidiana daquele sujeito e o impacto desta no seu contexto familiar. E, junto com ele, tentamos ressignificar seu adoecimento e compreender esse momento de transição e transformação.
“A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim” (Este quarto – Mário Quintana)
Há numerosas formas de nos depararmos com o fato de que nossa vida e a vida dos nossos entes queridos têm um fim. Ir a um funeral é uma delas. Devo concordar, funerais são de fato um dos eventos sociais mais difíceis de se participar. Por isso, a maioria das pessoas não gosta de ir a velórios e de participar dos ritos religiosos que se seguem após a morte de alguém. Contudo, participar de um funeral, em geral, é algo muito bom para o processo de luto. É um local para expressarmos nossa dor, para recebermos apoio social e nos permite vivenciar o momento de encerramento de um ciclo.
Como a sociedade moderna não discute a morte, participar de uma cerimônia fúnebre pode ser um momento embaraçoso. A família e alguns amigos próximos podem estar muito fragilizados diante daquela perda. Então, precisamos estar atentos para não causar nenhum constrangimento com comportamentos inadequados. Um funeral precisa ser vivenciado com compostura e serenidade.
“A vida se transforma rapidamente. A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente” (Livro: O ano do pensamento mágico – Joan Didion)
Caros leitores, eu tenho que confessar a vocês: eu sou apaixonada por livros desde a infância. Eu penso que um livro não apenas nos fornece conhecimento. Ele é capaz de nos transportar para lugares inabitados de nossa consciência e, muitas vezes, nos possibilita ter um novo olhar sobre o mundo e sobre nós mesmos. Atendendo a inúmeras solicitações que recebi de profissionais, estudantes e leigos, preparei uma lista com algumas recomendações de leitura. Compartilho, então, algumas sugestões de livros que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.
A Morte e o Morrer
Livro:Sobre a Morte e o Morrer (Elisabeth Kubler-Ross) Este livro é clássico e todos nós profissionais da saúde precisamos ler. O livro descreve como a autora, através de entrevistas com pacientes gravemente doentes e sem possibilidade terapêutica de cura de um hospital de Chicago, chegou aos cinco estágios emocionais pelos quais eles passam durante o processo de morrer. Além disso, descreve as dificuldades encontradas pela equipe multiprofissional ao lidar com o paciente, as notícias difíceis e os familiares. Neste livro a autora transcreve as experiências de seus pacientes que comunicaram suas agonias, expectativas e frustrações.
Livro:Morte e Desenvolvimento Humano (Org. Maria Júlia Kovács) Atualmente, falar sobre morte ainda é um tabu, embora problemas como câncer, aids, desespero, solidão, luto, suicídio e violência constantemente nos remetam a refletir sobre esse tema. Este livro traz à tona a importância de aprendermos a lidar com essa temática de forma a amenizar a dor causada por ela, tanto no nosso cotidiano enquanto pessoas, como no manejo clínico com pacientes que buscam auxílio profissional. Este livro é leitura obrigatória para nós psicólogos.
Livro:A Arte de Morrer Visões Plurais vol. 1, 2 e 3 (Org. Franklin Santana Santos) Esta coleção já se tornou uma referência no Brasil. Trata-se de uma obra escrita por inúmeros especialistas em Medicina, Filosofia, Educação, Psicologia, Enfermagem, Antropologia, Direito, Religiões e outras áreas. Cada qual discorrendo sob a sua perspectiva sobre a temática da morte. Todos os autores são pesquisadores, a maioria doutores das maiores universidades brasileiras, que abordam a questão de maneira interdisciplinar e plural. Apesar de ter esse caráter acadêmico, não se trata de um livro dirigido apenas a estudiosos da questão, mas a todas as pessoas que desejam romper o silêncio em torno da temática da morte.
“Você tem que saber responder a essa pergunta: se você morresse agora, como você se sentiria a respeito da sua vida? ”(Filme Clube da Luta)
Eu sou uma cinéfila confessa. Considero a sétima arte absolutamente sublime. O cinema fez parte da minha formação: meu trabalho de conclusão de curso em psicologia foi uma análise psicossocial do fenômeno suicídio no filme “As Horas“, no qual eu analisei o suicídio de Virginia Woolf. Como professora, considero filmes uma ótima ferramenta de auxílio para a compreensão de diversos conceitos. Os filmes não só nos divertem, mas são capazes de nos fazer refletir, favorecendo assim, novas formas de lidar com questões e conflitos do nosso cotidiano. Compartilho, então, algumas sugestões de filmes que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.
