Comunicação de Más Notícias: O cuidado começa com as palavras

“São como um cristal, as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras, orvalho apenas.” (Eugénio de Andrade)

No final da década de 80 eu tive a honra de conhecer e fazer um trabalho voluntário junto a Brenda Lee, militante transexual brasileira, pioneira no apoio e acolhimento à portadores da AIDS. Considerada o anjo da guarda das travestis, criou em 1986 a Casa de Apoio Brenda Lee, no centro de São Paulo, com objetivo de acolher e dar assistência médica, social, moral e material às pessoas com HIV. E, naquela época, receber tal diagnóstico era como receber uma sentença de morte. Lembro-me das histórias que ouvi, a maioria de muita dor psíquica e angústia existencial, que a forma como o diagnóstico fora comunicado havia sido tão cruel e insensível que eles/elas jamais esqueceriam as palavras ditas pelo médico.

Décadas já se passaram e infelizmente na minha lida hospitalar continuo a me deparar com pacientes e familiares completamente desolados com a forma que receberam, do médico, aquela notícia que todos temem – infelizmente o prognóstico para a sua doença não é bom. Não há mais possibilidade terapêutica de cura.

Percebo que muitos dos colegas médicos não estão preparados para comunicar um diagnóstico difícil seguido de um mau prognóstico. Esta comunicação de fato não é uma tarefa fácil. Eu diria dificílima, afinal cada vez menos estamos sendo preparados para lidar com a morte. Mas, o modo como um médico comunica uma má notícia para a pessoa doente e seus familiares pode ser decisivo. Por isso, a importância de se saber usar as palavras adequadas, a postura adequada e ambas envoltas numa camada de empatia e sensibilidade.

A comunicação de más notícias como é hoje entendida é um construto relativamente recente, fruto de alterações de paradigma ocorridas ao longo dos últimos 50 anos. Sabe-se atualmente que a maioria da população deseja saber o seu prognóstico e que estar na posse desse conhecimento é nitidamente mais benéfico que prejudicial. Embora exista algum grau de versatilidade intercultural em relação à comunicação de más notícias e muito da literatura se reporte apenas à sociedade ocidental, existe evidência de que as atitudes estejam a alterar-se progressivamente e globalmente no sentido de uma abordagem mais aberta no que concerne à partilha de informação difícil, ainda que persista alguma resistência (Ferreira; Araújo; Madeira, 2018).

A comunicação de más notícias trata de uma situação crítica e complexa, geralmente vivenciada pelo médico e por toda a equipe multiprofissional como particularmente geradora de estresse (Studer et al., 2017). O estilo de comunicação do médico repercute na percepção que a pessoa doente retém do que foi dito e isso pode influenciar a adesão ao tratamento (Schmid Mast e al., 2005). O contato interpessoal é portanto um elemento fundamental da prática clínica e a capacidade de comunicar adequadamente é hoje considerada uma competência essencial para os profissionais da saúde (Studer et al., 2017).

Mas, será que há profissionais com o dom de saber comunicar más notícias, ou melhor, que possui aptidão para tal? Será uma aptidão inata ou uma competência que podemos aprender? Sim, nós podemos aprender as técnicas adequadas para comunicar adequadamente uma má notícia e, claro, treinar para aperfeiçoar a técnica escolhida. E digo nós porque hoje é de consenso na área da saúde que o médico faça a transmissão da notícia acompanhado por uma equipe multiprofissional devidamente treinada, se possível, em cuidados paliativos.

Para auxiliar no treinamento adequado dos profissionais alguns protocolos podem ser de grande valia, como por exemplo, o SPIKES. Este é composto por uma estrutura de 6 passos: Setting, Perception, Invitation, Knowledge, Emotions, Strategy/Summary. O SPIKES consiste em recolher informação do doente (Setting, Perception), transmitir informação acessível (Invitation, Knowledge), oferecer apoio e lidar com emoções (Emotions), e estabelecer um contrato com o doente obtendo a sua colaboração na elaboração de um plano (Strategy / Summary). Deste modo, o médico inicia a entrevista com perguntas abertas, procurando identificar e compreender as expectativas do paciente. Com o desenrolar da entrevista, assume uma postura mais diretiva (mas não paternalista!), recorre a perguntas cada vez mais fechadas de modo a clarificar as expectativas do paciente, aproximando-as da realidade da notícia a ser transmitida. Após comunicar a má notícia, o médico deve dar espaço e auxiliar o doente a lidar com as emoções. Só depois, surge a possibilidade de discussão de um plano que implica a partilha de decisões numa relação colaborativa entre o médico, o paciente e a família (Ferreira; Araújo; Madeira, 2018).

