O Significado da Morte e o Processo de Luto na visão do Islamismo

“Toda alma provará o sabor da morte e, no Dia da Ressurreição, sereis recompensados integralmente pelos vossos atos; quem for afastado do fogo infernal e introduzido no Paraíso, triunfará. Que é a vida terrena, senão um prazer ilusório?” (3ª Surata, versículo 185) 

Dando continuidade aos posts sobre a compreensão da morte em determinadas religiões, abordaremos neste post o Islamismo. Exploraremos como os fiéis dessa religião se relacionam com a realidade da morte e buscaremos compreender o significado de seus rituais.

O Islã surgiu no ano de 610 da Era Cristã, no deserto do Hedjaz, onde hoje está a Arábia Saudita. Naquele ano, o então comerciante Muhammad (saws*) – nome que foi erroneamente traduzido para o português como “Maomé”, o que é considerado uma grosseria pelos mulçumanos, uma vez que eles consideram que nomes próprios não são traduzidos, devem ser empregados como o são no idioma original – recebeu as primeiras revelações de Deus Altíssimo, por intermédio do Arcanjo Gabriel, ocasião em que soube que havia sido escolhido como Mensageiro de Deus. Muhammad (saws), que vivia na cidade de Meca, era um homem digno, um comerciante justo e dotado de grande bom senso e amor ao próximo. Antes mesmo de receber a revelação divina, ele era consultado pelos seus contemporâneos para solucionar litígios, julgar disputas e dar conselhos.

Num dos retiros que frequentemente realizava nas montanhas próximas à Meca, numa noite do mês de Ramada do ano de 610, Muhammad (saws) recebeu a visita do Arcanjo Gabriel, que lhe recitou a primeira Surata (capítulo) do livro sagrado islâmico, o Alcorão, este livro sagrado é composto por 114 Suratas e foi ditado ao Profeta Muhammad (saws) ao longo de 23 anos. O Alcorão é o guia por excelência de todo muçulmano, orientando-o em relação aos preceitos espirituais bem como ditando normas para sua vida, seja nos aspectos sociais, econômicos ou políticos.

Por ordem de Deus Altíssimo, no ano de 622, ele e seu, então, pequeno grupo de seguidores, emigraram para Medina. Este evento ficou conhecido na história como Hégira (fuga). Este fato, fundamental na evolução do Islamismo, marcou o início do calendário muçulmano.

Segundo Ragip, os fundamentos da religião Islâmica são:

1.A crença em Deus Um e Único;
2. Crer nos anjos de Deus – há anjos para diversas funções, tais como: o anjo da morte, o anjo das revelações, que é o anjo Gabriel e vários outros;
3. Crer nos livros Sagrados – são mensagens de origem divina reveladas aos profetas através do anjo Gabriel contendo orientações para que o ser humano viva de forma a alcançar a plenitude de seu potencial. Para os mulçumanos existem quatro livros sagrados – a Toráh dos judeus, que foi revelada ao Profeta Moisés, os Salmos, revelados ao Profeta David, os Evangelhos revelados ao Profeta Jesus, sendo este referido no Alcorão como o Messias, o Verbo Divino. O quarto livro sagrado é o próprio Alcorão;
4. Crer nos profetas, mensageiros de Deus. No Alcorão são mencionados 25 profetas, entre eles Adão, Noé, Abrão, Moisés, David, Salomão, Jesus, além do Profeta Muhammad (saws). No total foram enviados 124.000 profetas à humanidade;
5. Crer no Dia do Julgamento Final, o dia que não terá amanhã. Os ciclos se encerrarão e haverá a Ressurreição;
6. Crer no destino, crer em que tudo que acontece na vida de um ser humano, ou de uma nação, quer nos pareça bom quer nos pareça mal está de acordo com a vontade infinita de Allah (SHA**).

