O que você faria se tivesse mais tempo de vida (?)

“Compositor de destinos… Tambor de todos os ritmos… Tempo tempo tempo tempo… Entro num acordo contigo… Tempo tempo tempo tempo…”. (Oração ao Tempo / Maria Gadú)

Interessante como nos tempos atuais as pessoas dizem a todo momento que não possuem tempo, pois este está totalmente preenchido com os afazeres do cotidiano. Impressionante como muitas e muitas vezes deixamos de fazer algo que realmente gostaríamos devido à falta de tempo, pois estamos sempre com pressa e nossas agendas estão sempre atoladas de compromissos “inadiáveis”. Infelizmente, não dispomos mais do tão precioso tempo livre para fazermos o que realmente deixaria nossa alma feliz.

No meu trabalho como psicóloga, observo nos pacientes com doenças graves e/ou em processo de finitude que o que eles mais gostariam era de ter tido mais tempo livre na vida. Um par de vezes a resposta é sempre a mesma – “como eu gostaria de ter tido mais tempo junto à minha família” – “como eu gostaria de ter trabalhado menos e aproveitado mais a vida” – “como eu gostaria de voltar no tempo e fazer várias coisas diferentes”. Neste momento será preciso olharmos de frente para as escolhas que fizemos ao longo da vida e nos apoderarmos delas para que possamos ressignificar a nossa própria existência. Continuar lendo

A Morte no tempo certo!

“Nascer bem, viver bem e morrer bem são os três pontos principais da felicidade humana. Mas de tal modo que do primeiro depende o segundo, e do segundo, o terceiro”. (Comenius)

Recentemente no meu curso de bioética na Universidade de Oxford tivemos a oportunidade de discutir um pouco sobre as questões éticas que envolvem um processo de morte por eutanásia e, claro, como não poderia ser diferente, a discussão foi árdua. Reproduzirei uma parte do meu ensaio para este tema, no qual expus minha opinião.

Primeiramente analisemos o que é a eutanásia e as questões éticas que a envolve. De acordo com Batista e Schramm, um ponto da maior relevância é destacar a existência de uma série de situações distintas agrupadas sob o conceito genérico de eutanásia, a saber: Continuar lendo

Conversando sobre a Morte

“A morte não vem de fora, mas se processa dentro da vida com a perda progressiva da força vital. Morremos um pouco a cada minuto e um dia este processo chegará ao fim”. (L. Boff)

A sociedade moderna possui novos tabus e dentre eles está a morte. Hoje os pais conversam com seus filhos sobre drogas e métodos contraceptivos, porém na minha prática clínica/hospitalar tenho observado que pais e filhos não conversam sobre a morte. A família muitas vezes desconhece como aquele ente querido gostaria de morrer, o que ele gostaria de fazer em caso de uma doença crônica sem possibilidade de cura ou uma morte súbita. Quando algum membro da família começa a falar sobre este tema alguém automaticamente diz – para com isso, que assunto mais chato, tanta coisa boa para conversar e você quer falar de morte, que bobagem –. Infelizmente, o tema da morte se tornou interdito no século XX, sendo banido da comunicação entre as pessoas. (Ariès, 1977).

A morte praticamente tornou-se uma inimiga que precisa ser combatida e silenciada a qualquer custo. O aumento da expectativa de vida e os avanços na medicina nos fazem crer que sempre teremos recursos para postergar a morte. Parece que existe uma convenção social que nos impede de falar sobre o tema, por isso as pessoas não estão preparadas para enfrentar a finitude dos entes queridos e tampouco a sua própria finitude. Vivemos ignorando a existência da morte e agimos como se ela fosse algo improvável. Negar a morte é não querer entrar em contato com as experiências que nos causam sofrimento, permitindo, assim, segundo Kovács (2002), fantasiar a ilusão da imortalidade, dando a ideia de força e de controle sobre o medo da morte. Continuar lendo