Luto por Pessoas Desaparecidas: um luto invisível aos olhos da sociedade

“O desaparecimento de um ente querido em qualquer fase da sua vida, ou mesmo da nossa, confere-nos determinadas marcas que podem permanecer para a eternidade” (Carla Sofia Santos)

Olá, caro leitor!

Com o grande sucesso do filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Valter Salles, que alcançou um feito inédito para o cinema brasileiro, um dos temas centrais da obra – pessoas desaparecidas – ganhou destaque. As performances brilhantes de Fernanda Torres e Selton Mello também contribuíram para que a produção se tornasse um marco na cinematografia nacional. O filme é uma adaptação cinematográfica do livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, que narra a emocionante trajetória de sua mãe, Eunice Paiva, durante a ditadura militar no Brasil. Ambientada na década de 1970, a trama revela como a vida de uma mulher, mãe de 5 filhos, advogada, casada com um influente político, é drasticamente transformada após o desaparecimento de seu marido, capturado pelo regime militar. Com uma narrativa intensa e sensível, o filme explora temas como perda, luto, coragem e resiliência, enquanto revisita de forma tocante um dos capítulos mais sombrios da história brasileira. Com efeito, utilizando o filme “Ainda Estou Aqui” como pano de fundo, farei uma análise focada nas perdas e no luto que emergem diante do desaparecimento de uma pessoa.

O desaparecimento é caracterizado pelo sumiço repentino de uma pessoa, sem qualquer aviso prévio aos familiares ou conhecidos. Considera-se alguém desaparecido quando não é possível localizá-lo nos lugares que costuma frequentar ou estabelecer qualquer forma de contato. Várias causas podem levar ao desaparecimento de uma pessoa, tais como conflitos familiares, uso problemático de drogas e medicamentos, alcoolismo, transtornos mentais, depressão, violência, tráfico humano, entre outros fatores.

Segundo a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, o desaparecimento pode ser classificado em três categorias principais:

1. Voluntário: quando a pessoa se afasta por vontade própria e sem aviso prévio. Isso pode ocorrer por diversos motivos, como desentendimentos familiares, medo, aflição, mudanças de planos ou outros conflitos pessoais. Há ainda os casos de Poriomania, que é uma obsessão doentia por andar. Em alguns deles, as pessoas andam até não serem mais encontradas e não conseguem voltar para casa.

2. Involuntário: quando a pessoa é afastada de sua rotina por eventos fora de seu controle, como acidentes, problemas de saúde – física ou mental – ou desastres naturais.

3. Forçado: quando o afastamento é provocado por terceiros, sem o consentimento da pessoa, como em casos de sequestro, tráfico de pessoas ou ações repressivas do Estado.

Os dados sobre o desaparecimento de pessoas são alarmantes, tanto no Brasil quanto em todo o mundo, revelando a gravidade e a amplitude desse problema social. Todos os anos, milhões de pessoas desaparecem em todo o mundo. De acordo com o Centro Internacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, cerca de 8 milhões de crianças e metade desse número de adultos são relatados como desaparecidos anualmente. Esses números incluem crianças, adultos e idosos que desaparecem por diversas razões, como sequestro, tráfico humano, fuga e/ou por se perderem.

No Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de  Segurança Pública (2023), em 2022 foi registrado um total de 74.061 pessoas desaparecidas, média de 203 desaparecimentos diários. Do total de registros, 46,7% se concentram na região Sudeste, em muito puxados pelo estado de São Paulo, que registrou 20.411 ocorrências. No Reino Unido, a crise das pessoas desaparecidas é uma epidemia silenciosa. Estima-se que cerca de 180.000 pessoas desapareçam todos os anos, embora instituições de caridade e autoridades policiais reconheçam que esse número provavelmente seja subestimado. Oficialmente, um desaparecimento é registrado a cada 90 segundos em UK. Nos Estados Unidos, a situação não é diferente. De acordo com o banco de dados Nacional de Pessoas Desaparecidas e Não Identificadas (NamUS), financiado pelo Departamento de Justiça dos EUA, mais de 600.000 pessoas desaparecem anualmente. Aproximadamente 4.400 corpos não identificados são recuperados a cada ano. Em todo o país, há cerca de 6,5 pessoas desaparecidas para cada 100.000 habitantes.

A questão do desaparecimento começou a ser amplamente discutida na América Latina antes de ganhar destaque na política internacional. Um marco importante foi o movimento das Mães da Praça de Maio, na Argentina, no final dos anos 1970. Essas mulheres denunciaram o desaparecimento forçado de seus filhos durante a ditadura militar, trazendo visibilidade para os desaparecidos políticos. Assim como na Argentina, muitos países da América Latina, inclusive o Brasil, enfrentaram essa prática como uma tática de repressão durante os períodos ditatoriais, evidenciando uma grave violação dos direitos humanos. O assunto ganha destaque internacional 20 anos depois, com a Declaração sobre a Proteção de Todas as Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados da ONU, em 1992.

