Lembranças e Ausências: lidando com a perda de uma amizade

“ Faça uma lista de grandes amigos. Quem você mais via há dez anos atrás? Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?” (A ListaOswaldo Montenegro)

Faz algum tempo que quero escrever sobre este luto – o luto por uma amizade desfeita. Esse desfazer pode ser por duas possibilidades: pode ser por morte de um amigo ou pode ser por afastamento de uma pessoa estimada – a pessoa deliberadamente se afastou de você. Essas foram as experiência que eu vivenciei e não foi fácil de lidar. Na verdade foi extremamente dolorosa e me deixou marcas profundas, mas também me proporcionou uma série de reflexões sobre as relações humanas.

A amizade, assim como uma paleta de cores vibrantes, tem o poder de transformar momentos comuns em experiências inesquecíveis. Imagine um dia monótono, cinzento e sem graça, sendo agraciado pela presença de um amigo querido. Aquela conversa que começa despretensiosa e que pode se transformar em uma sessão de risadas, conselhos sinceros e recordações valiosas. A amizade adiciona uma camada de profundidade e beleza à nossa vida cotidiana. Mesmo nas tarefas mais simples, como tomar um chá ou caminhar no parque, a presença de um amigo transforma a experiência em algo especial e significativo. Esse laço de amizade cria uma teia de memórias compartilhadas, dando mais sentido e valor aos momentos que, de outra forma, seriam apenas mais um dia no calendário.

Contudo, perder uma amizade pode ser uma experiência dolorosa que pode desencadear uma série de sentimentos e emoções, similar àqueles vividos em outras formas de luto. Isso não é apenas pelo distanciamento da proximidade física, mas pela intimidade emocional e o compartilhamento das experiências e memórias que definiam essa relação. No entanto, esse tipo de luto por vezes não é reconhecido e/ou validado. O luto não reconhecido, também conhecido como “luto desautorizado”, é uma forma de luto que não recebe o reconhecimento e/ou a validação adequada da sociedade. Esse processo de luto pode surgir em diversas situações, desde a perda de um animal de estimação até a ruptura de amizades, o término de um relacionamento não oficializado ou a morte de alguém com quem não se tinha uma relação oficialmente reconhecida, como um ex-parceiro ou um amigo íntimo.

O conceito de luto desautorizado foi desenvolvido pelo Dr. Kenneth Doka em sua obra “Disenfranchised Grief: Recognizing Hidden Sorrow“. Doka define esse luto como qualquer tipo de perda que não é socialmente reconhecida ou validada, levando a pessoa enlutada a sofrer em silêncio. O luto não reconhecido pode levar a sentimentos intensificados de isolamento e incompreensão. A pessoa enlutada pode se sentir invisível, como se a sua dor não fosse legítima. Essa falta de validação social pode dificultar o processo de luto, prolongando a dor e impedindo a recuperação emocional. O trabalho de Kenneth Doka destaca a importância de validar todas as formas de luto. Ele argumenta que a sociedade deve reconhecer e apoiar todas as formas de perda, independentemente do contexto. Doka sugere que uma maior compreensão e validação do luto não reconhecido pode ajudar a reduzir o estigma e fornecer o apoio emocional necessário para aqueles que vivenciam esse processo de luto. Afinal, cada perda é válida e merece ser respeitada e acolhida.

Com efeito, a perda de uma amizade é uma experiência que pode ser devastadora e pode incluir sentimentos de tristeza, raiva, culpa, confusão emocional, e até mesmo uma sensação de vazio. A dor pode ser mais profunda, principalmente se esse amigo for uma figura de apego seguro para você. A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby, psiquiatra inglês, é uma base fundamental para entendermos o luto. Bowlby sugere que o luto é uma resposta natural à perda de qualquer figura de apego importante, o que inclui amigos próximos. Dr. Colin Murray Parkes, um renomado psiquiatra inglês especialista em luto, expandiu os estudos de Bowlby sobre o apego e o luto. Em seu livro “Luto: Estudos Sobre a Perda na Vida Adulta” Parkes descreve o luto como um processo que envolve o reajuste de todas as áreas da vida afetada pela perda. Esse reajuste pode ser particularmente desafiador quando se perde uma amizade, já que os amigos muitas vezes desempenham múltiplos papéis: confidente, apoiador emocional, e até mesmo um espelho para nossa própria identidade.

O desfazer-se de uma amizade também pode significar a perda de uma parte da própria identidade. As amizades possuem um papel importante na composição de quem somos, nossas percepções e nosso modo de ver o mundo. Quando elas se desfazem, é necessário redescobrir-se, reencontrar um novo equilíbrio e seguir em frente com as lições aprendidas. A chave para atravessar esse processo é permitir-se sentir a dor, procurar apoio em outras relações e atividades significativas, e dar-se tempo para assimilar e compreender o rompimento. O luto, seja ele pela perda de uma amizade ou por outra forma de perda, é um processo de crescimento pessoal e de reconfiguração emocional que, apesar de doloroso, pode trazer novas perspectivas e fortalecimento psicoemocional.

Conte-me, você está passando por algo assim agora ou já passou por isso antes?

Livro à Venda – Autora do LivroLegado Digital: Conhecimento, Decisão e Significado – Viver, Morrer e Enlutar na Era Digital

Referências:

Casellato, G. Luto não reconhecido: o fracasso da empatia nos tempos modernos. In.: Casellato, G. (Org.). O Resgate da Empatia: suporte psicológico ao luto não reconhecido. São Paulo: Summus, 2015. p. 15-28.

Doka, K.J. Disenfranchised grief: recognizing hidden sorrow. Lexington, Mass.: Lexington Books, 1989. 347p.

Parkes, C.M. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. Tradução: Maria Helena Franco Bromberg. São Paulo: Summus; 1998. 291 p.

Parkes, C.M. Complicated Grief. Anotações de aula no St Christopher’s Hospice. 2015.

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