Luto por Pessoas Desaparecidas: um luto invisível aos olhos da sociedade

“O desaparecimento de um ente querido em qualquer fase da sua vida, ou mesmo da nossa, confere-nos determinadas marcas que podem permanecer para a eternidade” (Carla Sofia Santos)

Olá, caro leitor!

Com o grande sucesso do filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Valter Salles, que alcançou um feito inédito para o cinema brasileiro, um dos temas centrais da obra – pessoas desaparecidas – ganhou destaque. As performances brilhantes de Fernanda Torres e Selton Mello também contribuíram para que a produção se tornasse um marco na cinematografia nacional. O filme é uma adaptação cinematográfica do livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, que narra a emocionante trajetória de sua mãe, Eunice Paiva, durante a ditadura militar no Brasil. Ambientada na década de 1970, a trama revela como a vida de uma mulher, mãe de 5 filhos, advogada, casada com um influente político, é drasticamente transformada após o desaparecimento de seu marido, capturado pelo regime militar. Com uma narrativa intensa e sensível, o filme explora temas como perda, luto, coragem e resiliência, enquanto revisita de forma tocante um dos capítulos mais sombrios da história brasileira. Com efeito, utilizando o filme “Ainda Estou Aqui” como pano de fundo, farei uma análise focada nas perdas e no luto que emergem diante do desaparecimento de uma pessoa.

Continuar lendo

Lembranças e Ausências: lidando com a perda de uma amizade

“ Faça uma lista de grandes amigos. Quem você mais via há dez anos atrás? Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?” (A ListaOswaldo Montenegro)

Faz algum tempo que quero escrever sobre este luto – o luto por uma amizade desfeita. Esse desfazer pode ser por duas possibilidades: pode ser por morte de um amigo ou pode ser por afastamento de uma pessoa estimada – a pessoa deliberadamente se afastou de você. Essas foram as experiência que eu vivenciei e não foi fácil de lidar. Na verdade foi extremamente dolorosa e me deixou marcas profundas, mas também me proporcionou uma série de reflexões sobre as relações humanas.

Continuar lendo

Livros: indicações de leitura sobre a morte, o morrer e o luto em diversos contextos

“Nem todo aprendizado precisa de leitura. Mas toda leitura gera um aprendizado” (Flávia Savoia)

Caros leitores, eu tenho que confessar a vocês: eu sou apaixonada por livros desde a infância. Eu penso que um livro não apenas nos fornece conhecimento. Ele é capaz de nos transportar para lugares inabitados de nossa consciência e, muitas vezes, nos possibilita ter um novo olhar sobre o mundo e sobre nós mesmos. Atendendo a inúmeras solicitações que recebi de profissionais, estudantes e leigos, preparei uma nova lista com algumas recomendações de leitura. Compartilho, então, algumas sugestões de livros que nos convidam a uma reflexão sobre a temática da morte e do luto.

Este livro aborda um tema atual experienciado por uma sociedade cada vez mais cibernética e midiatizada. O livro leva-nos à reflexão e ao conhecimento da complexidade existente na escolha, especialmente em situações de finitude da vida, sobre o destino da herança digital deixada por todos nós para que ela não seja perdida ou transformada em lixo digital. A morte física pode não representar a morte no ciberespaço e este livro fornece um roteiro para as principais questões, dilemas e soluções. O livro auxilia os usuários de plataformas on-line a decidirem o destino de seu legado digital com dignidade, segurança e sensibilidade, colocando em foco nossas vidas digitais após a morte. (Adquirir)

Continuar lendo

A mágoa reside na expectativa!

“Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito” (William Shakespeare)

Na minha lida diária como psicoterapeuta uma emoção que observo com frequência, principalmente em pessoas que estão em processo de finitude e também em algumas pessoas enlutadas, é a mágoa. Interessante observar como pessoas que possuem doenças crônicas ameaçadoras da vida expressam a necessidade de perdoar e serem perdoadas por desentendimentos que geraram ressentimentos profundos. Mesmo com o passar do tempo, essa “bagagem” ainda traz muito desconforto à alma. Por isso, elas querem expressar o perdão antes de morrerem. Muitos dizem: “eu não quero morrer com esse peso no meu coração” – há também os bem humorados que dizem: “imagina morrer com esse carma, vai que eu volto para cá de novo e preciso encontrar com essa pessoa novamente. Ah, não! Vamos resolver isso nessa vida”. Com drama ou com humor, mágoa é coisa séria. Os efeitos devastadores do rancor consequente ao ressentimento já foram assinalados há 25 séculos por Heráclito de Éfeso (540 AC) – “há que mostrar maior rapidez em acalmar um ressentimento do que em apagar um incêndio, pois as consequências do primeiro são infinitamente mais perigosas do que os resultados do último”.

Continuar lendo

Raiva no processo de luto: como apreender essa emoção?