Com certeza, não estamos preparados para vivenciar o desaparecimento de um ente querido. O desaparecimento não solucionado de uma pessoa pode prolongar-se por anos ou nunca ser solucionado. É importante que haja a consciência também das consequências desse processo, sobretudo em relação aos familiares: sofrimento e vulnerabilidade nos aspectos econômicos, sociais, psicológicos, psicossociais, médicos e legais. Nesse contexto, o desaparecimento de uma pessoa pode desencadear um processo de luto que, entretanto, muitas vezes não é legitimado pela sociedade, devido à ausência de uma morte confirmada e de um corpo a ser velado. Esse fenômeno é conhecido como luto não reconhecido. O luto não reconhecido, também conhecido como “luto desautorizado”, é uma forma de luto que não recebe o reconhecimento e/ou a validação adequada da sociedade. Esse processo de luto pode surgir em diversas situações, como a perda de um animal de estimação, o término de um relacionamento, um divórcio ou até mesmo o desaparecimento de um ente querido.

Nas situações de desaparecimento, podemos estar diante de um adiamento do processo de luto, ou mesmo da ausência desse processo propriamente dito. Isso ocorre porque, além da falta de um corpo, não há uma certeza absoluta de morte, o que gera um sentimento contínuo de incerteza e, simultaneamente, de esperança. A incerteza sobre a morte de um sujeito é, portanto, uma agonia para a família, que é consumida pelos esforços para manter a esperança, enquanto teme o pior. Nessas circunstâncias, o reconhecimento e a validação das emoções tornam-se ainda mais desafiadores, o que pode complicar ainda mais o processo de luto. A ausência de certezas e a persistência da esperança dificultam a assimilação e o enfrentamento da perda, fazendo com que as famílias vivam em um estado constante de apreensão e ambiguidade.

Diante desse quadro, os familiares podem vivenciar um outro tipo de processo relacionado à perda: o luto por perda ambígua. A teoria da Perda Ambígua, proposta por Pauline Boss, define essa situação como uma “perda pouco clara, resultante da incerteza sobre se um ente querido está vivo ou morto, ausente ou presente”. Assim, a perda ambígua torna-se uma experiência extremamente estressante, pois desafia a resolução. Diferentemente da morte, não há uma verificação oficial da perda, e, portanto, não se realizam os rituais de apoio ao luto. Pois, todos sabemos que os rituais fúnebres desempenham um papel importante na assimilação e compreensão da perda de um ente querido. Eles fornecem um espaço para a expressão coletiva da dor, ajudam a concretizar a realidade da perda e oferecem um momento de despedida. Além disso, a realização de rituais pode ajudar a estruturar o caos emocional, proporcionando uma sensação de ordem e continuidade em um momento de grande turbulência e fragilidade.

Podemos identificar duas situações de perda ambígua: uma em que o indivíduo está fisicamente presente, mas psicologicamente ausente; e outra em que o ente querido está fisicamente ausente, mas mantido psicologicamente presente, pois seu estado de vivo ou morto é desconhecido. O desaparecimento de pessoas enquadra-se no segundo caso. Nesse contexto, o sofrimento mental dos familiares de entes desaparecidos provém do desconhecimento e da incerteza, gerando um sentimento de não saber o que fazer ou pensar. A falta de informações e a incerteza podem causar traumas e eventos não simbolizados, fazendo com que a expectativa do reaparecimento do ente desaparecido, por vezes, se torne “arraigada” e dolorosa, pairando sobre a vida dos familiares por meses, anos, décadas ou até mesmo pela vida toda.

Podemos inferir que, o desaparecimento físico e inexplicável de um familiar representa uma forma de separação entre vivos, pois, embora a ausência do ente querido seja tangível, não existem confirmações definitivas sobre sua perda; a vida e a morte permanecem em suspenso. O desaparecimento, assim, se configura como uma ruptura abrupta e inesperada, uma ausência sem explicação e, muitas vezes, sem possibilidade de encerramento. Dessa forma, um dos processos mais importantes da existência humana permanece em suspenso e inacabado: o processo de luto. É importante ressaltar que, tanto para o indivíduo quanto para a sociedade, a elaboração desse luto muitas vezes ocorre pela busca da verdade, pelos esclarecimentos, pela sensação de justiça realizada e pela atribuição de significados ao acontecimento da perda.

Esse post é totalmente dedicado a todas as Eunices, Veras, Marcelos, Divas, Jovitas – mãe de Priscila Belfort – a todas as Mães da Praça de Maio, as Mães da Sé e a todas as pessoas que hoje vivenciam a dor da ausência de um ente querido desaparecido.

Livro à Venda – Autora do LivroLegado Digital: Conhecimento, Decisão e Significado – Viver, Morrer e Enlutar na Era Digital

Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV): https://www.icrc.org/pt

Desaparecidos do Brasil: https://desaparecidosdobrasil.org/

Mães da Sé: https://www.maesdase.org.br/

Referências:

Ainda Estou Aqui. Sinopse. Adoro Cinema. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-265940/

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2 comentários sobre “Luto por Pessoas Desaparecidas: um luto invisível aos olhos da sociedade

  1. Olá, Nazaré! Excelente artigo, além de oportuno! Destaca a questão das pessoas desaparecidas – o luto invisível, o luto desautorizado sem reconhecimento, luto por perda ambígua. Desconhecia as diferenças dessas dores caracterizadas pelos tipos de lutos. São dores diferentes, mas como em todo e qualquer luto, quando essas dores não são vividas, além de ficarem mais intensas as consequências são danosas. O rito da despedida fica suspenso. Obrigada, por compartilhar. Forte abraço.

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