A Saudade em Palavras: uma leitura poética da memória

“Sentimos saudade de certos momentos da nossa vida e de certos momentos de pessoas que passaram por ela” (Carlos Drummond de Andrade)

Olá, caro leitor!

Hoje, convido você a mergulhar comigo em um sentimento que todos conhecem — mas poucos conseguem descrever com exatidão: a saudade.

A palavra tem uma origem fascinante. Vem do latim solitatem, que significa “solidão”. No galego-português medieval, transformou-se em soidade, e mais tarde, influenciada por palavras como “saúde” e “saudar”, deu origem ao termo que usamos hoje: saudade. Existe até uma hipótese menos aceita que sugere uma raiz árabe, da palavra saudah — que remete à melancolia. Mas é a explicação latina que carrega mais força histórica e cultural.

Durante os Descobrimentos Portugueses, entre os séculos XV e XVI, a palavra ganhou outra dimensão. Muitos partiam para o mar sem saber se voltariam. A ausência da terra natal, da família, dos amores… Tudo isso foi se enraizando na língua. Saudade passou a ser a dor de não ter por perto o que se ama. E desde então, é quase como uma herança emocional que carregamos no peito. Dizem que saudade é uma palavra intraduzível — e talvez seja verdade. Ela vai além do “faltar”. É um sentimento que mistura nostalgia, desejo, amor, perda, ternura e um leve aperto no coração. E cada um de nós tem suas próprias saudades.

E, por falar em saudade, eu, por exemplo, tenho muitas.

Lembro-me da infância, quando ia à missa todos os domingos. Morava ao lado de uma igreja dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Fiz parte de um grupo de jovens que, além de estudos teológicos, organizava ações para a comunidade. Era uma fase leve da vida — cheia de propósito, amizades e festas juninas inesquecíveis. Depois do tradicional macarrão do almoço de domingo, eu costumava visitar as amigas — Miriam, Adna, Soraia. Ou passava tardes na casa da minha tia Amélia, onde sempre me sentia acolhida. Como eu adorava visitá-la. De vez em quando, também visitávamos a casa do tio Zezé — um palmeirense de coração e dono de um humor peculiar, simplesmente adorável. Saudade dessas conversas leves e risadas sem pressa.

Tenho saudade também das viagens com minha mãe para Minas Gerais, de retratos de um tempo gentil e alegre, dos cheiros — como o chá de hortelã feito pela Dona Cida, mãe das minhas amigas Regina Célis e Mônica. De vozes que ecoam na memória, de rostos que não vejo mais. Ah, como sinto saudades! Dos amigos que nunca mais vi, dos que se distanciaram com o tempo — Miriam, Mafalda, Heloísa, Carlito, Sandra Mariana, Cecília Elizabeth, Gilson e tantos outros. Sinto saudade da infância, do meu primeiro amor, da minha primeira professora, Dona Neuza — uma mulher negra, de sorriso largo, de uma beleza e ternura que jamais esqueci.

Sinto saudade de São Sebastião do Paraíso, de Cássia, da Escola André Ohl, do primeiro beijo. Até do presente eu sinto saudade. Porque, às vezes, ele escorre entre os dedos, atropelado pela correria do cotidiano. Sinto falta de momentos que acontecem sem que eu tenha tempo de vivê-los de verdade. Sinto saudade do passado — o próximo e o distante — como o dia em que conheci meu marido. Este ano, celebramos bodas de prata. Sinto saudade dos vizinhos da Rua Bela Cintra e dos nossos encontros, sempre regados a boa comida e muitas risadas. Sinto saudade de Denise e da sua bela arte na capoeira. Sinto saudade do barulho da enceradeira, que hoje já não se vê nas lojas, mas ainda existe na casa da vó Beatriz — e com ela, viajamos no tempo. Sinto saudade de quem ficou, de quem partiu, dos colegas da escola primária, do colegial, da faculdade. De quem prometeu voltar e não voltou. De quem passou pela minha vida como um vendaval.

Sinto saudade dos meus pais, Dona Cida e Seu Francisco, que partiram tão cedo e a quem não disse vezes suficientes o quanto os amava. Sinto saudade das primas Suzelei, Mônica e Nina, das risadas espontâneas com os amigos da Philips — Araújo, Ana Paula, Maria Luísa, Miriam… Sinto saudade das tardes com as amigas da Santa Casa. Sinto saudade dos que se foram sem tempo para despedidas — como Carmem, Juninho e Sônia Regina. Sinto saudade até de quem passou de relance pela minha vida. Sinto saudade de coisas que vivi, de coisas que não vivi, mas gostaria de ter vivido. Dos livros como – Fernão Capelo Gaivota – dos discos que me fizeram sonhar, dos filmes do meu amado Almodóvar que me permitiram ampliar o olhar sobre a vida e suas cores. Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores. Sinto saudade das coisas que deixei passar sem aproveitar por completo, tentando resgatar algo que nem sei o que é. De sonhos que sonhei, de outros que nem me permiti sonhar.

E sinto saudade por todos os lugares por onde passei — São Paulo, Cássia, Londres, Amsterdã, Haia, Zurique. Ah, quanta saudade da Avenida da Igreja, em Alvalade — o recanto mais encantador de Lisboa, e das amizades que lá construí. Em qualquer canto do mundo, a saudade me acompanha. Meu sentimento poderia ser expresso em qualquer idioma, mas, por ser brasileira, minha saudade fala português — a língua de Camões, Saramago, Drummond, Suassuna e Machado. E mesmo que outras línguas não tenham uma palavra exata para ela, sei que, no fundo, todas as pessoas a sentem. Apenas não sabem como chamar esse nó doce e dolorido que se forma no peito.

A saudade, para mim, é isso: um sinal vital. É o que nos prova que amamos, que vivemos momentos que valeram a pena, que tivemos histórias que merecem ser lembradas. É o que nos conecta com o que fomos e com quem fomos. Até o pastel de carne da feira de Higienópolis, que eu saboreava às sextas-feiras com meus queridos amigos e amigas da Universidade Mackenzie, hoje me desperta saudade.

Porque somos assim: colecionadores de saudades.

E você? Que saudades carrega consigo? Conte-me nos comentários. Vai ser fascinante ler suas memórias também.

Referências:

Perez, L. C. A. Saudade ou saudades?. Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/gramatica/saudade-ou-saudades.htm.

Texto inspirado na escrita de: Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS. Publicado no Recanto das Letras em 29/07/2005.

VxMag. Língua Portuguesa: a curiosa origem da palavra “saudade”. Jul. 2024. Disponível em: https://www.vortexmag.net/lingua-portuguesa-palavra-saudade-origem/

Wikipédia. Saudade. 29 de março de 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Saudade

8 comentários sobre “A Saudade em Palavras: uma leitura poética da memória

  1. Amei sua homenagem á minha mãe❤️

    Dona Cida e seu chazinho de hortelã do quintal

    Muito bom seu artigo! Parabéns

    Tenho saudades de muitas coisas, situações e pessoas, lugares. Tenho boas lembranças e memórias que podem não remeter á saudade, mas a uma nostalgia, a um acalento no coração.

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