Os mulçumanos também possuem 5 obrigações: 1) adorar um único Deus, de quem Muhammad (saws) foi mensageiro. 2) os muçulmanos devem orar cinco vezes ao dia, virados em direção a Meca. 3) ramadã, o jejum anual. Durante o mês do ramadã os muçulmanos têm o dever de jejuar, ou seja, não comer, nem beber, nem fumar, nem manter relações sexuais, desde o amanhecer até o anoitecer. 4) também faz parte das obrigações o zakat, dar esmola, contribuindo para os pobres e causas de beneficência. 5) peregrinação à Meca. Deve fazê-la todo muçulmano de que tenha boa saúde e que disponha de meios econômicos, pelo menos uma vez na vida.

De acordo com os pressupostos do Islamismo a morte é uma realidade que ninguém pode esquivar ou ficar a salvo dela, é uma transição entre mundos. O ser humano abandona o mundo da matéria e passa a viver uma outra vida. O Islamismo acredita que a existência humana continua após a morte na forma de ressurreição física e espiritual. Para os mulçumanos existe uma relação direta entre a comportamento do indivíduo na terra e a vida após a morte.  A vida após a morte será de recompensas e repreensões correspondentes à conduta terrena. Para eles, crer na vida após a morte os obriga a fazer o certo e ficar longe do pecado. Os mulçumanos creem que vivendo conforme os ensinamentos divinos, não há motivos para temer a morte. Por isso, vivem tranquilos com a certeza da reencarnação.

Para compreendermos um pouco sobre os ritos de passagem dos Islâmicos, eu tive a honra de entrevistar o mulçumano Aliabbas Hirji, sobre questões que permeiam este tema. Abaixo seguem os principais pontos da entrevista.

Como os islâmicos compreendem a morte? Qual é o seu significado?
(How do Muslims understand death? What does death mean to Islam?)

1. A morte é um resultado natural da vida e é algo que ninguém pode negar, nem fugir.

2. A vida, acima de tudo, é uma curta existência quando comparado com a outra vida, e pode ser considerada como alguns poucos dias em comparação, por isso, o propósito dessa vida deveria ser preparar para a vida futura.

3. A morte é a transição de uma forma de existência para outra.

4. Nossa morte está mais perto de nós a cada respiração que fazemos.

5. A alma que teria iluminado o corpo permitindo sua luz manifestar-se na existência física que conhecemos. Quando esta luz é removida, todas as manifestações físicas cessarão.

6. O pensamento da morte e sua realidade é um lembrete constante para nós que vamos deixar este mundo com nada além de nossas boas ações e Sadka Jaria (Caridade incessante, caridade que vai continuar a fornecer benefício mesmo após a morte da pessoa, como por exemplo a construção de uma escola). Isto deveria ser um lembrete constante para nós, quando a ganância por este mundo nos domina.

Por que os islâmicos precisam ser enterrados o mais rápido possível?
(Why do the Muslims need to be buried as soon as possible?)

1. Após a alma sair do corpo, ela permanece pairando sobre ele durante todo o tempo, até que o enterro esteja completo. Isto significa que a alma permanecerá sobre o corpo enquanto ele está sendo banhado e envolto em panos.

2. A alma está em um estado instável entre a morte e o sepultamento e, por esta razão, é melhor que o corpo nunca seja deixado sozinho.

3. Quando o cadáver está sendo levado para a sepultura, se é o de uma pessoa justa, ele clama: “Leve-me para o meu destino o mais rápido possível”. Se é o de uma pessoa má, a alma diz: “Não precisa ter pressa, não me empurre tão rapidamente para a minha sepultura”. E é por esta razão que os muçulmanos enterraram o corpo de um companheiro muçulmano o mais rápido possível, para enviar a alma da pessoa para fora de seu estado prematuro, para que ela possa seguir em frente.

4. Após o enterro, assim como alguns escritores de tradição têm dito: “A alma se reconecta ao corpo, pois torna-se sombrio observar que as pessoas foram embora deixando-o sozinho no túmulo”.

Quais são os rituais islâmicos de preparação para o sepultamento?
(What are the Muslims rituals in preparation for the burial?)