“Era raiva não. Era marca de dor” (Adélia Prado)

A raiva é uma emoção básica, que todos nós sentimentos, e que possui duas vertentes importantes. A primeira é que essa emoção nos impulsiona a fazer algo diante do que o cérebro interpreta como uma ameaça e a segunda é que se ela não for expressa de uma forma adequada pode trazer sérias complicações para a vida das pessoas. É uma emoção que pode destruir relações sociais, objetos e até mesmo nos fazer ter comportamentos autodestrutivos.

Ao nos referir à raiva, ela eclode quando algo que cremos, que nos é familiar, ou alguma visão que temos do mundo sofre uma ruptura. Essa emoção pode surgir em diversos contextos de nossa vida, como por exemplo: raiva do abismo social em que o mundo se encontra, raiva de um líder político que desencadeia uma guerra sem propósito, raiva ao vivenciar um ato de traição de pessoas que julgávamos confiáveis, quando algo nos é tirado, e em tantos outros contextos. Raiva é a reação natural para a dor seja ela física, psíquica ou emocional.

Continuar lendo

Perdas secundárias no luto: o efeito “dominó” de perder um ente querido

“Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata e ilusória como doem as perdas para sempre perdidas, e, portanto, irremediáveis, transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos” (Caio Fernando Abreu)

Você já viu milhares de dominós caindo? Alguém passa muitas horas montando uma fileira complexa de dominós com diversos obstáculos. Cada dominó é estrategicamente colocado perto o suficiente de outro para ser capaz de atingi-lo à medida que cai. No momento apropriado, o primeiro na sequência vira, e isso desencadeia uma reação em cadeia. O primeiro dominó cai sobre o segundo, e assim vai, um após o outro, até que todos tenham caído.

Continuar lendo

Autocuidado: como atravessar um processo de luto?

“Durante o viver nós vamos enfrentar muitas dores e muitas tempestades. Precisamos descobrir como sobreviver diante do caos” (Psic. Nazaré Jacobucci)

A dor quando perdermos alguém a quem amamos é avassaladora e pode nos desorganizar psíquica e emocionalmente. Inevitavelmente vamos experienciar esta dor muitas vezes ao longo de nossas vidas, não temos como evitar a manifestação do luto após uma perda e infelizmente não temos como eliminar a dor. Afinal, a morte é um fenômeno natural e irrefutável da existência humana.

Continuar lendo

Vamos conversar sobre a morte?

“Não podemos estar realmente vivos sem termos a consciência de que morreremos um dia” (Frank Ostaseski)

A sociedade moderna possui novos assuntos interditos e dentre eles está a morte. Hoje os pais conversam com seus filhos sobre drogas e métodos contraceptivos, porém na minha prática clínica/hospitalar tenho observado que pais e filhos não conversam sobre a morte. Quando algum membro da família começa a falar sobre este tema alguém automaticamente diz – para com isso, que assunto mais chato, tanta coisa boa para conversar e você quer falar de morte, que bobagem. No entanto, a morte faz parte do desenvolvimento humano e precisamos conversar sobre ela.

Continuar lendo

Legado Digital: quem herdará seu patrimônio digital após a sua morte?

“Quem era, como era. Somos só memória à espera de não sermos esquecidos” (Memória, Ana Bacalhau)

No dia 01 de junho eu defendi minha dissertação de mestrado e o tópico central desse trabalho de pesquisa foi sobre legado digital. Eu investiguei o conhecimento dos meus colegas da área da saúde que trabalham em unidades de cuidados paliativos, no Brasil e em Portugal, sobre esse tema. A pesquisa foi respondida por 243 profissionais, e como era de se esperar, 98,8% disseram ser usuários de plataformas de mídias digitais. Entretanto, 52,7% declararam não ter nenhum conhecimento sobre legado digital e 46,5% confessaram não ter nenhum conhecimento sobre a forma como as empresas provedoras de mídias tratam os dados de seus usuários após a sua morte.

Continuar lendo

Testamento: a importância de se manifestar os últimos desejos

“Testamento: morreu sem nada, deixou tudo para o amanhã” (Zack Magiezi)

A morte visitará a todos nós em um determinado momento. Por isso, seria interessante nos preparamos para esta visita. Neste sentido, tenho observado, na minha lida diária com pessoas enlutadas, que há um aspecto prático relacionado à morte que muitos não tem dado a devida atenção: o testamento. Refletir sobre o assunto é algo necessário para quem constituiu patrimônio em vida. Não temos o costume de fazer um testamento, seja pelo medo da morte, seja porque desconhecemos o instrumento, mas é algo muito importante. Além de distribuir o patrimônio, o documento serve para registrar outras manifestações de vontade. Outra função importante desse documento é evitar divergências entre os beneficiários pela partilha da herança, evitando disputas futuras entre seus herdeiros .

Continuar lendo