Fonte: Acta Médica Portuguesa

A literatura demonstra que os doentes querem informação que seja compreensível, personalizada e completa; o treino dos profissionais de saúde tem pois que se focar nesses componentes; é ainda importante que haja feedback, para permitir uma melhor prática e melhorias efetivas na comunicação (Ferreira; Araújo; Madeira, 2018).

A propósito, tenho o privilégio de fazer um estágio junto à Dra. Ana Bernardo, especialista em cuidados paliativos, no hospital Nossa Sra. da Arrábida e tenho aprendido muito com ela. Dra. Ana promove sempre e com todos os pacientes uma conferência familiar onde ela, acompanhada por uma equipe multiprofissional, faz a comunicação não apenas da má notícia, mas esclarece todos os pontos da terapêutica adotada pela equipe. Ouve com atenção todos os questionamentos do paciente e de sua família. Responde a todas as dúvidas com paciência e assertividade. É impressionante quando o médico se propõe a fazer esta comunicação com seriedade e serenidade, como tanto o paciente quanto a família ficam menos ansiosos e inseguros, pois sabem que poderão contar com uma equipe que tem a capacidade de dar o devido suporte e acolhimento num momento de extrema fragilidade da condição humana.

Nazaré Jacobucci
Pós Graduada / Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Med. da Univ. de Lisboa
Psicóloga Especialista em Luto
Especialista em Psicologia Hospitalar
Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC)
http://www.perdaseluto.com

Referências:
EL País [mídia online]. Brenda Lee, o anjo da guarda das travestis na luta contra a AIDS. Jan. 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/29/politica/1548757758_845387.html
Ferreira, S.R.; Araújo, L.A.; Madeira, N. Comunicação de más notícias. In: Psicologia na Medicina. Macedo, A; Pereira, A.T.; Madeira, N. (Editores). LIDEL Edições Técnicas; 2018. p. 527-538. Disponível em: http://rihuc.huc.min-saude.pt/bitstream/10400.4/2177/1/Comunicação%20de%20más%20notícias.pdf
Gi, A. Comunicação de más notícias. Acta Médica Portuguesa [site]. 2017. Disponível em: http://www.actamedicaportuguesa.com/student/index.php/2017/12/04/comunicacao-de-mas-noticias/
Schmid, M.M.; Kindlimann, A.; Langewitz, W. Recipients’ perspective on breaking bad news: How you put it really makes a difference. Patient Education and Counseling. 58 (3), p. 244–251, set. 2005.
Studer, R.K.; Danuser, B., Gomez, P. Physicians’ psychophysiological stress reaction in medical communication of bad news: A critical literature review. International Journal of Psychophysiology. 120, p. 14-22, out. 2017.

 

 

8 comentários sobre “Comunicação de Más Notícias: O cuidado começa com as palavras

  1. Boa tarde Nazaré
    Estou adorando o seu blog. Fui apresentada a ele hoje. Parabéns! Esse tema muito me interessa. Trabalho na pediatria do HC Criança, e, há tempos venho trabalhando com outros profissionais essa temática onde construímos um processo de reflexões sobre a morte. Tenho alguns projetos para falar dela em outros espaços, que não seja especifico do ambiente hospitalar. Gostaria de saber sobre sua aulas ON Line, mas não estou conseguindo identificar seu email. Por gentileza me informe para que eupossa receber as informações. deixo o meu também. Grata : cakamei@hcrp.usp.br

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  2. Hoje realmente caiu a ficha, nunca fui uma boa mãe, nem esposa, nem nada.
    Hoje as palavras do encerramento de uma conversa de meu filho foram.
    Para mim você está enterrada faz tempo.
    Então, me pergunto, o que faço aqui neste mundo?
    Em breve, com coragem me retirarei dele.
    Serão mais felizes e pessoas melhores sem mim.
    Grata por ter onde desabafar.

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    • Cara Nil, eu não a conheço e não sei da sua história. No entanto, eu gostaria de lhe pedir que antes de cometer qualquer ato contra a sua pessoa busque ajude. Há vários profissionais que possuem competência para auxiliá-la neste momento tão deliciado da sua existência. Conversar com alguém que acolha a sua dor pode lhe trazer uma nova perspectiva sobre os problemas existentes. Caso queira, escreva-me um e-mail que me proponho a ajudá-la. Abs, Nazaré Jacobucci

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