1.Ghusl Mayyit (lavagem do corpo morto),

a. Limpar o corpo de todas as impurezas (urina, fezes, sangue etc.);

b. Primeira lavagem do corpo com água combinada com folhas de cereja ou lótus;

c. Segunda lavagem do corpo com água combinada com cânfora;

d. Terceira lavagem do corpo com água pura;

e. O Corpo é gentilmente secado.

2. Hunoot (o pó de cânfora é aplicado a 7 partes do corpo)
Testa, 2x nas palmas das mãos, 2x nos joelhos e dedos dos pés,

3. Kafan (encobre-se e acondiciona-se o corpo com pedaços de pano branco),

4. Salaatul Mayat (orações congregacionais para a pessoa falecida) esta oração só pode ser realizada quando o corpo está envolto e pronto para o enterro,

5. Dafan (enterro) – o corpo deve ser enterrado em um cemitério muçulmano,

6. Salat-ul-Wahshat – Rezado pelas outras pessoas na primeira noite de enterro, para a paz da alma que partiu.

Deve-se notar que, como indicado acima a alma está presente com o corpo até que ele seja enterrado, então grande esforço deve ser tomado para tratar o corpo com dignidade ao realizar a lavagem e o encobrimento; e o corpo deve ser tratado como se estivesse vivo.

islamismo

Quais são as orações que os islâmicos devem dizer durante o processo de sepultamento?
(What are the prayers that Muslims should say during the burial process?)

1. A recitação de passagens do Corão e Istighfar (buscando o perdão), enquanto junto ao corpo morto e enquanto o corpo está sendo preparado para o sepultamento.

2. Salatul Mayat (orações congregacionais para a pessoa falecida) esta oração só pode ser realizada quando o corpo está envolto e pronto para o enterro.

3. Recita-se durante a procissão do funeral – Que Allah te perdoe. Não há divindade a não ser Allah, o Justo, Muhammad é o Profeta de Allah; Ali, o comandante dos fiéis é o amigo de Allah, Fátima tuz Zahraa é a escolhida de Allah; Hassan e Hussein são os netos do Mensageiro de Allah; e os puros Imaams são as provas indiscutíveis de Allah, isto é o que Allah prometeu e (também) prometido pelo Profeta de Allah. Isto é o que é verificado por Allah e por Seu Profeta e os Profetas comunicaram o mesmo.

4. Talqeen de Mayyit (Alerta ao morto) – Depois que o cadáver for rebaixado para a sepultura, os laços de sua mortalha devem ser desprendidos e seu rosto deve ser colocado na terra, e uma almofada de terra deve ser feita sob a sua cabeça e alguns tijolos não cozidos ou pedaços de argila devem ser colocados atrás das costas, para que o corpo não possa retornar para sua posição de costas. E depois disso, deve colocar-se a mão direita sobre o ombro direito do corpo e a mão esquerda firmemente em seu ombro esquerdo, e apertando-o firmemente recitar o Talqeen do Mayyit.

5. Sura Al Yasin (capítulo do Alcorão) recitado inicialmente ao sair do cemitério por um membro próximo da família e, posteriormente, por pessoas quando visitam o cemitério.

Qual é a visão do Islamismo sobre o mundo espiritual? O que é o universo denominado Barzakh?
(What is the Islam view of the spiritual world? What is the universe called Barzakh?)

1. É Importante considerar qualquer coisa depois desta vida como Man’and (a outra vida).

2. A outra vida consistirá de:

a) Morte; b) Túmulo;  c) Barzakh (barreira entre duas coisas – morte e ressurreição);
d) Qiymat (a grande ressurreição) Dia do Juízo; e) Akhira – Céu ou Inferno (recompensa ou punição de acordo com a crença e obras da pessoa) Mundo da Eternidade.

3. Deve-se notar que está além dos poderes humanos compreender a infinitude do espaço e saber sobre as coisas nele, portanto, um homem que vive neste mundo material, não pode nunca ser capaz de saber os detalhes do mundo depois da morte, a não ser que ele tenha fé e confie nas verdades reveladas pelo Criador deste Universo.

4. Barzakh em seu significado literal é “barreira”, que pode ser interpretado como uma barreira, impedindo o retorno à vida e prosseguindo para o mundo eterno (Akhira).

