Alzheimer: o cessar lento da memória, não dos laços afetivos

“Alzheimer apaga a memória, não os sentimentos”. (Pasqual Maragall)

A população mundial está ficando mais velha. Em países desenvolvidos a expectativa de vida ultrapassa os 82 anos. Contudo, com o envelhecimento da população há uma maior incidência de doenças crônicas degenerativas, entre elas as demências, sendo a Doença de Alzheimer a forma mais comum de demência.

A doença de Alzheimer (DA) é essencialmente uma síndrome neurológica degenerativa, progressiva e irreversível. A DA deteriora as funções cognitivas –  memória, orientação, atenção e linguagem –  causada pela morte de células cerebrais. Esta deterioração interfere diretamente na autonomia e na qualidade de vida do indivíduo, impactando significantemente suas atividades cotidianas.

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Os Cinco maiores arrependimentos dos pacientes em final de vida

“Vida é uma escolha. É a sua vida. Escolha conscientemente, escolha sabiamente, escolha honestamente. Escolha a felicidade”. (Bronnie Ware)

Esta semana eu estava preparando uma aula sobre cuidados paliativos e ao reler alguns textos me deparei com alguns da enfermeira australiana Bronnie Ware. Com certeza um dos mais importantes contributos da autora é o livro “The Top Five Regrets of the Dying” onde ela descreve os cinco maiores arrependimentos relatados pelos seus pacientes em final de vida.  Bronnie Ware passou vários anos trabalhando em cuidados paliativos, cuidando de pacientes nas últimas semanas de suas vidas. Bronnie escreveu em seu blog “as pessoas crescem muito quando elas são confrontadas com a sua própria mortalidade. Eu aprendi a nunca subestimar a capacidade de alguém de enfrentar momentos difíceis. Algumas mudanças aconteceram e foram fenomenais. Cada paciente experimentou uma variedade de emoções, como esperado, negação, medo, raiva, remorso, mais negação e, eventualmente, aceitação. Contudo, cada paciente encontrou a sua paz, antes de partir”.

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Educar para a morte

“Sabemos o momento em que nossa vida começa e, obviamente, não temos ideia quando ela terminará. Não sabemos quanto tempo teremos do primeiro ato da nossa existência até o último, em que teremos que sair de cena”. (Nazaré Jacobucci)

Hoje eu li este texto escrito pelo caríssimo Prof. Dr. Franklin Santana Santos e adorei! Por isso, decidi compartilhá-lo com vocês.

“Educar para a morte é uma necessidade, diria mesmo uma urgência. Na nossa sociedade discutimos todo e qualquer assunto seja na rua, em casa, nas escolas e universidades, exceto a morte.

O assunto tornou-se tabu e o medo nos paralisou. Colocar a morte de escanteio, na periferia de nossas vidas e da nossa sociedade não diminui o tabu, nem o medo. O historiador francês Philippe Ariès já nos advertia que deixar de pensar na morte não a evita ou a retarda. O pensamento mágico já não funciona para qualquer coisa, quanto mais com a realidade mais certa da vida: a morte. Gostemos ou não, queiramos ou não, crentes ou descrentes, morreremos. Eis a suprema verdade!

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Cuidados Paliativos: A arte de morrer com dignidade

“Eu me importo pelo fato de você ser você, me importo até o último momento de sua vida e faremos tudo que está ao nosso alcance, não somente para ajudar você a morrer em paz, mas também para você viver até o dia da sua morte”. (Cicely Sauders)

Quando pensamos numa morte digna, logo pensamos num processo de morte sem dor e sofrimento psicoemocional. Contudo, nos dias atuais, com o avanço tecno-científico, os hospitais, em sua maioria, possuem um aparato técnico para prolongar a vida até o último recurso, esquecendo-se de que, segundo Moritiz e Nassar, na outra extremidade dos tubos, cabos e drenos, atrás de alarmes e restrito ao leito, encontra-se um ser humano. Eu percebo que há um frequente empobrecimento das relações humanas no âmbito hospitalar.

A ênfase na cura em detrimento do cuidado é fonte de significativo sofrimento não só para pacientes e familiares, mas também para os profissionais da saúde, que rotineiramente se deparam com os limites de suas propostas terapêuticas. (Bruscato; Kitayama, 2008).

Contudo, temos hoje a proposta de cuidados paliativos, que nos coloca frente aos problemas que emergem com os cuidados necessários ao final da vida, momento este crucial na existência humana.