“A vida é um piano. Teclas brancas representam a felicidade e as pretas, a angústia. Com o passar do tempo você percebe que as teclas pretas também fazem música” (Filme: A última música)
Falar de morte se tornou, infelizmente, um tabu na sociedade pós-moderna e, para muitas pessoas, falar dela é uma tarefa árdua. Contudo, a morte pode nos surpreender a qualquer momento, inclusive na vida cotidiana de uma criança.
Discutir sobre um tabu social, em si mesmo, não é tarefa fácil e torna-se ainda mais difícil discuti-lo quando esse está diretamente relacionado com a morte de uma criança ou de um bebê que, segundo nossa percepção, teriam toda uma vida pela frente. Entretanto, assim como os adultos, as crianças também são acometidas por doenças graves e, infelizmente, muitas dessas doenças não possuem possibilidade terapêutica de cura.
“Como se fora uma brincadeira de roda, memória… Renascer da própria força, própria luz e fé, memória… Não tenha medo, meu menino povo, memória…” (Redescobrir – Gonzaguinha)
Quando eu era criança eu ia ao cemitério com minha mãe visitar o túmulo de meu pai, pois ele morreu quando eu tinha apenas 2 anos e 7 meses. Não havia nenhum problema. Aliás, para mim era tão somente um passeio num lugar cheio de “casinhas” de cimento. Eu sempre fui a velórios e, assim, cresci entendendo que a morte faz parte da vida. Mas, a sociedade moderna está afastando as crianças, cada vez mais, do contexto da morte. Ou seja, os adultos – pais, avós, tios e professores – insistem em não falar de morte com as crianças e consideram inapropriados para elas, lugares como velórios e cemitérios. Entretanto, a morte também é assunto para criança.
“Todas as religiões, todas as artes e todas as ciências são ramos de uma mesma árvore. Todas essas aspirações visam ao enobrecimento da vida humana, elevando-a acima da esfera da existência puramente material e conduzindo o indivíduo para a liberdade” (Einstein)
É inegável que a espiritualidade é uma característica humana que, dentre outros aspectos, proporciona ao indivíduo a possibilidade de encontrar significado e propósito para a sua vida. Embora estejam relacionadas, espiritualidade e religião não são equivalentes. As situações que antecedem e envolvem os processos de morte e o morrer estão entre aquelas em que a espiritualidade e a necessidade de conforto espiritual são visíveis. A crença religiosa traz contida em sua simbologia a sensação de acolhimento e proteção diante da morte.
“A morte, surda, caminha ao meu lado E eu não sei em que esquina ela vai me beijar” (Raul Seixas)
Hoje, em algumas culturas, celebramos o Dia dos Mortos!
Dia dedicado a homenagearmos nossos ancestrais que se encontram em outra dimensão. Eu penso que seja o dia de celebrarmos as boas e eternas recordações…
Dependendo da cultura e de suas crenças, o dia torna-se um momento para refletirmos sobre a finitude da vida, ou seja, sobre nossa própria mortalidade. Ao nos permitirmos refletir sobre a morte podemos atribuir significados à nossa vida. Falar e pensar sobre a morte pode ser um ato transformador. Afinal, um dia todos nós sairemos de cena e seria muito bom se estivéssemos preparados emocionalmente para esta saída.
“Eu me importo pelo fato de você ser você, me importo até o último momento de sua vida e faremos tudo que está ao nosso alcance, não somente para ajudar você a morrer em paz, mas também para você viver até o dia da sua morte” (Cicely Sauders)
Quando pensamos numa morte digna, logo pensamos num processo de morte sem dor e sofrimento psicoemocional. Contudo, nos dias atuais, com o avanço tecno-científico, os hospitais, em sua maioria, possuem um aparato técnico para prolongar a vida até o último recurso, esquecendo-se de que, segundo Moritiz e Nassar, na outra extremidade dos tubos, cabos e drenos, atrás de alarmes e restrito ao leito, encontra-se um ser humano. Eu percebo que há um frequente empobrecimento das relações humanas no âmbito hospitalar.
A ênfase na cura em detrimento do cuidado é fonte de significativo sofrimento não só para pacientes e familiares, mas também para os profissionais da saúde, que rotineiramente se deparam com os limites de suas propostas terapêuticas. (Bruscato; Kitayama, 2008).