5. A barreira de Barzakh não será levantada até a grande ressurreição, no dia do julgamento e, até então, os mortos permanecerão neste reino paralelo, embora nossa percepção do tempo é muito limitada para o mundo em que vivemos.

6. Embora Barzakh seja um reino espiritual, qualidades positivas e negativas da personalidade das pessoas na vida se manifestarão em Barzakh.

7. Barzakh começa com um questionamento no túmulo sobre a fé da pessoa e as ações que a pessoa praticou em vida.

8. Barzakh é um reino pelo qual todas as almas irão passar independentemente de sepultamento, cremação, morte no mar etc.

9. O reino de Barzakh pode ser comparado a uma existência em sonho, onde não há uma existência física, mas parece real enquanto o corpo permanece inativo até que seja ressuscitado.

10. Diferente de um sonho, a consciência da alma será mais do que uma existência física em Barzakh, uma vez que as limitações do corpo são abolidas.

Os islâmicos podem ser cremados?
(Can Muslims be cremated?)

A cremação no Islã é proibida e é considerada como um ato de desonra; temos que tratar o corpo do falecido como se ele estivesse vivo e até mesmo uma vez que ele está enterrado, não é permitido pisar sobre a sepultura, muito menos reduzir o corpo a cinzas.

Dentre os rituais ligados à morte o que os familiares fazem com os pertences da pessoa que morreu?
(Among the rituals related to death, what do the family members do with the belongings of the person who died?)

Todos os pertences dos mortos estão sujeitos a regras que regem a herança e aos testamentos deixados pelo falecido. Incentiva-se que os indivíduos doem para caridade aquilo do qual eles não precisam, enquanto ainda estão vivos, pois a caridade em vida é muito mais valorizada do que depois da morte, embora um testamento possa ditar a alocação para caridade, o que deve ser feito o mais rápido possível depois que a pessoa faleceu.

Como é vivenciado o processo de luto pelos familiares e amigos? Por que os familiares precisam retomar os afazeres o mais rápido possível?
(How the grieving process is experienced by family and friends? Why do family members need to resume business as soon as possible?)

1. Não há orientações sobre quanto tempo uma pessoa deveria enlutar-se, ou que elas deveriam retomar a vida normal o mais rápido possível.

2. Somos encorajados a fazer uma reflexão sobre a morte de uma pessoa próxima e isto deve ser um lembrete vívido de que, um dia, nós a seguiremos.

3. Geralmente lembramos dos que partiram em orações e visitar o cemitério é encorajado para os primeiros 40 dias.

4. Após 40 dias, presume-se que o falecido já se estabeleceu e aceitou a sua nova morada.

Eu penso que compreender a linguagem simbólica das religiões é de suma importância na lida diária dos psicólogos para que possamos acolher a dor de nossos pacientes de forma integral.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Psychotherapist Member of British Psychological Society

Este post teve a colaboração de Aliabbas Hirji, ele é consultor da área de TI na empresa Tata Consultant Services. Ali é mulçumano e segue com rigor todos os preceitos da religião.  Ele recentemente esteve em peregrinação a Meca.

*saws – abreviação de salla allahu aleyhi wa salam, que significa que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fórmula respeitosa empregada sempre que se menciona o nome do Profeta Muhammad.

**SHA – abreviação de Subhanahu ata ala, que significa louvado seja Ele o Altíssimo. Fórmula respeitosa empregada sempre que se menciona o nome de Deus (O Altíssimo).

Referências:
Instituto Brasileiro de Estudos Islâmicos  http://www.ibeipr.com.br/index.php
Ragip S.M. Ritos de Passagem e Visão Pós-Morte. In: Incontri D., Santos FS, organizadores. A arte de morrer – visões plurais. Vol. 1. Bragança Paulista: Comenius; 2007. p. 280-288.
http://www.duas.org/death.htm
https://www.al-islam.org/media/aalamul-barzakh-intermediate-world-lecture-1

6 comentários sobre “O Significado da Morte e o Processo de Luto na visão do Islamismo

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