A Organização Mundial da Saúde, originalmente em 1990 e em revisão de 2002, definiu cuidados paliativos como cuidados ativos e totais aos pacientes quando a doença não responde às terapêuticas curativas, quando o controle da dor e dos sintomas psicológicos, sociais e espirituais é prioridade, e cujo objetivo é melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Trata-se de abordagem multidisciplinar que abrange cuidado ao paciente, à família e à comunidade.

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Será que você está morrendo lentamente?

Eu considero esta uma das mais interessantes crônicas de Martha Medeiros, pois ela nos convida à reflexão sobre a vida e sobre o que temos feito com ela. Sim, todos nós um dia morreremos de fato. Mas, enquanto esse dia não chega, que tal nos apoderarmos de nossas vidas e a vivenciarmos de uma forma mais interessante?

“A Morte Devagar”

“Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos ís a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante.

Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar”. (Martha Medeiros)

Luto53

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Referência:
Jornal Zero Hora

O que você faria se tivesse mais tempo de vida (?)

“Compositor de destinos… Tambor de todos os ritmos… Tempo tempo tempo tempo… Entro num acordo contigo… Tempo tempo tempo tempo…”. (Oração ao Tempo / Maria Gadú)

Interessante como nos tempos atuais as pessoas dizem a todo momento que não possuem tempo, pois este está totalmente preenchido com os afazeres do cotidiano. Impressionante como muitas e muitas vezes deixamos de fazer algo que realmente gostaríamos devido à falta de tempo, pois estamos sempre com pressa e nossas agendas estão sempre atoladas de compromissos “inadiáveis”. Infelizmente, não dispomos mais do tão precioso tempo livre para fazermos o que realmente deixaria nossa alma feliz.

No meu trabalho como psicóloga, observo nos pacientes com doenças graves e/ou em processo de finitude que o que eles mais gostariam era de ter tido mais tempo livre na vida. Um par de vezes a resposta é sempre a mesma – “como eu gostaria de ter tido mais tempo junto à minha família” – “como eu gostaria de ter trabalhado menos e aproveitado mais a vida” – “como eu gostaria de voltar no tempo e fazer várias coisas diferentes”. Neste momento será preciso olharmos de frente para as escolhas que fizemos ao longo da vida e nos apoderarmos delas para que possamos ressignificar a nossa própria existência. Continuar lendo

A Morte no tempo certo!

“Nascer bem, viver bem e morrer bem são os três pontos principais da felicidade humana. Mas de tal modo que do primeiro depende o segundo, e do segundo, o terceiro”. (Comenius)

Recentemente no meu curso de bioética na Universidade de Oxford tivemos a oportunidade de discutir um pouco sobre as questões éticas que envolvem um processo de morte por eutanásia e, claro, como não poderia ser diferente, a discussão foi árdua. Reproduzirei uma parte do meu ensaio para este tema, no qual expus minha opinião.

Primeiramente analisemos o que é a eutanásia e as questões éticas que a envolve. De acordo com Batista e Schramm, um ponto da maior relevância é destacar a existência de uma série de situações distintas agrupadas sob o conceito genérico de eutanásia, a saber: Continuar lendo

Conversando sobre a Morte

“A morte não vem de fora, mas se processa dentro da vida com a perda progressiva da força vital. Morremos um pouco a cada minuto e um dia este processo chegará ao fim”. (L. Boff)

A sociedade moderna possui novos tabus e dentre eles está a morte. Hoje os pais conversam com seus filhos sobre drogas e métodos contraceptivos, porém na minha prática clínica/hospitalar tenho observado que pais e filhos não conversam sobre a morte. A família muitas vezes desconhece como aquele ente querido gostaria de morrer, o que ele gostaria de fazer em caso de uma doença crônica sem possibilidade de cura ou uma morte súbita. Quando algum membro da família começa a falar sobre este tema alguém automaticamente diz – para com isso, que assunto mais chato, tanta coisa boa para conversar e você quer falar de morte, que bobagem –. Infelizmente, o tema da morte se tornou interdito no século XX, sendo banido da comunicação entre as pessoas. (Ariès, 1977).

A morte praticamente tornou-se uma inimiga que precisa ser combatida e silenciada a qualquer custo. O aumento da expectativa de vida e os avanços na medicina nos fazem crer que sempre teremos recursos para postergar a morte. Parece que existe uma convenção social que nos impede de falar sobre o tema, por isso as pessoas não estão preparadas para enfrentar a finitude dos entes queridos e tampouco a sua própria finitude. Vivemos ignorando a existência da morte e agimos como se ela fosse algo improvável. Negar a morte é não querer entrar em contato com as experiências que nos causam sofrimento, permitindo, assim, segundo Kovács (2002), fantasiar a ilusão da imortalidade, dando a ideia de força e de controle sobre o medo da morte. Continuar lendo